Diagnóstico: Alzheimer

Quarta-feira, Julho 28, 2010

Recebi a notícia agora há pouco de que minha avó, que lutava contra o Alzheimer há mais de uma década, faleceu aos 92 anos. Como a Lia Luft coloca tão bem no texto que compartilho com vocês abaixo, “O doente em geral não sofre. A família, sim.”. Apesar dos anos que tivemos para nos preparar, é, portanto, um momento de alívio, mas ainda assim de tristeza. Obrigado por tudo, vozinha.

Almocei com um amigo semanas atrás e, quando perguntei a razão de seu abatimento, ele me disse sem rodeios: “Esta manhã recebi o diagnóstico de minha mãe: é Alzheimer”. Imaginei essa senhora, alegre e vital, enveredando pelas sombrias trilhas de uma enfermidade diabólica, e entendi a tristeza de meu amigo como se fosse minha. Minha própria mãe morreu aos 90 anos, depois de bem mais de uma década sendo paulatinamente envolvida na mortalha mental e emocional do Alzheimer. Uma bela mulher ativa tornou-se inexoravelmente uma estranha, raramente ostentando uma vaga semelhança com a que fora minha mãe.

A doença se manifesta em geral muito sutil: um esquecimento aqui, uma confusão ali. Uma atitude estranha aqui, outra ali, intercaladas por fases de aparente normalidade. A sociabilidade muda, os bons modos parecem esquecidos, o controle do dinheiro se torna caótico, e é dificílimo interferir. Há enorme resistência dos familiares em aceitar essa enfermidade. Para mim, minha mãe sofria episódios naturais de esquecimento. Só o choque de um dia a encontrar com uma pintura bizarra no rosto, ela tão recatada, me fez cair na duríssima realidade. Ela já não sabia – ou em longos períodos não sabia – o que estava fazendo. Algumas pessoas mais chegadas tinham me avisado: eu havia me recusado a ver.

O que eu disse a meu amigo, disse a mim mesma nos muitos longuíssimos anos daquela jornada: o doente em geral não sofre. A família, sim. O que se pode fazer? Muito pouco, além de cuidar para que ele esteja bem alimentado, bem abrigado, medicado e tratado com carinho. Nada de criticar quando não sabe mais quem somos, porque no fim não sabe mais quem ele próprio é. Quando já não se porta à mesa como antes, quando faz “artes” às vezes perigosas, ele precisa ser protegido, não mais ensinado. Não vai mesmo aprender. Como sempre nas doenças graves, devemos lembrar que a vítima não somos nós: é o outro. Nesse processo, que em geral dura muitos anos, não há nada de bom, de belo, de encantador, a não ser o exercício da ternura, da paciência e dos cuidados, sem esperar muito retorno, pois em breve seremos chamados de senhor, senhora, moça, não mais de filha, filho, meu querido. O ser amado se distancia, sem volta, sem saber, sem querer e sem que nada possa evitar: agora havia ali uma velhinha da qual eu cuidava como podia. Por fim, para a proteger de si própria, por insistência dos médicos ela foi posta na melhor clínica que pude assumir. Jamais esquecerei a dor e a culpa que me assaltaram, contrariando qualquer raciocínio. Milhares de vezes tentei me convencer de que minha mãe nem existia mais, era apenas uma velhinha de quem eu tinha de cuidar. Como ficção, funcionava; como realidade, a cada uma das centenas de visitas meu coração se partia outra vez.

Cuide de sua doente, eu disse a meu amigo, da melhor forma. Não alimente nenhuma esperança vã, pois tudo é triste, infinitamente desalentador. Uma coisa que ajuda, um pouco, é tentar entrar no universo do doente, em lugar de querer que ele retorne ao nosso. Mas cuide também de si mesmo. Tente pegar-se no colo, proteja-se da culpa insensata que nos espreita, siga sua vida. Na natureza morrem árvores jovens, e velhas árvores tortas vivem muito além da última floração. Estamos mergulhados no mistério: isso torna a vida possível mesmo quando não a entendemos.

-- Lia Luft

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Formatura, logo mais!

Quarta-feira, Março 24, 2010

Quando terminei o mestrado na UFRGS em 2005, não teve cerimônia de formatura. O Japão, por outro lado, faz questão de celebrar tudo: lembro da minha surpresa em 2006 ao saber que a reunião com os estudantes que estavam entrando no doutorado era na verdade uma cerimônia de entrada, e que eu não estava vestido apropriadamente.

Pois bem, logo mais é minha cerimônia de formatura do doutorado. É um pouco diferente das do Brasil. Primeiro, há uma cerimônia grande no campus central, onde os alunos formandos da graduação, mestrado e doutorado das áreas de exatas assistem uns discursos de professores e diretores dos institutos. Algumas horas depois tem uma cerimônia pequena no departamento, quando de fato recebemos o diploma.

A cerimônia geral terá transmissão pela internet, no endereço http://sotsugyo.itc.u-tokyo.ac.jp. A formatura começa às 21:00 (horário de Brasília) de hoje (23 de março, aniversário da minha irmã!), e a transmissão começa um pouco antes às 20:50. Quem estiver sem nada de útil pra fazer, e quiser conferir um monte de discursos em japonês, é só conferir lá. Mas não esperem me ver no video recebendo canudo nem fazendo agradecimentos, porque isso não tem por aqui.

Enquanto espero, vou me preparando que nem a irmã do Charlie Brown, aí embaixo.

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De volta, e vivo

Sexta-feira, Fevereiro 19, 2010

Estou de volta! Ao Brasil ainda não, mas pelo menos ao blog. Andei afastado porque estava terminando a tese de doutorado. No Japão, cronograma é muito importante. Diferentemente do Brasil, onde os cursos de pós podem terminar em qualquer momento, por aqui os cursos podem ser concluídos apenas em duas datas no ano, e a decisão deve ser feita com mais de 6 meses de antecedência.

Como já havia mudado o tema da pesquisa duas vezes e estendido o doutorado por 6 meses, dessa vez estava na hora de me formar. Tive que recuperar o tempo perdido e, em menos de um ano, achar uma linha que ligasse tudo que eu já havia feito para “parir” uma tese. Foi uma correria. Dias e noites gastos no laboratório, experimentos, escrita de artigos e da tese. Enfim, como sempre, tudo deu certo, e minha defesa foi no fim de Janeiro. Agora estou resolvendo detalhes para minha formatura que será no fim de Março. Com mais tempo, posso voltar a escrever aqui, já que tanta gente perguntou por atualizações.

Não vou contar o que aconteceu em ordem cronológica; vou começar contando da viagem mais recente e aos poucos contando outras histórias que aconteceram antes mas ainda não escrevi a respeito. Primeiro, claro, vou contar sobre a viagem que fiz com o vale que ganhei no concurso do video, em que tantos de vocês me ajudaram.

Usei o voucher que ganhei de cerca de 400 dólares para visitar as duas cidades do Japão que, junto com Tokyo (東京), considero os pontos essenciais de se conhecer no Japão: Kyoto (京都) e Hiroshima (広島). Reservei um pacote de 3 dias que incluia passagem de trem bala (shinkansen, 新幹線) e hotel. Como já conhecia as duas cidades, isso foi suficiente. Revisitei alguns dos meus lugares preferidos e aproveitei para conhecer outros novos.

Quem acompanha esse blog de longa data deve saber que Kyoto foi a cidade onde primeiro morei no Japão, quando fiz um estágio lá no verão de 2003. Já visitei a cidade outras vezes desde que voltei ao Japão (descrito aqui, aqui e aqui) e a principal diferença que notei agora é que, se antes sentia Kyoto como minha “terra natal” por aqui, hoje já me sinto muito mais ligado a Tokyo. Foi estranho, mesmo hoje sabendo muito mais japonês (mas ainda assim pouco) para me virar em Kyoto, me sentia por lá como um turista, coisa que nunca aconteceu antes (e não acontece em Tokyo). Também, foi a primeira vez que visitei Kyoto no inverno. A cidade tem outra cara: não senti, por exemplo, o cheiro forte de doces a base de feijão na Estação de Kyoto (京都駅). Não sei se eles são sazonais ou era eu que estava com o nariz entupido. :)

Apesar do inverno, não peguei neve por lá: uma pena já que muitos dos templos e parques de Kyoto ficam muito bonitos cobertos de neve. O que fiz de novo foi visitar dois lugares que nunca tinha ido antes: o jardim do Santuário Heian Jingu (平安神宮神苑) e o templo Nishi Honganji (西本願寺). Este templo passou quase 10 anos em restauração e estava fechado todas as vezes que visitei Kyoto desde 2003. O que mais me impressiona nesse tipo de templo é como a forma de construção (de madeira, com piso de tatami - 畳) torna o ambiente fresco no verão e aquecido no inverno, sempre agradável, sem nenhum tipo de aquecimento ou resfriamento ativo. Ah, se mais da arquitetura contemporânea ainda levasse estes pontos em consideração!

O único ponto negativo da visita foi que, devido a curta duração, não tive tempo de revisitar meus amigos japoneses que lá moram. Quero ver se ainda encontro tempo para mais uma visita em breve.

Já Hiroshima fazia mais tempo que não visitava. Estive lá apenas uma vez, em 2003. A visita foi marcante e considero uma cidade que todo ser humano deveria ter a chance de visitar, algum dia, pelas suas principais atrações: o Parque Memorial da Paz (平和記念公園) e o Museu (平和記念資料館).

Hiroshima é hoje uma cidade alegre, com poucos vestígios do passado exceto pela área do Parque, construído sobre a região devastada pela Bomba e que preserva um dos poucos prédios que resistiram a ela. O que mais gosto do museu é que, além do detalhismo, conta os acontecimentos de maneira imparcial e nada maniqueísta. Por exemplo, na entrada do Museu, onde é mostrado o ambiente pré-guerra no Japão, se vê claramente como o exército Japonês pressionava o povo para contribuir para sua campanha imperialista, e como os japoneses celebraram a invasão da Manchúria. Do lado Americano, mostra que, com a entrada da União Soviética na guerra e a iminente rendição Japonesa, o uso da Bomba foi provavelmente para justificar o grande investimento Americano colocando os EUA em uma posição hegemônica no pós-guerra. Mas mostra também o auxílio Americano no tratamento das vítimas da radiação. Enfim, se aprende muito lá, se pensa muito no passado e no futuro da humanidade. E toca os visitante profundamente.

Com o resto do curto tempo da minha viagem, o plano era visitar Miyajima (宮島), ilha próxima de Hiroshima onde existe um famoso templo e portal sobre as águas do mar. Mas como já havia estado lá em 2003, também, resolvi seguir a sujestão do meu amigo Marcos (que estuda em Hiroshima) e visitar uma outra cidade ali perto: Iwakuni (岩国). Passei apenas a manhã de domingo lá, visitando a ponte Kintaikyo (錦帯橋) e o quarteirão com antigas casas da época dos samurais (侍). O tempo não ajudou: estava frio e o céu nublado, então após tirar algumas fotos, terminei minha viagem e voltei para Tokyo a bordo do shinkansen.

As demais fotos da viagem estão no álbum no Picasa.

por Roberto Jung Drebes 4 comentários

Favorzinho...

Terça-feira, Agosto 04, 2009

Há 3 anos, postei aqui um vídeo do trem lotado que pegava todas as manhãs para ir a aula de japonês. Recentemente, enviei o mesmo para um concurso de vídeos de Tokyo. Ele não tem nada de especial em si, o interessante é o que mostra. E não é que o vídeo foi parar na final do concurso? Agora tem uma votação para escolher o melhor vídeo...

Então, quem quiser me ajudar (o primeiro prêmio é um voucher de ~400 dólares para viajar dentro do Japão, prometo aproveitar bem e escrever a respeito se ganhar!), é só ir na página de votação e votar no meu vídeo: “Crowded Train in Tokyo”.

O site limita a uma votação por endereço IP, ou seja, um voto por computador (se duas pessoas tentarem a partir do mesmo, só irá contar o primeiro voto). Mas nada impede de se votar de casa, do trabalho, etc. :)

A votação vai só até o dia 10 (dia 9 no Brasil)! Yoroshiku onegaishimasu (宜しくお願いします).

por Roberto Jung Drebes 12 comentários

Em busca da sustentabilidade

Domingo, Maio 31, 2009

Já faz um tempo que eu queria escrever um post sobre como é o sistema de lixo aqui no Japão. A Fernanda escreveu um email sobre o assunto para seus amigos, e eu gostei tanto que convidei ela para colocar o texto aqui e compartilhar com vocês. Espero que gostem!

-- Roberto Jung Drebes

O tema de hoje é algo com que me preocupo já há alguns anos: a consciência ambiental.

Toda vez que acabava a carga das pilhas da calculadora, do dicionário eletrônico, do controle remoto etc. eu lembrava que eu deveria comprar pilhas recarregáveis para substituí-las. Mas pela comodidade de comprar uma cartela de pilhas na loja da esquina por 2 reais, eu acabava me acomodando. Este mês, pus fim a essa inércia: dediquei parte do meu orçamento mensal a um carregador de pilhas e a um conjunto de pilhas AA e AAA recarregáveis. Não foi barato: paguei cerca de 140 reais no conjunto (embora a conta pudesse ser menor, talvez menos de 100 reais, se eu comprasse pilhas com menor capacidade e um carregador mais lento). Esse custo provavelmente demorará para ser compensado pela não-necessidade de comprar pilhas, ou talvez, nunca será compensado. Porém, o motivo de eu ter feito essa opção não foi financeiro, e sim ambiental.

As pilhas jogadas no lixo comum contaminam o solo e os lençóis freáticos, pois muitas delas contém metais pesados e outras subtâncias tóxicas. Mesmo separando para reciclagem, o gasto de material e energia é inevitável. Na embalagem do carregador que eu comprei diz que eu posso carregar as pilhas cerca de 1200 vezes. Imaginem o número de pilhas que eu vou evitar comprar, usar e jogar.

Desde adolescente me interessa o assunto de reciclagem do lixo. Em 1992 teve uma campanha de conscientização sobre a reciclagem do lixo em Curitiba ("Lixo que não é lixo não vai pro lixo. Se-pa-re!"), e desde então minha família passou a ter o hábito de separar lixos recicláveis. Quando mudei a Campinas, vi que esse costume não era tão comum. Era estranho jogar casca de banana junto com o potinho de iogurte. Mas ao morar com umas amigas da universidade, decidimos separar o lixo, e minha consciência ficou mais tranquila. Se realmente todo esse material é reciclado, é outra história. Mas fazemos nossa parte.

Aqui no Japão há diferentes regras de separação do lixo, variando com a região onde se mora. Até mesmo dentro de Tóquio, cada distrito tem sua regra. Há lugares onde a separação é bem rígida, mas no distrito onde moro é razoavelmente simples: lixos incineráveis, não-incineráveis, latas, garrafas pet, garrafas de vidro, bandeja de isopor e papel. Além disso, tem os postos de coleta de pilhas e baterias, óleo usado, tecidos e outros lixos específicos. O material reciclável separado é pouco, mas imagino que esse pouco realmente seja reciclado. Com a falta de espaço para despejar o lixo que 120 milhões de pessoas produzem numa área 23 menor que do Brasil, o Japão apela para a combustão do lixo, que eu não acho muito ecológico, pelo gasto de energia e geração de dióxido de carbono, mas que não é muito pior que acumular nos imensos lixões como no Brasil. Aliás, mesmo as grandes cidades do Brasil também já estão tendo problemas com o despejo do lixo.

Se reciclar é bom, diminuir o lixo é ainda melhor. Quando eu morava no dormitório da universidade, no meu primeiro ano no Japão, acumulei tanta sacola de plástico de supermercado que, na hora de me mudar, joguei fora uma sacola cheia de sacolas dentro, e ainda levei uma parte delas para a minha nova casa, para diminuir um pouco o peso na consciência. O acúmulo de sacos plásticos se deu principalmente pelo fato de eu receber sacos de lixo no dormitório, o que fazia com que eu não usasse as minhas sacolas para jogar o lixo, além da minha falta de costume de usar sacolas não-descartáveis. Eu ganhei uma sacola de pano nos primeiros meses de Japão, mas mesmo assim às vezes esquecia de levá-la ao supermercado e outras, esquecia de dizer ao caixa para que não colocasse as mercadorias nas sacolas de plástico. Com o tempo, fui me educando a usar a sacola de pano e desde então tenho diminuído consideravelmente o volume de sacolas na minha casa. Se eu sozinha juntei um volume tão grande de sacolas, penso na quantidade de sacolas poderiam deixar de ser produzidas - e descartadas - se todos usassem sacolas reutilizáveis.

Embora o Japão se preocupe com a reciclagem, é também um país que gera muito lixo, e um dos principais motivos é o excessivo uso de embalagens (sem entrar no assunto de descarte de eletrônicos). Às vezes compro um pacote de biscoitos querendo "encher a mão" e colocar vários na boca de uma vez, e meu prazer é barrado ao ver que os biscoitos estão embalados um a um. A apresentação é impecável, mas o gasto de material poderia ser reduzido... Além disso, os japoneses tem hábito de comer "obento", ou seja, marmita. Originalmente esses obento eram preparados em casa pela dedicada esposa e mãe, que cozinhava e enfeitava as marmitas para seus maridos e filhos levarem no trabalho e nos passeios da escola. Porém, com o passar dos tempos, a praticidade tomou conta das suas vidas, e os obento passaram a ser vendidos em lojas de conveniência e até em lojas especializadas em obento. E com isso, mais embalagens de plástico, mini-garrafinhas de shoyu, sachês de molho, hashi descartável etc. passaram a ser gerados.

Na onda do ecologicamente correto, juntanto produtos ganhados e comprados, montei meu kit-obento: a marmita propriamente dita (chamo de "obentozeira"); kit-talheres desmontáveis, com garfo, colher e hashi; porta-oniguiri (bolinho de arroz) lindo com cara de porquinho; garrafinha térmica; sacolinha térmica para levar o obento. Para falar a verdade, não diminuo tanto lixo com esse "kit", pois eu nunca tive o costume de comprar obento pronto, já que não é muito saboroso. Eu só diminuí a frequência com que vou ao refeitório da faculdade, o que me fez economizar um pouco de dinheiro e ainda me permitiu fazer comidas do meu gosto. Porém, o uso do porta-oniguiri evitou o uso de filmes plásticos, que inicialmente eu usava para embalá-los, e a garrafa térmica diminuiu a compra de bebidas em garrafas pet.

Minha mensagem é, como diz na minha sacolinha reutilizável: Reduza, Reuse, Recicle. Dizer que só um não faz diferença é desculpa para não começar. Um vezes 6 bilhões deve fazer diferença. E o que eu falei é uma parte muito pequena do problema todo. O que mais podemos fazer pelo futuro do nosso planeta?

por Fernanda 9 comentários

A Brasília do Camboja

Sexta-feira, Abril 17, 2009

Nossa viagem de ano novo não foi só para a Tailândia. Aproveitamos que já estaríamos praqueles lados e resolvemos também dar um pulo rápido no Camboja, mais especificamente nos templos de Angkor na cidade de Siem Reap.

Antes de vir pra Ásia, nunca tinha ouvido sobre o complexo do Angkor Wat: acho que é reflexo da nossa ignorância ocidental da história da civilização asiática, dessa sensação de que a forma em que a humanidade vive hoje vem da Europa e de que os acontecimentos e realizações de outras culturas são apenas curiosidades históricas. Fiquei sabendo pela primeira vez sobre os templos de Angkor em um parque de miniaturas no Japão, onde existem maquetes de vários patrimônios da humanidade, e depois por relatos de amigos que também visitaram o sudeste Asiático. Indo para a Tailândia, ali do lado, fizemos questão de visitá-los.

O Camboja é um país pobre, e ir de Bangkok até Siem Reap de ônibus, dizem, não é muito agradável. É fato: a gente não gosta de ter contato direto com miséria, ainda mais quando não há muito a nosso alcance para acabar com ela, e o caminho por onde o ônibus passa é pouco desenvolvido. Algumas semanas antes, também, ocorreram uns conflitos na fronteira do Camboja com a Tailândia, então resolvemos escolher a alternativa mais cara, um vôo operado pela Bangkok Airways que leva direto a cidade dos templos, sem nem ao menos passar pela capital Phnom Phen. Como a empresa tem monopólio nessa trajeto, o custo do vôo não é dos mais baratos, mas foi completamente válido. Chegamos direto no novo aeroporto turístico em Siem Reap (lembra um pouco o de Porto Seguro), onde já fomos recebidos pelo nosso motorista de tuk tuk que nos levaria ao hotel.

O caminho assustou um pouco. Estava escuro e não conseguíamos ver muito bem como se pareciam as casas e as ruas na penumbra. Parecia que estávamos indo para um lugar bem pobre (no dia seguinte veríamos não ser ruim assim). O hotel era simpático, uma casa grande e arejada mantida por um Sr. australiano, com piscina, bar, etc. e funcionários bastante atenciosos. Antes de dormir, pedimos na recepção do hotel para agendar um motorista para nos levar no dia seguinte ao Angkor Wat, e a moça nos perguntou se gostaríamos de ver o nascer do sol nos templos, programa bastante comum. Já que estávamos descansados, aceitamos nos encontrar as 5 horas da manhã com o motorista do tuk tuk (o mesmo que nos buscou no aeroporto) para sair em direção aos templos.

Dia seguinte, ainda escuro, lá estávamos nós. Chegando no templo principal, muitos outros turistas e uma escuridão total. Fomos andando entre as pedras, seguindo o som das outras pessoas, e a luz das poucas que levavam lanternas. Achamos um lugar bom para fotos, e esperamos amanhecer. Poucos pingos de chuva já indicavam que o céu não estaria aberto, mas fazer o quê, só tínhamos dois dias no Camboja.

De fato, o nascer do sol não foi dos mais bonitos. Não foi igual aos postais com o nascer por detrás das pedras do templo mas, mesmo assim, foi uma experiência única. Assistir qualquer amanhecer é sempre encantador: é como um entardecer mas com as pessoas, o ambiente, em outro ritmo. Ao clarear, demos as primeiras voltas no templo de Angkor Wat, e resolvemos partir para visitar os outros templos, voltando ali à tarde.

Passamos os dois dias visitando templos. Para quem não sabe muito da história da civilização Khmer (como nós), parece tudo muito igual. São grandiosas construções-cidades esculpidas em pedra, o estilo mudando pouco de uma para a outra (para nossos olhos ignorantes de história). Além do Angkor Wat, os destaque são os templos de Tah Prohm, com enormes raízes de árvores crescidas sob as ruínas das construções originais (e cenário do filme Tomb Raider), os grandes rostos esculpidos em pedra no Bayon do Angkor Thom, e os detalhados relevos nas paredes das ruínas do Banteay Srei. Fiquei imaginando o custo e trabalho de construir tudo aquilo. Primeiro, pensei, estranho todo esse investimento em enormes construções não ter sido feito em prédios do governo (são templos religiosos), mas daí lembrei: naquela época - e em várias outras culturas -, religião e governo eram a mesma coisa. O Angkor Wat era a Brasília do Camboja. :)

Em todo lugar que íamos, era forte a insistência de crianças para que comprássemos bugigangas. Era chato, mas inevitável em um lugar assim, onde a sobrevivência de muitas famílias depende do turismo. Tínhamos que ignorar completamente os pedidos, senão não conseguiríamos ver tudo em 2 dias, e com o tempo (às vezes muito tempo) elas paravam. Ao visitarmos o Museu de Minas Terrestres (que patrocina o desenvolvimento e educação de algumas crianças da região) lemos um depoimento de uma menina mantida pelo museu em que ela dizia querer aprender inglês para poder vender mais souvenirs, o que confirma essa cultura. Uma pena: sabendo inglês, uma pessoa assim teria um potencial muito maior, poderia facilmente trabalhar no turismo como guia ganhando muito mais (alias, vimos guias locais falando todo tipo de idioma, do japonês, línguas latinas, inglês, hindi, etc), mas a ignorância não permite que eles reconheçam seu real potencial.

Falando em minas terrestres, o Camboja é um dos países onde seu impacto foi mais devastador, resultado dos anos de guerra civil e do regime do Khmer Rouge. Liderado por Pol Pot, esse período é lembrado pela tortura, fome, trabalho forçado, execuções, e proibição e destruição de tudo de origem ocidental. Enfim, destruíram o país. Ao andar entre os templos, sugere-se que os turistas não se afastem das áreas mais populares pois ainda podem haver minas terrestres perdidas em locais remotos. Pelos anos 80 o Vietnã invadiu o Camboja e continuou o conflito, mas isso levou a mudanças e o país finalmente conta com um governo que, se não perfeito, pelo menos é estável e democrático. O povo Cambojano sofreu muito, e vê-los na atualidade dá esperança no desenvolvimento. Pensei no nosso motorista, Heng. Ele aparentava uns 50 anos, mas deveria ser mais jovem. Fiquei imaginando como teria sido sua vida e de sua família naqueles anos, e como ele vivia agora, com os dólares do turismo, e tive certeza que o sorriso constante no seu rosto era reflexo dele, finalmente, saber o real significado de felicidade.

Nos templos vimos também muitas crianças cambojanas em excursão escolar. Olhando pra elas, ficava imaginando o que pensavam vendo um passado tão grandioso do seu país, comparado com sua situação atual de pobreza e de pouca relevância internacional. Claro, elas nem tinham idade pra pensar nisso, ainda, mas com certeza é um pensamento que outros cambojanos com um pouco mais de educação devem ter.

Mas se o Camboja não está mais no seu apogeu, também já saiu dos seus piores anos. O progresso chegou. Siem Reap não impressiona só pelos templos. A cidade também possui muitos hotéis internacionais de 5 estrelas, e um centro cheio de bares e restaurantes agradáveis. Claro, essa região é para os turistas e os preços são todos em dólar (alias, só se usa dólar em Siem Reap. Trocamos uns poucos dólares no aeroporto e tivemos dificuldade em conseguir gastar tudo), e bem mais caros que nos lugares “locais”, mas ainda com preços baratos para padrões internacionais. Jantamos em um restaurante simpático, comemos sorvete numa sorveteria/padaria que tinha até internet wireless! Não imaginava nada disso no Camboja. A lembrança que me deu é daqueles filmes de época, onde europeus e americanos iam para o oriente médio ou norte da África e tinham um tratamento de primeira classe. Nunca me imaginei naquela situação. Tendo-se dinheiro, talvez isso seja possível em qualquer lugar, mas nas nossas viagens estilo Lonely Planet, nunca tínhamos tido a experiência. :)

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Dessa vez, não era uma pedra.

Quarta-feira, Março 04, 2009

Hoje, quando ia para o laboratório, logo após sair da estação próxima de casa, o trem parou. Não foi uma parada brusca, foi parando suave, até que parou completamente, no meio do caminho até a estação seguinte. Não fazia nem um minuto que tinhamos partido, e nem um minuto depois de pararmos, o aviso foi feito no sistema de som: “este trem parou por um acidente com atropelamento”. Tive a mais triste das “experiências típicas” do Japão: fui testemunha de um suicídio nos trilhos do trem.

Por incrível que pareça, isso é comum. Seguido, nos trens que circulam dentro de Tóquio, podem ser vistos avisos de que os trens estão atrasados por motivos de “acidentes nos trilhos”, mas nunca havia acontecido de ser justamente no trem em que eu estava. Após o anúncio, alguns passageiros até demonstraram alguma reação, mais de surpresa, quebra de rotina, mas muitos não tiveram reação alguma, continuaram como se fosse o tradicional anúncio de qual é a próxima estação de parada. Entre os que reagiram, a maioria se limitou a pegar o celular para enviar mensagens. E o trem ficou ali parado, por 15 minutos, com as pessoas sentadas esperando. Aos poucos, os passageiros foram telefonando e avisando que chegariam atrasados em seus compromissos devido ao acidente, mas nenhuma pessoa demonstrou curiosidade sobre o ocorrido, tentando ver o que estava acontecendo ou contando mais sobre o acidente no celular. Após os 15 minutos, o funcionário do trem - além do maquinista, os trens costumam ter um outro funcionário no fim do último vagão que é responsável pelos avisos e pela abertura e fechamento das portas - voltou a anunciar sobre o ocorrido, com uma voz bastante nervosa e cometendo erros.

Paramos na próxima estação, pegamos mais alguns passageiros, mas assim que partirmos fomos avisados de que aquele trem sairia de operação na próxima estação, e todos deveriam descer. Lá, todos desembarcamos, a plataforma ficou lotada, e o trem foi movido para um dos trilhos paralelos, onde funcionários observaram a frente do trem (não havia marcas, apenas um pouco de sangue na lateral do pára-choque) e a parte inferior do primeiro vagão.

As pessoas embaracaram no próximo trem continuando para suas estações de destino, onde chegando muitos pegaram o “comprovante de atraso”, um pequeno formulário que as empresas de trem já tem preparados para distribuir sempre que uma linha de trem atrasa mais que alguns minutos. Estes documentos são usados para justificar porque as pessoas não chegaram a tempo em seus compromissos. A pontualidade do japonês depende em grande parte da pontualidade dos trens: existem sites onde, informando-se qualquer estação de origem e de destino dentro do Japão, o sistema calcula toda a rota e horários que devem ser tomados para se chegar ao destino em qualquer horário definido. Na grande maioria dos casos (isto é, quando não há imprevistos) esses sistemas funcionam muito bem e nos fazem poupar muito tempo. Mas quando algo de diferente acontece, a realidade fica inconsistente com os horários pré-determinados por horas, até que os trens consigam recuperar o atraso.

Eu não sei o que leva tantas pessoas no Japão a se suicidarem, mas eu tenho uma teoria. A socieade japonesa não dá muita liberdade ao indivíduo de dar rumo a sua própria vida. O japonês típico tem uma vida confortável, mas, na minha visão, sem graça. Parece que todo japonês leva a mesma vida: nasce, entra na escola, aprende a conviver com os coleguinhas e ser um “bom japonês”, se mata estudando no colégio para entrar na faculdade, vadia durante os 4 anos de faculdade (e às vezes mais dois no mestrado), encontra um emprego de escritório em uma grande empresa japonesa, se casa, tem filhos, se mata trabalhando na mesma empresa até envelhecer, perdendo contato com a própria família, que passa a considerá-lo um estranho quando ele retorna ao convívio doméstico após se aposentar. É como se a sociedade o colocasse numa esteira lá no início da vida, e sem que a pessoa tenha que tomar nenhuma grande decisão, ela vai passando por ele, sem muito controle sobre ela.

Só que essa mesma esteira que provê uma vida fácil e confortável, torna um transtorno a vida de qualquer um que queira ter experiências diferentes. Japoneses não gostam de viver por um tempo no exterior pois tem medo de não conseguir reentrar na sociedade após a volta, não gostam de empreender pois tem medo de não conseguirem retornar aos seus empregos caso o empreendimento não de certo. Não saem da esteira porque é ela a forma “certa” de viver, e qualquer um que o faça é visto com estranheza, como um dissidente que tenta quebrar a harmonia do grupo. Ou, ainda que a pessoa não tenha grandes ambições de fazer e ser diferente, ela simplesmente não sabe como agir quando a vida coloca diante dela uma situação em que, pela primeira vez, ela tenha que decidir por si só como agir. É como os horários dos trens: funcionam perfeitamente até alguma coisa saia dos planos. E essa pressão é o que acredito ser a causa de tanta depressão, um sentimento de que a vida é tão miserável e que não vale a pena ser vivida, que termina levando tantas pessoas a achar como única saída se jogar na frente de um trem, não precisar mais dar satisfação a ninguém.

Coincidentemente, após o “transtorno” causado pelo pobre cidadão, chego no laboratório e encontro esse ensaio do New York Times de um japonês comentando sobre a “crise psicológica” que assola o país, e que em alguns pontos vai ao encontro do que escrevi aqui.

por Roberto Jung Drebes 6 comentários