sexta-feira, outubro 06, 2006

Pra quem eu (não) votei pra presidente

Eleição no Brasil é sempre aquela coisa curiosa. Pela obrigatoriedade, fica a dúvida se é um direito ou um dever do cidadão. A resposta é sempre que é os dois, tanto direito como dever de todo brasileiro.

Então é de se supor que uma pessoa com todas as condições legais de votar, que entre com o pedido de transferência de domicílio eleitoral dentro dos prazos estabelecidos, possa exercer o direito e votar, correto?

Errado, ou como se diz aqui chotto chigau... (“não é bem assim”) Eu, estando no Japão, teria o direito de transferir meu título para cá, o que me permitiria votar para presidente domingo passado, desde que entrasse com o pedido no consulado até 3 de maio, limite estabelecido para se fazer essa solicitação. Cheguei em abril e portanto tive ainda certa folga. Fiz a solicitação antes da data limite, no dia 28 de abril de 2006.

Mas por que votar? Convenhamos, essas eleições não estavam nada empolgantes. Nenhum candidato me despertava confiança plena, dando vontade de receber meu voto. Mesmo assim, pelo que vem acontecendo no país (o que a gente sempre acompanha, mesmo à distância), com certeza havia alguns nomes a quem eu não gostaria de entregar meu voto. E não votar em certas pessoas (podendo votar em outras) também é uma forma de comunicação. Deveria passar uma mensagem.

Só que a mensagem não pode ser passada. Meu direito foi negado, pois meu título não foi transferido a tempo para as eleições e conseqüentemente não pude votar. Recebi do consulado a seguinte mensagem, alguns dias antes do pleito:

O Consulado-Geral do Brasil informa que o seu pedido de cadastramento eleitoral esta entre os que nao foram processados a tempo para votacao nas proximas eleicoes. Transcrevo abaixo trechos de oficio do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal a respeito:

"Em virtude de problemas enfrentados no fechamento do cadastro de eleitores residentes no exterior, que solicitaram alistamento ou transferencia, (...) alguns cidadaos brasileiros estarao impossibilitados de votar nos termos por eles requeridos.

Portanto, aqueles cidadaos que solicitaram alistamento eleitoral e nao constam do cadastro de eleitores nao poderao votar nas eleicoes presidenciais que se avizinham. Ja os eleitores que requereram transferencia de domicilio eleitoral deverao justificar a ausencia de voto junto a reparticao consular do local em que se encontrem, em vista de ainda constarem em seus cadastros o domicilio anterior.

Importante frisar que os cidadaos que nao poderao votar terao sua situacao eleitoral imediatamente regularizada quando da reabertura do cadastro de eleitores, que ocorrera apos a finalizacao das Eleicoes 2006."

Ou seja, não só não pude votar, como ainda tive que ir ao consulado justificar minha ausência, como se não fosse óbvio que quem tem um pedido aberto de transferência que não foi efetivado não votou por causa disso. E chovia! Se eu pudesse ter votado, ia com gosto mesmo assim. Pior, ainda tive que fazer uma solicitação de cancelamento do processo de transferência, pois a efetivação seria feita automaticamente para a próxima eleição (que só terei que votar daqui a 4 anos, pra presidente, quando já devo estar de volta ao Brasil). E não sou um caso isolado. O mesmo parece ter acontecido com todos bolsistas daqui que tentaram transferir o domicílio eleitoral pra essas eleições.

Aí começamos a divagar... Primeiro, a gente só ve o valor real das coisas quando elas nos são tiradas. O voto no Brasil não é um direito, é apenas um dever. Se o estado resolve que você não pode votar, é isso, não tem discussão. Segundo, a gente começa a se questionar sobre a validade do processo todo.

Existem cerca de 100 mil brasileiros vivendo legalmente no Japão. Nós, bolsistas, somos uma minoria, sendo a maior parte dessa população de descendentes (nikkeis), que vem em busca de trabalho para uma vida melhor. Não entrando no mérito se essas pessoas são ou não “politizadas” (até porque esse termo não quer dizer muito), é de qualquer forma surpreendente que o número de eleitores brasileiros registrados no Japão seja de apenas 558 pessoas (dado oficial do TSE de junho de 2006).

Curiosamente, Geraldo Alckmin venceu Lula fora do país. Na verdade não é de se surpreender, já que muitos que vivem no exterior são “expatriados”, que tentam uma vida melhor “além mar” por estarem insatisfeitos com a situação local.

terça-feira, setembro 19, 2006

Doutorando

Pra evitar a formação de teias de aranha nesse blog, vou dar uma atualização geral sobre as atividades do verão. Fica cada vez mais difícil escrever, não por falta de tempo, mas pelo fato do meu dia-a-dia aqui estar cada vez com menos cara de “viagem” e mais parte da minha vida normal. E escrever sobre isso não parece tão interessante.

A primeira (grande?) notícia é que dia 30 de agosto teve minha prova de admissão pro doutorado. Desde que cheguei aqui estava como “estudante de pesquisa” (kenkyusei, 研究生) que é como chamam quem faz pesquisa mas não está buscando um título. Todos os bolsistas de pós do Monbukagakusho (文部科学省) chegam aqui com esse status e só se tornam mestrandos e doutorandos depois de aceitos nos exames de suas Universidades. Os exames variam muito: alguns tem provas de conhecimento, em japonês, outros em inglês, e a dificuldade varia muito. Eu tive sorte: no meu departamento não há prova escrita e a seleção consiste apenas de uma entrevista/apresentação de 12 minutos, onde se mostra as realizações do mestrado e a proposta de pesquisa pro doutorado. Isso, claro, depois de entregar uma lista de realizações de pesquisa, de publicações, e um plano de estudos.

Fiquei muito nervoso com a apresentação. Preparei meu slides com certa antecedência e mostrei pro meu orientador. Ele gostou mas sugeriu mais alguns slides. Meu nervosismo era por dois motivos. Primeiro, apesar de confiante na defesa da qualidade do meu trabalho de mestrado, nem mesmo eu estava convencido da maturidade da minha proposta pro doutorado. Como quem é “acadêmico” sabe, isso amadurece com o tempo, e no princípio nunca se sabe ao certo pra onde a pesquisa vai se encaminhar. Segundo, não tão importante, também tinha o desconhecimento de como seria uma banca de professores japoneses. Eles entenderiam minha apresentação ou, pelo menos, as justificativas de porque gostaria de fazer o doutorado naquele departamento? Que tipo de perguntas fariam?

Foi a terceira vez que fiz uma apresentação importante (sendo as outras duas a defesa da graduação e do mestrado), e também a terceira vez que me estresso sem necessidade por causa disso. A apresentação correu bem, consegui acertar o tempo perfeitamente, e as perguntas que vieram depois, apesar de várias, foram pertinentes e mostravam que eles realmente queriam entender melhor o que eu havia feito e queria fazer, e não me colocar em uma situação difícil. Ao terminar a apresentação, ao sair da sala, apesar de não ouvir o que a banca dizia (e mesmo que ouvisse não entenderia nada), ouvi umas risadas, o que me deixou mais tranqüilo. Sabia que não havia motivos para estarem rindo de mim ou da minha apresentação, então o clima era cordial e as coisas deveriam ter saido bem.

Dois dias depois meu orientador me informou o resultado: eu havia passado. O resultado oficial veio mesmo só na semana passada, mas desde o dia 1º já estou arrumando a papelada para mudar o status da minha bolsa, me desligar do departamento antigo e ligar ao novo etc.

O melhor desse acontecimento é me permitir ver minha estada aqui com outros olhos: quando a gente chega como kenkyusei está com o futuro aqui incerto. Não se sabe até quando vai ficar no Japão nem o que se vai fazer. Agora eu sei. Fico aqui pelos próximos 3 anos, pesquisarei, escreverei minha tese e, sabendo disso, posso me programar pra aproveitar da melhor forma possível meu tempo livre nesse canto do mundo.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Minha “casa”

Hoje estava fazendo uma limpeza aqui no meu quarto, e me dei conta que nunca mostrei fotos de onde eu moro. Aproveitando que está tudo arrumado e limpo, seguem então algumas fotos (o quarto é pequeno, quatro fotos são suficientes pra mostrar tudo):

A casa é sua, vá entrando...

Minha escrivaninha, com o computador que também faz papel de TV e a estante com livros e outros badulaques.

Pelo outro lado, a cama (meu futon está dobrado lá em cima, coloco ele sobre a cama para dormir), e a janela.

Em direção à porta: à esquerda a mesa onde eu faço lanches, minha “dispensa” e o refrigerador (embaixo à direita). Tem meu ventilador também, mas o quarto tem ar condicionado.

Finalmente, meu banheiro. O chuveiro é lá fora, compartilhado mas individual, felizmente limpo também.

Claro, tem dormitórios melhores, mas esse meu não é ruim. A visita foi rápida, voltem sempre... ;)

sábado, agosto 19, 2006

Ingresso comprado

Posso não gostar tanto assim de futebol, mas essa oportunidade eu não ia perder. Compramos hoje (eu, o Mário e o Marco - dois outros gaúchos e colorados) nossos ingressos para os jogos do Inter, dias 13 e 17. Vamos de categoria 1, pra que nossa faixa pro Galvão Bueno apareça na TV, hehehe. Aos que vem, nos vemos lá, aos que não, procurem tres pontinhos vermelhos na TV. ;)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Glória do desporto nacional

Logo que saiu a confirmação da minha vinda aqui pro Japão, aproveitando a boa campanha do Inter até então, mas também com certo deboche, coloquei no meu MSN a expressão “Colorado rumo a Tóquio”. Claro, já tantas vezes o Inter havia “morrido na praia” que qualquer resultado positivo era motivo pra alimentar a esperança colorada, o que acabava virando motivo de piada até entre seus próprios torcedores.

Sempre digo que não gosto de futebol mas, como é obrigação de todo brasileiro, tenho que “torcer” por um time, e por motivos familiares esse time é o Inter. Daí a brincadeira: eu, colorado, estava vindo rumo a Tóquio. Só isso. Não imaginava de verdade o Inter disputando a final do interclubes aqui no Japão.

Dizia, quando o Inter ia mal, que esse meu desinteresse por futebol não era devido a fase. Que era o mesmo estando o Inter bem ou mal. Agora, com o time campeão da Libertadores, continuo pensando da mesma forma. Ainda não gosto de futebol, mas fico feliz por todos os colorados, e mais feliz porque acredito que muitos vão se esforçar ao máximo para vir assistir aos jogos em Yokohama em dezembro.

Por isso, nas próximas semanas, vou começar a colocar aqui dicas de onde ficar, comer, como se locomover, e o que visitar em Tóquio.

Saudações coloradas!

quarta-feira, agosto 02, 2006

Flores de fogo

Se na sexta-feira entramos de férias da aula de japonês, já no sábado tivemos nossa primeira “atividade de lazer”: o festival de fogos do Sumidagawa (隅田川花火大会) em Asakusa (浅草), bairro mais tradicional de Tokyo.

Festivais de fogos são uma tradição nas noites de verão do Japão. Com as temperaturas mais amenas, milhares de pessoas se reunem nas margens dos rios para assistirem espetáculos preparados durante todo o resto do ano. O Sumidagawa é um desses rios e seu festival está entre os mais famosos. Por ter origem num festival antigo, é considerado um evento com mais de 270 anos de tradição. A queima de cerca de 20 mil fogos reune mais de meio milhão de pessoas, todo ano.

O início do show estava marcado para às 19:10, mas resolvemos ir mais cedo, na metade da tarde, para encontrar um lugar bom e dar uma passeada pelo local. O dia estava agradável e não havia motivo pra ficar em casa enrolando. Ao sairmos do dormitório encontramos uns amigos, de quem nos perdemos no caminho até Asakusa e pensamos não mais encontrar (nesse dia, é claro). Também, haviamos combinado de nos encontrar com um outro grupo, mas sabendo a quantidade de gente que deveria estar por lá achamos que ía ser muito difícil encontrá-los. Chegando em Asakusa, paramos pra comprar umas coisas para comer - eu comi um yakisoba (焼きそば) e uma amiga um takoyaki (たこ焼き) - e, pra nossa grata surpresa, logo numa esquina já encontramos o pessoal que haviamos perdido. Ligamos para o outro grupo que, através de uma referência aqui, outra ali, também encontramos, em um grande campo de esportes onde várias pessoas se preparavam para assistir aos fogos.

Nosso lugar não era dos melhores. As pessoas aqui costumam ir cedo pro local do evento e estender umas lonas, marcando o lugar para suas famílias e amigos. Os nossos tinham recém chegado e posto apenas umas esteiras em um lugar mais lateral do campo, não tinha comparação com os lugares que os japonêses madrugadores conseguiram. No nosso lugar havia algumas árvores, tapando parte da vista onde, esperávamos, estariam os fogos. Mesmo assim, tinha espaço pra todo mundo, dava até pra se deitar pra curtir o espetáculo, e, por estarmos juntos com o pessoal “nativo” compartilhávamos o espírito do evento. Era um lugar bacana.

Já disse outra vez, mas não custa dizer mais uma: apenas em uma situação os olhinhos dos japoneses se abrem, que é pra ver fogos de artifício. Eles ficam fascinados. Mas é fácil de se entender. No Brasil, somente nos últimos anos que começamos a ter fogos mais elaborados. Por muito tempo, fogos eram sinônimo de “rojão” e barulho. Aqui, os fogos tem que ser, antes de tudo, bonitos: como tudo aqui, visuais. Até o nome expressa isso. Para eles fogos de artifício são flores de fogo (花火, hanabi).

Esses festivais são encantadores, não só pela complexidade dos fogos (às vezes são até bastante simples) nem pelo exagero. O mais legal, pra mim, é o ambiente, a atmosfera. As pessoas na rua, vestidas com seus trajes típicos de verão - yukatas (浴衣) e jinbeis (甚平) - num clima familiar. Crianças, jovens, idosos, todos aproveitando o momento juntos. As barraquinhas de comidas típicas. Nada de tumulto (exceto pelo tumulto natural causado por qualquer reunião de 900 mil pessoas), é tudo muito tranqüilo. Mesmo que não seja para ver os fogos, só estar ali, naquele lugar e no meio daquela gente, já é muito agradável.

E os fogos, que tal? É o tipo da imagem que não dá pra descrever. O que dá, sim, é pra falar da sensação de estar ali assistindo. O deslocamento de ar de cada explosão, quando chega na gente, é como se nos transmitisse toda aquela energia que acabamos de ver, nos afetando, nos dando alegria. É impossível não ficar feliz. Se esquece qualquer problema, chateação ou preocupação. Mas eu não consigo descrever direito. Quem descreve bem esse fascínio que os fogos causam na gente é a Martha Medeiros, escritora gaúcha (e filha do meu dentista, hehehe), numa crônica que minha mãe gosta muito: “O motoboy e os fogos de artifício”, da qual transcrevo uma parte:

Nossas cabeças estão sempre olhando pra baixo, para os próprios passos, para o caminho a percorrer. Fogos de artifício nos retêm. Erguem nossas cabeças, iluminam o que é escuro, capturam a gente de uma realidade burocrática, repetitiva, sem festa. Fogos de artifício são sinalizadores, há alguém feliz bem próximo, e está repartindo esse estado de espírito com você, que não viveu nada de extraordinário hoje, que estava louco pra chegar em casa, tirar a roupa suada, tomar um banho e ver um pouco de televisão.

De forma melhor que ela fez, não dá pra escrever. O máximo que posso fazer é deixar vocês com 20 segundos do meu estado de espírito, antes que voltem pras suas televisões.

segunda-feira, julho 31, 2006

Finalmente, de férias

Nessa sexta-feira terminou nosso curso de japonês. Foram 3 meses de muitos conversation challenges, review quizes e shukudais (宿題, lição de casa), mas também de momentos alegres e divertidos, novas amizades e muito aprendizado.

Nossas aulas aconteciam todos os dias de manhã, das 9:10 às 12:40, dividas em dois períodos. O primeiro terminava às 10:50 e nele sempre tinhamos aula de gramática, onde víamos padrões de expressões em japonês - do tipo “se... então”, “... por causa de ...”, “acho que...”, “preciso fazer...”, “gosto de...” etc. O difícil dessa aula era o fato de alguns desses padrões não terem uma tradução direta para as nossas línguas ocidentais, ou então pela forma estranha em que se expressam em japonês (por exemplo, para se dizer que se precisa fazer alguma coisa, literalmente se diz que ‘se a coisa não acontecer, não “vai”’).

A segunda aula sempre tinha atividades variadas, como os conversation challenges (onde encenávamos situações “reais” e as gravávamos em vídeo, que depois resultavam em várias risadas durante a exibição), ou as aulas de kanji (漢字, ideogramas), de audição e de leitura. A qualidade dessas aulas variava muito. Algumas eram realmente boas, interessantes e divertidas, mas outras bastante chatas e cansativas.

Duas vezes por semana tinhamos também aula à tarde, das 13:30 às 15:10. Nas tardes de terça-feira tinhamos mais práticas de diálogos (sem gravação, dessa vez) e nas da sexta-feira sempre um testezinho sobre os conteúdos visto na semana.

E não sei se é algo específico das aulas de japonês ou se acontece com todas as aulas por aqui, mas o pessoal nunca sai durante a aula para ir ao banheiro, beber alguma coisa ou dar uma volta. Para isso, os professores fazem um intervalo curto de uns 5 minutos na metade de cada período, a cada cerca de uma hora. Isso é muito bom! Ajuda a tornar a aula menos cansativa, que acaba rendendo mais por não ter interrupções, e quando se começa a ficar cansado, sabe-se que em alguns minutos já vai ser possível esticar as pernas, dar uma volta, ou apenas colocar o papo em dia com os colegas.

Na foto, de pé: eu (Brasil), Purev (Mongólia), Simon (Inglaterra), Chris (Suiça), Sérgio (Moçambique), Akkhara (Tailândia) e Hugo (Brasil). Sentados: Haus e Som (Tailândia) e Ohmmar (Mianmá).

Falando em colegas, engraçado é que no início esses eram apenas pessoas de países exóticos, de lugares de onde pouco se sabia, mas aos poucos foram se tornando cada vez um pessoal mais familiar e amigo, quando começamos a conhecer as personalidades, gostos e opiniões de cada um. Não só pela nacionalidade, mas também pela personalidade individual de cada um de nós, nossa turma era bastante diversa, o que a tornava mais interessante.

Mas assim não foi só com os alunos. Logo vimos que os professores, também, vinham nos mais diferentes tipos. No total tivemos cerca de 12 professores diferentes durante o curso. Havia a professora que se empenhava ao máximo para que nós aprendessemos, a outra que era divertida, uma que, de início, pensamos ser “malévola” mas na verdade apenas não tinha muita didática. Também, um professor engraçado (e fanático de futebol, deu pena a cara de derrotado dele quando o Japão foi eliminado da copa), o professor com “tiques”, a professora desajeitada, e ainda o professor que sabia muito, mas era meio desorganizado. Mesmo assim, todos grandes pessoas, boa companhia que vai fazer falta no dia-a-dia.

Na última semana, portanto, demos um jeito de reunir todo o pessoal. Saímos para jantar na quarta-feira. Conseguimos fazer todos os alunos irem, mas devido ao fim do semestre, apenas 4 das professoras se juntaram a nós. Pelo menos duas das professoras mais legais, a Maehara Sensei (前原先生) e a Fujishiro Sensei (藤城先生) vieram com a gente.

Maehara Sensei era a responsável pela nossa turma. No início tínhamos aula com ela durante dois períodos por semana, mas depois da primeira prova, quando houve uma mudança de professores, ela ficou apenas com a aula do teste e da revisão semanal. Ela era a que mais se preocupava com nosso aprendizado, acompanhando o progresso de todos, tentando identificar dificuldades, e coordenando as atividades dos demais professores.

Já a Fujishiro Sensei era a professora das aulas de diálogo, a professora mais divertida e bem humorada. Ela me causou um ataque de riso durante uma aula quando, ao dar exemplos de estruturas de frases, usou a expressão honya honya no lugar de blah blah blah. Mas o jeito que ela falava era tão engraçado, não deu pra segurar. Ela ficava repetindo, e como sempre estava bem humorada, não se importou, entendeu que a risada era do honya honya. Mais tarde, no fim do semestre, ela nos contou que seu apelido de infância era justamente funya funya, uma contração de Fujishiro com o honya honya, pois ela falava muito e os outros só entendiam o honya honya. Tudo fez sentido!

Todas as turmas devem dizer a mesma coisa: que eles são a turma mais divertida. O fato é que o convívio diário com gente tão diferente, mas com o mesmo objetivo, em um ambiente informal e descontraído, só pode ser positivo. Mesmo assim, consideramos que a nossa turma em especial foi uma que se integrou bastante bem.

terça-feira, julho 25, 2006

Pequenos detalhes

São nos pequenos detalhes que a gente se dá conta de que está no Japão. Por exemplo, se eu encontro um cabelo na minha comida, é sempre muito fácil dizer se ele é meu ou da cozinheira1. :)

1 - felizmente, até agora ele sempre foi meu...

segunda-feira, julho 24, 2006

Baixinho japonês

Já que o pessoal gostou do último vídeo, vai mais um, talvez não tão impressionante como o anterior mas também divertido. Esse é do outro domingo, dia em que fomos ao Museu Nacional de Ciências Emergentes e Inovação, em Odaiba (お台場), onde vimos uma apresentação do ASIMO.

ASIMO é um robô humanóide da Honda. Ele mede cerca de 1,3m e pesa uns 55kg, foi criado nos anos 80 e, apesar da idade, ainda é capaz de fazer coisas impressionantes, como caminhar, subir e descer (algumas) escadas, fazer movimentos com os braços e mãos e, de forma simples, “dançar”. Mas sua habilidade não se compara a de modelos mais recentes, como o QRIO da Sony.

quarta-feira, julho 12, 2006

Nós, as sardinhas

Quando eu comento com as pessoas que o mais difícil da vida em Tokyo é se habituar com os trens, elas tem certa dificuldade de entender o que eu realmente quero dizer. O problema não é achar a linha ou a estação certa: isso até que é fácil pois tudo é muito bem sinalizado, às vezes até em inglês. O problema mesmo é suportar o aperto extremo de algumas linhas nos horários de pico.

Como a minha aula de japonês é de manhã (às 9:10), sou obrigado a pegar uma dessas linhas. A linha da empresa Odakyu (小田急), em especial, é bastante cheia, pois termina em Shinjuku (新宿), que não por coincidência é a estação de trem mais movimentada do mundo, com uma média de 3,22 milhões de pessoas passando por ela diariamente. Felizmente não vou para Shinjuku, e troco de trem duas estações após embarcar (o que dá apenas uns 10 minutos de viagem nessa linha), mas já é o suficiente pra desanimar.

Os trens são tão lotados que os funcionários da estação (os ekiin, 駅員) todos os dias precisam fazer o famoso gyugyu osu (ぎゅうぎゅう押す) pra ajudar no embarque dos passageiros. Osu significa empurrão, e gyugyu, segundo meu conceituado dicionário de japonês, é: 1. squeeze (things) into (a small space); 2. pack (people) like sardines.

Mas se uma imagem vale mais do que mil palavras, um vídeo vale mais do que várias imagens, e por isso disponibilizo o vídeo abaixo pra que vocês também possam ver como nós, sardinhas, passeamos por Tokyo todos os dias1. É tragicômico, e o melhor é levar na esportiva e bom humor, encarando como a forma japonesa de “integrar” os mais diversos tipos de pessoas, independente de raça, credo, sexo ou idade, apenas pela sua veneração (e dependência) do sagrado densha (電車). :)

1 - Na verdade eu quase sempre tento não pegar o trem que vai pra Shinjuku, mas sim uns menos freqüentes que seguem por outra rota. Ainda assim, pego um trem cheio, mas não absurdamente como estes aí.

sexta-feira, julho 07, 2006

Direita ou Esquerda?

Os Estados Unidos têm a California e Nova Iorque, no Brasil, a rivalidade tradicional é entre São Paulo e Rio de Janeiro. O Japão não podia ser diferente e também mantém a disputa entre duas de suas principais regiões metropolitanas, Kanto (関東) e Kansai (関西).

Kanto é a região de Tokyo. É fácil lembrar do nome, pois se a gente visualiza o mapa do Japão como um “L” invertido, a região de Kanto fica bem no “canto”. :) Kansai é a região que circunda a cidade de Osaka, segunda maior e mais importante Japão, considerada por muitos uma “mini Tokyo”.

Num país pequeno que tem área total semelhante a dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina juntos (mas com uma população igual a quase 70% da do Brasil inteiro), é engraçado pensar que possa ter diferenças entre pessoas que tem origem tão parecida e vivem tão próximas, mas cada um desses “povos” tem uma identidade cultural própria.

Kanto é o coração econômico do Japão. A vida lembra a de qualquer mega metrópole do mundo, se bem que parece menos competitiva por aqui. O que sinto é que as pessoas parecem mais resignadas, talvez conformadas com o dia-a-dia nesse mar de gente. São menos interessadas e mais mecânicas: um formigueiro é uma comparação mais apropriada do que parece.

Kansai, apesar de centrada em Osaka que é uma cidade moderna, é a região mais “tradicional” do Japão, já que lá fica, além de Kyoto, Nara, outra antiga capital. A região tem seu dialéto próprio do japonês, com expressões únicas e um falado mais suave, que alguns dizem lembrar o francês. Isso já é forçar demais, mas mesmo pra quem não entende uma palavra de japonês dá pra sentir um soar diferente. Pode ser impressão minha, também, mas sinto serem as pessoas lá mais curiosas, interessadas, e conseqüentemente parecem menos distantes e frias.

Tem uma pequena diferença entre Kanto e Kansai que é bem mais simples mas não menos curiosa. Em tudo que é lugar no Japão tem muita gente, e por isso eles criam regrinhas pra que as coisas funcionem de forma mais eficiente. Uma dessas regras é a determinação de em qual lado de uma escada rolante se fica parado, e qual se deixa livre para as pessoas com pressa ultrapassarem. E essa regra se inverte quando se viaja de uma região pra outra.

Aqui em Tokyo se pára na esquerda, e se ultrapassa pela direita. Parece estranho mas faz sentido, considerando-se que o trânsito de automóveis no Japão obedece a mão inglesa que estabelece a mesma coisa. Em Osaka, por outro lado (literalmente), se pára à direita e se ultrapassa pela esquerda. Isso é suficiente pra irritar muita gente quando uma pessoa que vêm da outra região resolve andar de escadas rolantes e parar do lado “errado” da escada.

Ouvi uma explicação pra essa história toda, que não sei se é a verdadeira mas faz sentido. Segundo ela, tudo isso começou quando Osaka sediou a exposição mundial de 1970 (EXPO'70). No parque de Osaka foram instaladas centenas de escadas e esteiras rolantes para ajudar no enorme fluxo de pessoas e, como era a primeira vez que se fazia uso extenso disso com muita gente, anúncios informavam às pessoas para que dessem a passagem pela esquerda, como se fazia no ocidente, de onde vinha a idéia.

As pessoas gostaram da idéia, e esse hábito foi levado pro resto do Japão e para Kanto, onde também havia muita gente circulando pelas escadas rolantes. Mas, seguindo o dito de que o forte de japonês não é criar mas sim aprimorar, resolveram em Tokyo utilizar a técnica de acordo com a mão inglesa, já usada no trânsito de veículos, e assim nasceu a insconsistência.

Não sei se é assim mesmo que aconteceu, mas só o fato de ter a diferença já é curioso. Eu, como na política, não sou nem “de esquerda” nem “de direita” por aqui. Como seria grosseria ficar parado no “centro” da escada, o que eu costumo fazer é sempre parar atrás da pessoa que já está parada. E se não tiver ninguém na escada? Isso é o Japão: é raro nunca ter ninguém na tua frente na escada (tem muita gente aqui em qualquer lugar!), mas quando isso acontece, bom, aí sim, segue-se essa “regra da escada”.

segunda-feira, julho 03, 2006

Regresso a Kyoto - parte 3

Já faz duas semanas que eu voltei de Kyoto, e ainda não terminei de escrever sobre minha visita. Vou fazer, então, um resumo rápido de como foi o último dia.

No domingo reencontrei amigos. Almocei com a Mariko (真理子), que trabalhava do meu lado, e a irmã dela, Asuka (明日香) que a Mariko me apresentou quando fiz a apresentação sobre o Brasil, e encontrei mais algumas vezes depois disso. Fomos num restaurante italiano bom e barato perto da estação de Kyoto. Conversamos bastante, rimos muito. As duas são bem queridas e divertidas, e continuam as mesmas da outra vez.

Pela tarde reencontrei a Hanako (花子), que foi minha manager (jargão da AIESEC para a pessoa responsável por um trainee) e se tornou uma das minhas melhores amigas aqui no Japão. Ela está morando em Osaka, onde começou a trabalhar em abril numa empresa importante de farmacêuticos. Por isso, não tem mais muito contato com a AIESEC Doshisha e não foi na janta no dia anterior. Mas no domingo, quando estava mais livre, fez questão de ir até Kyoto para me reencontrar.

Como estávamos cansados, fomos no Campus Plaza, um prédio do consórcio das universidades de Kyoto com várias salas de reuniões e de estudos, acesso a internet, etc. Fomos conversar no mesmo lugar onde, 3 anos antes, fizemos a reunião final antes do festival onde vendemos pastéis. Conversamos sobre a vida dela em Osaka e a minha em Tokyo, sobre planos, esse tipo de coisa. Uma conversa franca que prova que ela realmente é minha amiga (japoneses não se abrem muito quando estão só sendo simpáticos).

Terminando nossa conversa, peguei o metrô e fui para o Museu de Kyoto, pois a Sra. Magata havia me pedido um “favor”. Ela se registrou como voluntária do Museu para fazer visitas guiadas, em inglês, para turistas, mas até então nunca havia feito isso. Por esse motivo, se sentia insegura e gostaria de me “usar de cobaia”, fazendo uma primeira visita comigo para ver como se saía.

Eu já conhecia o museu, havia estado lá da outra vez e feito uma visita guiada justamente com uma dessas voluntárias, que me explicou muito do museu, focado principalmente na história de Kyoto e portanto também numa parte importante da história do Japão. O museu é interessante e recomendável. Ao chegar no museu, um dilema: a Sra. Magata me perguntou se eu já havia estado lá, e fiquei na dúvida se dizia que sim ou não. Acredito que, além do motivo de testar sua explicação sobre o museu, ela havia me convidado como uma atividade de entretenimento, da mesma forma que na primeira estada em Kyoto me levou para assistir apresentações de dança e teatro típico japonês. Se eu dissesse que já havia estado lá, esse sentido deixava de existir. Por outro lado, se eu dissesse que era a primeira vez que visitava o museu, colocava mais responsabilidade sobre a apresentação que ela faria. Na dúvida, optei pela gentileza, e disse que nunca tinha estado ali antes.

A visita não foi ruim, mas a explicação da outra voluntária na primeira vez foi muito mais clara e completa. Claro, experiência é fundamental. Mesmo assim, foi divertido andar pelo museu mais uma vez, pois algumas coisas lembrava e outras havia esquecido, e essa segunda visita ajudou a relembrar um pouco dessa parte esquecida. Tentei dar um apoio a ela, dizendo que a visita foi interessante e com a prática ficaria muito boa. Ela não pareceu muito convencida, mas acho que mesmo assim seguirá tentando. Me dispus a visitar o museu com ela mais uma vez em uma próxima visita a Kyoto.

Saindo do museu, voltamos até a estação de Kyoto, onde ela voltou para casa e eu fiquei esperando meu ônibus, que dali sairia em algumas horas de volta a Tokyo. Antes, claro, recebi uns presentes da Sra. Magata: uma capa de tecido para colocar em livros e um copo pintado a mão. Ambos os produtos são de uma loja1 da cooperativa onde ela trabalha, que auxilia deficientes físicos a encontrar ocupações profissionais. A capa e o copo são feitos por alguns desses deficientes. O envolvimento da Sra. Magata com essa cooperativa aconteceu ano passado, quando ela sofreu um acidente de carro e ficou alguns meses sem poder caminhar (agora ela já está 100% recuperada). Com isso, ela teve que fechar a padaria que tinha, foi trabalhar numa padaria dessa cooperativa, e conhecendo-a, começou a se envolver mais. Algumas das senhoras que participaram da janta no dia da minha chegada também eram dessa cooperativa.

Agradeci os presentes, agradeci a estada, mandei saudações para o resto da família. Ela me disse que quando voltasse a Kyoto, que mais uma vez ficasse na casa deles. Comentei que se visitassem Tokyo, entrassem em contato que podiamos sair para passear. Mas, mais uma vez, naquela sinceridade que os japonêses só mostram quando realmente te consideram como um amigo próximo, ela disse que não gosta de Tokyo. Eu também, se vivesse em Kyoto, não gostaria. Mesmo assim, era pra lá que devia voltar.

Peguei o ônibus domingo à noite, chegando em Tokyo segunda-feira cedo pela manhã. Como minha casa é longe da Universidade, fui direto para a aula de japonês, mas o prédio ainda estava fechado. Fiquei uma meia hora sentado na escadinha na frente do prédio, descansando um pouco da noite mal dormida no ônibus, até que um dos seguranças da Universidade chegou para mim e disse, em um bom inglês, que me surpreendeu:

- This building usually opens at 8:00, but today, specially for you, I will open it at 7:30.

Wow, o prédio abriu só pra mim. :) Entrei, fui para o lounge dos estudantes internacionais, e dei uma cochilada até o horário da aula, perto das 9:00.

O fim de semana tinha sido perfeito e a pergunta tinha sido respondida: sim, o Japão continuava o mesmo. As pessoas continuavam amigáveis, os lugares familiares ainda estavam lá. E decidi que, se me sentisse desanimado com minha vida em Tokyo de vez em quando, voltaria sempre a Kyoto, para recarregar as baterias e renovar o espírito.

1 - A loja fica no 9º andar da loja JR Isetan na Estação de Kyoto, se alguém tiver interesse quando estiver por lá.

quinta-feira, junho 29, 2006

Regresso a Kyoto - parte 2

Apesar de ter almoçado com o Yone sexta-feira na Horiba, a minha visita a ele ainda não estava completa, pois eu tinha que visitar sua casa e família. E por que eu deveria visitar sua família? Bom, porque eu faço parte (pelo menos de uma pequena parte) da história dela...

Yone era um dos meus colegas de trabalho quando fiz o estágio em 2003 em Kyoto. Seguidamente nós, os trainees estrangeiros, e alguns outros colegas saíamos para jantar após o trabalho. Na região onde fica a Horiba não havia muitas opções, então costumávamos ir em um pequeno restaurante, cerca de meia da empresa caminhando. Era um restaurante simples e familiar (se bem que, havia boatos, alguns Yakuza costumavam ir lá de vez em quando depois de sair do Pachinko). A dona era uma senhora, e a filha dela, Maki, atendia no restaurante.

Maki, apesar de falar pouco inglês, era sempre muito atenciosa com a gente. Não fosse pelos nossos colegas que nos levavam até lá, dificilmente outros estrangeiros iriam ao seu restaurante, então ela sempre aproveitava a oportunidade para conversar conosco, além de nos explicar os pratos e dar sugestões. Como ela era praticamente da nossa idade, começamos a convidá-la quando nos reuníamos para fazer alguma coisa, ir em algum lugar, ou até cantar no Karaoke.

Sentimos que Yone gostava da Maki, mas não demonstrava muito. Sentimos que Maki talvez gostasse do Yone, mas com a falta de demonstração do Yone também não demonstrava muito. Demos o empurrãozinho necessário, comentando com o Yone que talvez ele devesse convidar a Maki pra sair.

Bom, meu estágio terminou e o resto da história acompanhei pelos mails enviado de tempos em tempos pelo Yone e pela Maki. Nos 3 anos seguintes, eles namoraram, casaram, compraram uma casa e, alguns dias antes de eu chegar ao Japão, tiveram uma linha filhinha, chamada Mao.

Voltei de Osaka para Kyoto no sábado depois do almoço para visitar a nova casa de Yone, reencontrar a Maki e conhecer a pequenina Mao-chan. A casa é grande, nova, bem decorada. E a pequena Mao é calminha e bem comportada. Tem 3 meses e portanto ainda não repara na minha cara de estrangeiro, mas possivelmente ouviu inglês pela primeira vez na minha visita à sua casa. Conversamos muito, eu, Yone e a Maki, enquanto a Mao só dormia. Falamos dos acontecimentos posteriores a minha volta ao Brasil, sobre o que aconteceu com outros estagiários e funcionários da Horiba. A conversa era predominantemente em inglês mas às vezes mudávamos para o japonês. Fiquei umas 3 horas na casa deles, conversamos muito e o tempo voou, mas tive que ir embora pois a tardinha ainda tinha outro compromisso: reencontrar o pessoal da AIESEC.

Já escrevi antes, mas, pra quem não sabe, a AIESEC é a organização de estudantes que promoveu meu estágio em 2003. Muitos dos estudantes do escritório da AIESEC na Universidade Doshisha, responsáveis pelo meu estágio, se tornaram grandes amigos, então não podia deixar de reencontrar alguns deles. Quando avisei que estava indo para Kyoto, logo organizaram de reunir os (ainda) membros e sair para jantar comigo.

Parte dos membros que conheci se formou, e por isso não fazem parte mais da AIESEC. Alguns se mudaram de cidade por causa de seus novos empregos. Mas outros, que na época haviam recém entrado no escritório, hoje já são “veteranos”, e foram jantar com a gente. Além deles, havia os que entraram depois, incluindo os que recém entraram em abril desse ano. Foi legal conversar com esses membros novos, que ainda não tiveram contato com os trainees estrangeiros (a AIESEC Doshisha só os recebe no verão, isto é, na metade do ano). Esse convívio, de forma geral, é o espírito da AIESEC. Conversamos, perguntei sobre o que estudavam, porque entraram na AIESEC e o que esperavam dela. Foi bem divertido. Me contaram, também, que este ano vão receber um outro trainee brasileiro e, mundinho pequeno, também gaúcho, de Santa Maria. Conversei também com o pessoal que conheci da outra vez. Relembramos situações, pessoas, enfim, aquele bom tempo que passei em Kyoto em 2003.

Fomos comer Yakiniku (焼き肉), um tipo de refeição japonesa (na verdade a origem é coreana) que lembra um fondue de carne. São fatias finas de carne que são colocadas sobre uma grelha, e essa fica em cima de um recipiente com carvão em brasa, no centro da mesa. Além da carne, às vezes são servidos também salsichas, espigas de milho, cogumelos e alguns outros vegetais, mas o bom mesmo é a carne. O pessoal vai colocando a comida na grelha com os hashis, e tirando a medida que fica pronto, mergulhando numa tigelinha com um molho parecido com shoyu. É muito bom.

Saímos tarde de lá, passamos ainda em um puricura (プリクラ), um lugar que além de jogos tem aquelas maquininhas de tirar fotos de grupos, e depois enfeitá-las e imprimí-las em adesivos, e depois de tirar algumas fotos pra registrar o momento, peguei o último trem de volta a casa dos Magata. Mais uma vez, uma grande noite de sono.

No domingo, último dia, ainda reencontrei mais algumas pessoas, mas isso fica para o terceiro e “derradeiro” post...

domingo, junho 25, 2006

Regresso a Kyoto - parte 1

Feito o exame parcial de japonês, quinta-feira da outra semana, o plano era pegar o ônibus noturno rumo a Kyoto (京都), para aproveitar a sexta-feira sem aula.

A história da compra da passagem, que antes havia comentado, nem é tão interessante. Perguntei uns termos chave (“ônibus noturno”, “ida e volta”, etc) pra minha professora de japonês e lá fui eu para a estação de Tokyo (東京駅), pro conversation challenge1 de verdade. Pra ajudar, fui com tudo anotado: se a atendente não entendesse algo do meu japonês eu mostrava escrito pra ela o que queria.

Chegando lá, começou tudo conforme o script. Expliquei para onde queria ir, que tipo de passagem, e data. Só que depois disso, entretanto, ela fugiu do script que eu esperava: em vez de me dizer o preço, começou a falar um monte de coisas em japonês, ficou quase um minuto falando. Entendi uma só palavra do que ela disse: “doriimu” (ドリーム), que eu sabia que era “dream”, um dos tipos de ônibus. Não tive dúvida, ela estava querendo saber que tipo de ônibus eu queria. Disse pra ela “yasui no kudasai” (安いの下さい, um barato por favor) e ela entendeu. Ficou uns 2 minutos digitando no terminal até que me disse “hai, arimasu” (はい、あります, sim, tem). Tudo certo. Comprei a passagem, que por isso acabou saindo mais barato do que eu planejava, graças a essa “fuga do script”.

Saí da prova, que foi mais fácil do que esperava, voltei pra casa, arrumei tudo pra ter tudo limpinho quando voltasse, e me toquei pra estação. Peguei o ônibus as 21:50. A viagem não foi confortável. Esse ônibus mais barato era semi-leito. Tinha 4 assentos por fila, e ninguém viajando ao meu lado (o ônibus estava bem vazio), mas a divisória de apoio do braço entre os assentos era preso e não levantava. Pior, ela ía até embaixo e não dava nem pra passar as pernas por baixo dela. Cheguei em Kyoto ainda antes das 6:00. No ônibus, olhando pela janelinha, já comecei a reconhecer lugares. Uma esquina, uma loja, lugares por onde eu tinha a lembrança de já ter passado.

A minha viagem a Kyoto tinha dois objetivos principais. Não era uma viagem de turismo, claro, pois eu já havia morado ali e conhecia bastante bem aquele lugar. O primeiro objetivo era rever muitos amigos, colegas, e a família onde tinha morado da outra vez. Mas havia também a tentativa de responder uma dúvida que eu tinha desde que cheguei à Tokyo: O Japão havia mudado, ou era apenas a vida em Tokyo que era tão diferente?

Chegamos na estação de Kyoto e ela estava exatamente da mesma forma. Como era cedo, não havia ninguém na rua, e como o tempo estava bom, aproveitei pra tirar umas fotos (algumas dessas fotos estão na minha página do Flickr). A única coisa pra se fazer cedo pela manhã, num dia agradável, é caminhar pelas ruas. Fui aos templos mais centrais de Kyoto. Na verdade havia uma mudança: um dos templos mais importantes, o Higashi Hongan-ji (東本願寺) está em restauração e o prédio está completamente coberto por uma estrutura metálica, que só será removida em 2011. Da outra vez que eu pra lá fui o templo estava aberto, mas o seu “par” Nishi Hongan-ji (西本願寺) estava também em restauração e coberto. Talvez tivessem começado a reforma do templo do leste (Higashi) por terem terminado a reforma do templo do oeste (Nishi), então fui para o outro verificar se agora ele estava exposto. Não, ainda está fechado, o que é bastante frustrante para um visitante que chega em Kyoto pela primeira vez nessa época.

Fiz uma longa caminhada, fui a um templo mais para longe do centro, para Gion (祇園), o bairro mais tradicional, e para as ruas de comércio (que ainda estavam fechadas). Tudo estava da mesma forma, conhecia as ruas por onde andava e me sentia “em casa”. Próximo ao meio dia, porém, terminei minha caminhada para ir a Horiba, a empresa onde havia feito o estágio em 2003, onde havia combinado de almoçar com antigos colegas. Peguei o trem, lembrava a plataforma, a estação de destino, até o valor do bilhete. Nada havia mudado. Desci próximo à Horiba, fiz a pequena caminhada que fazia todos os dias entre a estação e a empresa, e parecia que havia andado naquele caminho no dia anterior. Chegando lá poderia ter entrado e subido normalmente, mas achei melhor ligar para meus colegas e avisar que havia chegado. Eles desceram e juntos fomos almoçar no restaurante da empresa, onde comi o mesmo que costumava comer sempre: udon (饂飩), um tipo de macarrão japonês.

No restaurante, as mesas, as pessoas com os uniformes, os rostos, tudo estava igual. O Japão, em algumas coisas, não é um país de mudanças. Algumas pessoas me olharam com cara de reconhecimento, e para as com quem eu havia conversado da outra vez, disse algo do tipo: “sim, sou eu mesmo” e contei o que estava fazendo ali. Foi o início de um grande fim de semana no qual confirmei que não, o Japão não havia mudado, mais que isso, as coisas continuavam ainda mais intocadas do que eu esperava.

À tarde encontrei o Cristiano, um brasileiro que veio para o Japão comigo no mesmo programa, mas que estuda em Kyoto. Fomos ao rio Kamogawa, lugar onde costumava gostar de ir, e conversamos bastante sobre nossos primeiros meses no Japão. Para ele, primeira vez por aqui, uma fase de ainda mais surpresas e descobertas. Mesmo assim, encontramos vários sentimentos comuns, como o fato de nos sentirmos “crianças” que se sentem realizadas por conseguirem desempenhar as tarefas mais simples do dia a dia. Havia trazido do Brasil um guia de transportes de Kyoto, que ganhei da outra vez que vim, e deixei o guia com ele.

Antes de ir para Kyoto, escrevi para meus conhecidos para informar que estava indo, e tentar marcar alguma oportunidade de reencontro. Como a família onde havia ficado não tinha email, enviei um postal de Tokyo, com minhas informações de contato. Dois dias depois de enviar o postal recebi um recado da família “pedindo” (uma forma japonesa de oferecer) para que eu ficasse na casa deles. Obviamente aceitei, e então na sexta à noite, como combinado peguei o mesmo trem que todo dia pegava para a viagem de cerca de uma hora até a casa deles. Mais uma vez, tudo continuava exatamente da mesma forma, não demonstrando que o tempo havia passado.

Lá chegando, havia uma janta especial para mim. Bastante comida, e coisas que eu gostava. Senti que a Sra. Magata lembrava dos meus gostos: havia fatias de carne, frango, batata. E convidados também, colegas da Sra. Magata, e a Sra. Nakagawa, mãe da segunda família onde havia ficado. Me senti muito bem de estar de volta, e não havia estranheza por não nos vermos a tanto tempo. O que também ajudou foi eu ter escrito de vez em quando para eles durante esses anos, o que fez com que eles também me escrevessem de volta com as novidades.

Atsushi, o filho mais novo, está já grande (passando de 11 para 15 anos) e falando agora bastante mais inglês (provavelmente pelo ótimo hábito da Sra. Magata de receber estrangeiros em sua casa todo ano). O interesse principal dele passou do futebol para o boxe, o que causa alguma preocupação na sua mãe, que o acha muito magro e frágil para o boxe (mãe é mãe, só muda o endereço). Trouxe uma camiseta para ele de futebol, e felizmente antecipei o “espicho” que ele teve. Entreguei também os presentes pro resto da família, que havia trazido do Brasil. Foi bom ter lembrado deles e ter presentes apropriados para a recepção calorosa que tive na sua casa. Após conversarmos sobre as atualidades (e ter chance de arriscar meus primeiros diálogos em japonês), fui dormir, não no mesmo quarto em que dormia da outra vez (a casa sofreu uma reforma, ganhou até um novo banheiro no segundo andar), mas em outro, que mantinha os mesmos móveis do anterior. Estava feliz, e tive a melhor noite no Japão desde que cheguei.

Dia seguinte, muitos planos. Pela manhã, viagem a Osaka (大阪) para visitar o Koji e a Bianca, dois bolsistas que vieram pelo consulado de Porto Alegre e que eu já conhecia do Brasil. Como havia estado em Osaka duas outras vezes, mas em nenhuma das duas eu tinha visitado o castelo de Osaka, resolvemos fazer esse passeio. A Bianca eu já havia encontrado em Tokyo no feriado da Golden Week (ela veio visitar a irmã que mora aqui), mas o Koji eu não via desde o Brasil. Foi legal conversar com ele: trocarmos experiências e ouvir suas histórias. Esses dois são sempre ótima companhia. Almoçamos perto do castelo, mas à tarde tinha compromissos em Kyoto então precisava voltar.

O fim de semana havia começado bem, e ficaria ainda melhor. Mas como já escrevi bastante, deixo o resto da história para o próximo post...

1 - conversation challenge é uma das atividades da nossa aula de japonês, em que temos que encenar alguma pequena situação. É sempre algo simples que fazemos em sala de aula, como pedir informações, explicar alguma coisa ou tentar comprar algo, e nessa atividade temos que conversar com os professores ou com algum outro japonês pelo telefone.

quinta-feira, junho 15, 2006

“Regressamos agora com nossa programação normal”

Hoje to parecendo (e sou) uma criança com brinquedo novo. Ontem o Issamu, meu sempai (先輩, senior), muito gente boa, que é praticamente japonês já e sabe tudo por aqui, me ajudou a revender a minha camera fotográfica de volta para a loja que compra usados, e com isso hoje saindo da minha aula de japonês fui comprar a camera nova.

A camera da Panasonic é muito bacana. Além de não ter os problemas da Pentax, ela tem alguns detalhes que me fazem considerá-la quase perfeita. Coisas que faltavam na Pentax mas não considerava essenciais, essa camera tem, como salvar a informação sobre a orientação em que as fotos foram tiradas (vertical ou horizontal), e iluminar fotos em ambientes muito escuros para fazer o autofoco, mas ajudando no enquadramento. Além de outros, também.

Não bastasse isso, chegando no dormitório, nem deu pra eu mexer muito na camera, pois tinha chegado a minha “encomenda”: meu computador novo. Aeeee!

Comprei ele pelo site da Apple Japão, que obviamente é todo em japonês. Mas não foi difícil: compras onlines seguem o mesmo padrão em qualquer lugar do mundo. Primeiro se cria uma conta, depois se faz o login, se adicionam os produtos no “carrinho” e finalmente se faz o checkout, indicando informações de pagamento. Fui fazendo isso, consegui preencher os campos de nome, endereço, e inclusive informar que eu queria pagar na loja de conveniência, e no fim deu tudo certo. Veio o boleto pro meu endereço, paguei na lojinha na frente de casa, depois de 2 dias úteis confirmaram o pagamento e me mandaram a mercadoria.

Só que nem vou ter muito tempo pra me divertir com meus novos brinquedos: amanhã de manhã tenho prova de japonês, já da metade do “semestre” (que começou só em abril), e por isso sexta-feira não tem aula. Vou aproveitar o feriadão pra ir pra Kyoto (京都) pra rever vários amigos de 2003. Comprei uma passagem de ônibus relativamente barata. Mas essa é outra história, que fica para quando eu voltar (segunda-feira).

Alias, eu deveria estar estudando. Ou pelo menos decorando vocabulário. Vou lá... Até!

terça-feira, junho 06, 2006

“Interrompemos nossa programação para troca de equipamentos...”

Tenho atualizado esse blog menos do que gostaria, e aqui colocado menos fotos do que seria interessante. Vou explicar alguns dos motivos disso estar acontecendo.

Não é que minha vida esteja tão ocupada que eu não tenha tempo pra fazer atualizações, nem tão parada que não tenha nada interessante sobre o que escrever. Resumindo, o problema maior é técnico, relativo ao meu acesso a internet e a minha camera digital.

Eu pensava que assim que tivesse internet em casa o problema estaria resolvido, mas não foi bem assim que aconteceu. Estou com internet em casa a cerca de 15 dias. Eu e o Marcelo, um outro brasileiro que mora aqui no meu dormitório, estamos dividindo o acesso a internet que ele assinou. O serviço a princípio é muito bom. Se paga cerca de 27 dólares por um acesso de 100 Mbit/s (cerca de 250 vezes mais rápido que o acesso típico de “banda larga” no Brasil). Isso é possível porque no nosso dormitório chega um cabo de fibra ótica da NTT e ela distribui o acesso via DSL dentro do prédio, que possui seu próprio “servidor de DSL”. Na teoria tudo perfeito, se a gente não dividisse o acesso.

Eu moro de um lado de um corredor e o Marcelo do outro, praticamente na minha frente (na verdade do lado, já que o corredor é em forma de “T”). Como fica complicado passar um cabo pelo meio do corredor, compartilhamos a internet por uma rede wireless (sem fio). A distância é pequena, mas meu notebook tem revestimento de alumínio, e sabidamente ele tem alcance de rede sem fio mais baixo que o comum. Além disso, nossas portas são de metal, o que atrapalha o sinal, e existem outras redes wireless em nosso prédio, o que também contribui com interferência. Então a qualidade do sinal fica muito baixa, e o acesso a internet fica indo e vindo, em algumas horas de forma insuportável pelo grande número de mensagens (informações) que se perdem na transmissão. Isso, também, explica porque tenho falado pouco no MSN, e quando uso, se não respondo alguma mensagem, não é porque esteja ignorando as pessoas mas sim porque algumas mensagens estão se perdendo.

Felizmente, já encomendei meu notebook novo, que dizem ter alcance wireless muito melhor. Tenho esperança que com ele a internet fique decente, e se não ficar, assino logo o serviço pro meu quarto também.

A outra questão é da minha camera digital. No Brasil eu tinha uma camera digital que eu gostava muito, da Pentax, chamada Optio S. Só que como eu vinha para a “terra dos eletrônicos” não fazia sentido trazer, e deixei ela no Brasil pensando em comprar uma nova aqui. Decidi comprar o modelo atualizado da mesma camera, Optio S6, esperando que essa seria ainda melhor que a que eu já tinha, já que é mais moderna.

Foi difícil encontrar a camera pra vender por aqui. Quase todas as lojas não a tinham mais a venda. Mas por fim consegui e a comprei, ainda no primeiro mes que cheguei. Só que a camera foi uma grande frustração. O modo automático dela tira fotos muito ruins. Situações um pouco escuras geram fotos extremamente escuras, e um pouco claras geram fotos claras ao extremo. Além disso, ao se pressionar o botão para fotografar, o autofoco leva uma eternidade para se regular, e portanto a foto também demora a ser tirada. Quando eu vou tirar a foto sei como lidar com isso, mas se peço a alguém para que tire uma foto, dificilmente a foto fica boa.

Vou tentar revender a camera para a mesma loja onde comprei, eles aceitam produtos usados. Se me derem metade do que eu paguei já fico feliz, pois se permanecer com ela considero uma perda total. E já decidi qual camera irá substituir a atual: será uma Panasonic Lumix FX-01. Se conseguir revender minha camera, devo comprar a nova ainda mês que vem, caso contrário até o fim do ano. Com isso, finalmente, terei mais fotos e videos para disponibilizar por aqui.

Então enquanto meus “equipamentos” não forem atualizados, vou suspender as atualizações desse blog. Mas dentro de “alguns instantes” regressaremos com nossa programação normal...

segunda-feira, maio 22, 2006

Alguém precisa de ajuda?

Pode ser alguma coisa na forma que eu caminho, tentando nunca mostrar indecisão (mesmo que eu esteja completamente perdido), mas o fato é que, em qualquer lugar, pessoas sempre vem me pedir informações. Seja em Montréal, quando visitava a Bia e não conseguíamos dizer muito além do “Je suis désolé” pra um casal que nos parou, seja na curta escala de algumas horas que fiz na Alemanha quando ía pra Israel, em que uma senhora me parou no trem e nem dizer “eu não falo alemão” eu sabia, o fato é que as pessoas devem achar que eu tenho cara de local, em tudo que é lugar.

Bom, pelo menos é o que eu achava. Agora penso que é essa minha cara de bom samaritano, mesmo. Só isso explica o que aconteceu ontem, quando japoneses vieram me pedir informações! Estava voltando do laboratório, de fones de ouvido, quando ouvi a distância um “sumimasen” (com licença), depois, outro. Não devia ser comigo, pensei, já que outros japoneses estavam por perto, e continuei andando, até ouvir um “excuse me”. Era comigo mesmo! Um casal perdido querendo saber onde ficava a estação Yoyogi-Uehara (代々木上原), coincidentemente, a minha estação. Estava indo pra lá e disse que eles podiam me seguir (em inglês, claro). Não tenho como passar por japonês, então deve ser a minha cara, ou o andar confiante, um dos dois, só pode ser...

domingo, maio 21, 2006

Explorando o subsolo

O trânsito rodoviário em Tokyo é muito lento, diz-se que a velocidade média é de 20 km/h na cidade. Ao redor do centro existe um anel que tenta desafogar o tráfego central, mas ele não é completo, já que por uma parte simplesmente não havia espaço para construção.

Quando acaba o espaço, japonês começa a cavar. Aqui, eles resolveram o problema com a construção de um túnel de 11 km para completar a auto-estrada em anel. O projeto está em construção e deve ficar pronto ainda esse ano, e é composto de dois túneis paralelos a 30 metros de profundidade, cada um com 12 metros de diâmetro.

O passeio desse fim de semana foi uma visita a este túnel em construção (Central Loop Shinjuku Line). A obra é feita através de um joint-venture de várias empresas, e caminhamos por um trecho de cerca de 800 metros sob responsabilidade de uma delas. Recebemos informações sobre a construção do túnel: uma broca gigante de 12 metros de diâmetro, pesando 2500 toneladas, cava a uma velocidade de 3 cm por minuto, ou 1,5 m por hora. Ela utiliza água para a perfuração. A água limpa é levada até a máquina por mangueiras, e a água com o barro da escavação é levada de volta para pontos de reciclagem, onde é separada do barro, que então é levado para fora do túnel. A cada 50 minutos, a máquina pára e se colocam placas de concreto pré-moldadas parecidas com peças de “Lego”, que são encaixadas e aparafusadas. Não há concretagem no interior do túnel, e de fato a obra é muito limpa. Para avançar a broca, macacos hidráulicos controlados por computador são usados, de forma que a broca ande sempre em linha reta, mesmo que um lado do solo perfurado seja menos duro/denso que os outros.

Foi um passeio legal, instrutivo e diferente, e fiquei mais tranqüilo por não encontrar os ovos do Godzilla lá embaixo. Espero ter mais chances como essa por aqui. E quanto mais eu desco, mais perto de casa estou. ;)

Mais detalhes sobre a obra estão nessa página.

quarta-feira, maio 10, 2006

Hábitos estranhos dos povos, incluindo os nossos

Agora não estou com tempo sobre escrever sobre minha aula de japonês. Resumidamente, dá pra dizer que ela vai bem e não é muito chata. Mas tem uma coisa da aula que é bem bacana: o fato de ter gente de tudo que é canto. Além de mim, tem o Hugo, brasileiro, e o Sérgio, moçambicano, mas que além de falar português é quase brasileiro. :) Fora os dois, tem mais três tailandeses, um suiço, um inglês, uma guria de Mianmá1 e outra da Mongólia2.

Como na aula a gente acaba aprendendo a falar das coisas da gente, detalhes sobre os nossos países acabam aparecendo, mas mesmo fora de aula tem muita coisa curiosa que acontece por causa dessa mistura de países.

Hoje ao sair da aula, chegando no elevador, lembrei que tinha deixado meu guarda-chuva na sala de aula, e voltei pra pegar. A guria da Mongólia se deu conta que também havia esquecido o dela e também voltou. Indo pelo corredor, ela esbarrou no meu pé, daquele tipo de pisada por trás que às vezes acontece quando se está seguindo alguém. Ela pediu desculpas e eu disse a ela que não era nada, enquanto falava com o inglês que estava na sala, ainda. Porém, ela não foi embora, ficou esperando nossa conversa terminar, meio angustiada.

Quando terminamos, ela disse:

- Desculpa, mas na Mongólia, sempre que pisamos atrás do pé de alguém, temos o costume/simpatia de sempre cumprimentar a pessoa, por exemplo, dando um aperto de mão. É um costume bobo, mas sempre fazemos...

Ao que eu apertei a mão dela, aliviada ela foi embora.

Esses dias comentava com um venezuelano sobre nosso costume de não andar com guarda-chuvas abertos em lugares cobertos (como de baixo de marquizes, passarelas, etc), por “trazer azar”, e portanto ficar o abrindo e fechando. Para um observador externo, deve causar a mesma estranheza. Só mesmo o convívio com gente diferente pra nos fazer questionar as coisas mais simples que os outros, e nós, fazemos.

1 Eu também não sabia sobre Mianmá, mas já havia ouvido do país pelo antigo nome: “Birmânia” ou “Burma”. Alias, ainda não sei nada, só continuo sabendo que fica na Ásia, e que as pessoas de lá todas falam com o nariz fechado, e numa entonação que parece de um software de síntese de voz. O que não os torna menos gente boa.

2 Já sobre a Mongólia, sempre me trazia a imagem dos bárbaros tipo Genghis e Kublai Khan, mas ao contrário do estereótipo, ela é uma das pessoas mais legais da turma. Com certeza, pelo menos, é a mais legal tirando os “lusofônicos”. ;) E por falar em Mongólia, isso sempre me lembra a história do termo kamikaze (神風), que significa “vento divino” e se refere a uma série de tufões que impediram as invasões mongóis do Japão pelo mar, afundando esquadras inteiras de inimigos. Os mongóis, sim, e não os aliados, foram as primeiras vítimas dos kamizakes, o que não evita que alguns tenham finalmente alcançado essa ilha e sejam hoje meus colegas de japonês. :)

terça-feira, maio 02, 2006

Terremoto

Acabei de sentir meu primeiro terremoto por aqui. Apesar de ter passado 3 meses no Japão em 2003, não havia sentido nenhum, pois daquela vez viajei bastante e eles sempre aconteciam onde eu não estava (tipo, uma semana antes ou uma depois de eu chegar/sair de um lugar).

Dizem que aconteceu um aqui na região de Tokyo na semana passada, de madrugada, mas não senti nada. Estava em casa e meu quarto fica no primeiro piso, e por isso fica difícil de se sentir (quanto mais alto se está mais o efeito é “amplificado”). Improvisei um “sismógrafo” no meu quarto, que não detectou nada daquela vez. Não tenho foto dele aqui comigo, mas outra hora mostro como usei minhas habilidades de McGyver para “construí-lo”.

Mas voltando ao tremor. Aqui eles chamam de jishin (地震) e é parte do cotidiano. Contam que o site onde leio a previsão do tempo mostra todos os (mini) terremotos que acontecem todos os dias, mas como só entendo a temperatura e os desenhinhos de sol, chuva e nuvens, não sei onde encontrar essa informação. Estava aqui no meu laboratório quando esse aconteceu, e o pessoal que estava conversando continuou normalmente como se nada estivesse acontecendo. Pra eles, de repente, nem vale a pena parar por algo tão leve. Claro, se começa a aumentar a coisa muda...

Foi mais ou menos assim: estava sentado na minha mesa, que fica dentro de uma daquelas baias feitas com divisórias (de cerca de 1,20m de altura). Minha mesa e cadeira começaram a jogar para os lados, cerca de uns 3-4cm para cada lado. Isso porque estamos no 5º andar. Lá no térreo provavelmente ninguém sentiu nada. Foram uns 15 segundos, e nos primeiros 5 eu ainda fiquei tentando entender o que estava acontecendo. Quando finalmente me dei conta, já estava terminando. Era como se minha mesa estivesse dentro de um ônibus andando numa estrada ruim. :)

O lado bom? Primeiro, é bom começar com um leve, pra que o susto seja menor quando um grande realmente acontecer. Também, dizem que esses pequenos são bons para liberar a energia acumulada: se as coisas estão paradas por muito tempo, quando acontece um terremoto, ele costuma ser dos fortes.

Update: Achei as informações sobre o terremoto no site que mencionei. Foi de nível 3~4 na escala japonesa, e 5,6 na escala Richter. O engraçado é que o centro foi na província de Kanagawa, pertinho de onde fica meu dormitório. De fato, o fim da linha do trem que eu pego fica em Atsugi, comentado na reportagem. O gráfico do terremoto está acima.