domingo, junho 25, 2006

Regresso a Kyoto - parte 1

Feito o exame parcial de japonês, quinta-feira da outra semana, o plano era pegar o ônibus noturno rumo a Kyoto (京都), para aproveitar a sexta-feira sem aula.

A história da compra da passagem, que antes havia comentado, nem é tão interessante. Perguntei uns termos chave (“ônibus noturno”, “ida e volta”, etc) pra minha professora de japonês e lá fui eu para a estação de Tokyo (東京駅), pro conversation challenge1 de verdade. Pra ajudar, fui com tudo anotado: se a atendente não entendesse algo do meu japonês eu mostrava escrito pra ela o que queria.

Chegando lá, começou tudo conforme o script. Expliquei para onde queria ir, que tipo de passagem, e data. Só que depois disso, entretanto, ela fugiu do script que eu esperava: em vez de me dizer o preço, começou a falar um monte de coisas em japonês, ficou quase um minuto falando. Entendi uma só palavra do que ela disse: “doriimu” (ドリーム), que eu sabia que era “dream”, um dos tipos de ônibus. Não tive dúvida, ela estava querendo saber que tipo de ônibus eu queria. Disse pra ela “yasui no kudasai” (安いの下さい, um barato por favor) e ela entendeu. Ficou uns 2 minutos digitando no terminal até que me disse “hai, arimasu” (はい、あります, sim, tem). Tudo certo. Comprei a passagem, que por isso acabou saindo mais barato do que eu planejava, graças a essa “fuga do script”.

Saí da prova, que foi mais fácil do que esperava, voltei pra casa, arrumei tudo pra ter tudo limpinho quando voltasse, e me toquei pra estação. Peguei o ônibus as 21:50. A viagem não foi confortável. Esse ônibus mais barato era semi-leito. Tinha 4 assentos por fila, e ninguém viajando ao meu lado (o ônibus estava bem vazio), mas a divisória de apoio do braço entre os assentos era preso e não levantava. Pior, ela ía até embaixo e não dava nem pra passar as pernas por baixo dela. Cheguei em Kyoto ainda antes das 6:00. No ônibus, olhando pela janelinha, já comecei a reconhecer lugares. Uma esquina, uma loja, lugares por onde eu tinha a lembrança de já ter passado.

A minha viagem a Kyoto tinha dois objetivos principais. Não era uma viagem de turismo, claro, pois eu já havia morado ali e conhecia bastante bem aquele lugar. O primeiro objetivo era rever muitos amigos, colegas, e a família onde tinha morado da outra vez. Mas havia também a tentativa de responder uma dúvida que eu tinha desde que cheguei à Tokyo: O Japão havia mudado, ou era apenas a vida em Tokyo que era tão diferente?

Chegamos na estação de Kyoto e ela estava exatamente da mesma forma. Como era cedo, não havia ninguém na rua, e como o tempo estava bom, aproveitei pra tirar umas fotos (algumas dessas fotos estão na minha página do Flickr). A única coisa pra se fazer cedo pela manhã, num dia agradável, é caminhar pelas ruas. Fui aos templos mais centrais de Kyoto. Na verdade havia uma mudança: um dos templos mais importantes, o Higashi Hongan-ji (東本願寺) está em restauração e o prédio está completamente coberto por uma estrutura metálica, que só será removida em 2011. Da outra vez que eu pra lá fui o templo estava aberto, mas o seu “par” Nishi Hongan-ji (西本願寺) estava também em restauração e coberto. Talvez tivessem começado a reforma do templo do leste (Higashi) por terem terminado a reforma do templo do oeste (Nishi), então fui para o outro verificar se agora ele estava exposto. Não, ainda está fechado, o que é bastante frustrante para um visitante que chega em Kyoto pela primeira vez nessa época.

Fiz uma longa caminhada, fui a um templo mais para longe do centro, para Gion (祇園), o bairro mais tradicional, e para as ruas de comércio (que ainda estavam fechadas). Tudo estava da mesma forma, conhecia as ruas por onde andava e me sentia “em casa”. Próximo ao meio dia, porém, terminei minha caminhada para ir a Horiba, a empresa onde havia feito o estágio em 2003, onde havia combinado de almoçar com antigos colegas. Peguei o trem, lembrava a plataforma, a estação de destino, até o valor do bilhete. Nada havia mudado. Desci próximo à Horiba, fiz a pequena caminhada que fazia todos os dias entre a estação e a empresa, e parecia que havia andado naquele caminho no dia anterior. Chegando lá poderia ter entrado e subido normalmente, mas achei melhor ligar para meus colegas e avisar que havia chegado. Eles desceram e juntos fomos almoçar no restaurante da empresa, onde comi o mesmo que costumava comer sempre: udon (饂飩), um tipo de macarrão japonês.

No restaurante, as mesas, as pessoas com os uniformes, os rostos, tudo estava igual. O Japão, em algumas coisas, não é um país de mudanças. Algumas pessoas me olharam com cara de reconhecimento, e para as com quem eu havia conversado da outra vez, disse algo do tipo: “sim, sou eu mesmo” e contei o que estava fazendo ali. Foi o início de um grande fim de semana no qual confirmei que não, o Japão não havia mudado, mais que isso, as coisas continuavam ainda mais intocadas do que eu esperava.

À tarde encontrei o Cristiano, um brasileiro que veio para o Japão comigo no mesmo programa, mas que estuda em Kyoto. Fomos ao rio Kamogawa, lugar onde costumava gostar de ir, e conversamos bastante sobre nossos primeiros meses no Japão. Para ele, primeira vez por aqui, uma fase de ainda mais surpresas e descobertas. Mesmo assim, encontramos vários sentimentos comuns, como o fato de nos sentirmos “crianças” que se sentem realizadas por conseguirem desempenhar as tarefas mais simples do dia a dia. Havia trazido do Brasil um guia de transportes de Kyoto, que ganhei da outra vez que vim, e deixei o guia com ele.

Antes de ir para Kyoto, escrevi para meus conhecidos para informar que estava indo, e tentar marcar alguma oportunidade de reencontro. Como a família onde havia ficado não tinha email, enviei um postal de Tokyo, com minhas informações de contato. Dois dias depois de enviar o postal recebi um recado da família “pedindo” (uma forma japonesa de oferecer) para que eu ficasse na casa deles. Obviamente aceitei, e então na sexta à noite, como combinado peguei o mesmo trem que todo dia pegava para a viagem de cerca de uma hora até a casa deles. Mais uma vez, tudo continuava exatamente da mesma forma, não demonstrando que o tempo havia passado.

Lá chegando, havia uma janta especial para mim. Bastante comida, e coisas que eu gostava. Senti que a Sra. Magata lembrava dos meus gostos: havia fatias de carne, frango, batata. E convidados também, colegas da Sra. Magata, e a Sra. Nakagawa, mãe da segunda família onde havia ficado. Me senti muito bem de estar de volta, e não havia estranheza por não nos vermos a tanto tempo. O que também ajudou foi eu ter escrito de vez em quando para eles durante esses anos, o que fez com que eles também me escrevessem de volta com as novidades.

Atsushi, o filho mais novo, está já grande (passando de 11 para 15 anos) e falando agora bastante mais inglês (provavelmente pelo ótimo hábito da Sra. Magata de receber estrangeiros em sua casa todo ano). O interesse principal dele passou do futebol para o boxe, o que causa alguma preocupação na sua mãe, que o acha muito magro e frágil para o boxe (mãe é mãe, só muda o endereço). Trouxe uma camiseta para ele de futebol, e felizmente antecipei o “espicho” que ele teve. Entreguei também os presentes pro resto da família, que havia trazido do Brasil. Foi bom ter lembrado deles e ter presentes apropriados para a recepção calorosa que tive na sua casa. Após conversarmos sobre as atualidades (e ter chance de arriscar meus primeiros diálogos em japonês), fui dormir, não no mesmo quarto em que dormia da outra vez (a casa sofreu uma reforma, ganhou até um novo banheiro no segundo andar), mas em outro, que mantinha os mesmos móveis do anterior. Estava feliz, e tive a melhor noite no Japão desde que cheguei.

Dia seguinte, muitos planos. Pela manhã, viagem a Osaka (大阪) para visitar o Koji e a Bianca, dois bolsistas que vieram pelo consulado de Porto Alegre e que eu já conhecia do Brasil. Como havia estado em Osaka duas outras vezes, mas em nenhuma das duas eu tinha visitado o castelo de Osaka, resolvemos fazer esse passeio. A Bianca eu já havia encontrado em Tokyo no feriado da Golden Week (ela veio visitar a irmã que mora aqui), mas o Koji eu não via desde o Brasil. Foi legal conversar com ele: trocarmos experiências e ouvir suas histórias. Esses dois são sempre ótima companhia. Almoçamos perto do castelo, mas à tarde tinha compromissos em Kyoto então precisava voltar.

O fim de semana havia começado bem, e ficaria ainda melhor. Mas como já escrevi bastante, deixo o resto da história para o próximo post...

1 - conversation challenge é uma das atividades da nossa aula de japonês, em que temos que encenar alguma pequena situação. É sempre algo simples que fazemos em sala de aula, como pedir informações, explicar alguma coisa ou tentar comprar algo, e nessa atividade temos que conversar com os professores ou com algum outro japonês pelo telefone.

2 comentários:

Rafael Huff disse...

Muito legal o teu post! Muitas coisas semelhantes eu senti quando pude voltar à Tübingen, mas o que mais me chamou a atenção é a tua forma de escrever em português. Será que tu já tá começando a pensar em japonês? Tipo "Da outra vez que eu pra lá fui..", e outras. Em japonês o verbo vai para o final da frase como em alemão? ;-)

Biba disse...

Tao divertido de ler essa narrativa!!

Obrigada pelo ótima companhia :)

Beijos!