sábado, dezembro 30, 2006

Checkpoint

Viajo amanhã, para o interior do Japão. Volto só pelo dia 2 ou 3. Esse é, portanto, o último post do ano. Todos os planos e objetivos de 2006 foram alcançados, além de algumas agradáveis surpresas. A fase de adaptação no Japão já se acabou. Espero, para 2007:

  • Aprender a falar japonês. Já entendo bastante coisa, já me viro no dia-a-dia, mas ainda tenho dificuldade de me expressar, de ter uma conversação, mesmo que básica, com as pessoas. Para alcançar esse objetivo pretendo aumentar meu vocabulário e redecorar padrões de expressões que já aprendi mas esqueci pela falta de prática.
  • Fazer mais amigos japoneses. Isso depende bastante do item anterior. Sei que não vou entender tudo daqui, mas vou entender muito mais se tiver contato com pessoas da terra que possam (tentar) me explicar as coisas do Japão e como o povo japonês pensa. Para isso, vou tentar aproveitar melhor as oportunidades que tenho de ter contato com as pessoas daqui.
  • Definir melhor o tema da minha tese. O plano original não era maduro o suficiente, além de chato, então estou procurando um novo assunto. Tenho uma idéia, parece legal. Vi que já fizeram algo parecido, mas não aprofundaram o tanto quanto eu gostaria. Só preciso agora convencer meu orientador que a idéia é boa e achar aliados que estejam interessados em trabalhar comigo.

Quando voltar escrevo sobre os assuntos atrasados: visita do meu pai e irmã, Natal e, até lá, Ano Novo.

Abraços e obrigado pela companhia. Por que não aproveitar para deixar um recado de fim de ano nos comentários? Pode ser qualquer coisa... uma apresentação, crítica, sugestão, um pedido ou um singelo “oi”. Todos serão muito bem recebidos.

Yoi otoshiwo (良いお年を), e até 2007!

quarta-feira, dezembro 27, 2006

E eu estava lá

Eu prometi escrever sobre o jogo, e melhor fazer isso logo já que tem muita coisa acontecendo aqui no fim de ano, que vai acumulando pra escrever.

O primeiro sinal de que aquele domingo seria atípico foi, ao passar pela Yodobashi Camera, uma loja de eletrônicos, pela manhã, ver um homem saindo com um PlayStation 3 recém comprado, o novo videogame da Sony. Por que estranho? Porque, lançado à poucos meses, esse aparelho é praticamente impossível de se comprar, já que a Sony está com sérios problemas de produção e o fornecimento é extremamente limitado. A gente aqui diz que o PlayStation 3 é que nem Papai Noel e coelhinho da Páscoa: se fala que existe mas na prática ninguém vê. Pois bem, ele existe sim, e de vez em quando até tem pra vender, mas esse não é o assunto desse post.

O assunto de hoje é o jogo. Chegou o tão esperado dia, sonho de muitos colorados que esperavam há anos por essa chance. O colorado não estava em Tokyo - muita coisa mudou desde que o grêmio foi campeão da Copa Toyota - mas em Yokohama (横浜), cidade moderna, com um excelente estádio que foi sede da final da copa de 2002.

Nas ruas de Tokyo se viam muitos colorados. Em qualquer ponto turístico, sempre se encontravam dois ou três com o fardamento do Inter: camisetas, jaquetas, ou apenas cobertos com bandeiras do Inter e do Brasil. Dizem que os torcedores do Barcelona são bastante fanáticos, mas a verdade é que não se via um espanhol pela rua, ou se os via, estes estavam “à paisana”.

Na verdade vimos apenas um grupo, à tarde, na famosa Chinatown de Yokohama. Um grupo de senhores conversava em espanhol e o Marco, amigo meu, não perdeu a chance de dar uma provocada. Disse que a alegria terminaria à noite, ou algo assim. Os espanhois gritaram “Barça, barça!” mas logo fomos embora, pois queríamos ir pro estádio.

Chegando na estação do estádio, o clima já era de superprodução. Vários guias indicavam o caminho, separando as pessoas pela entrada associada ao ingresso. Alguns falavam espanhol, português, até italiano, identificados em sua roupa. Mas não foi necessário, as próprias placas eram suficientes.

O estádio internacional de Yokohama (横浜国際総合競技場) fica a uns 15 minutos a pé da estação. Eu já conhecia o estádio, pelo menos por fora, mas não sabia! É que lá pela metade do ano eu fui a Yokohama prestar o TOEFL, e era muito próximo do estádio da Nissan, que eu havia visto. Eu duvidei que a final de um evento patrocinado pela Toyota seria no estádio da Nissan - as duas empresas são concorrentes -, mas de fato, o nome oficial do estádio é “Nissan Stadium”, sendo o nome “Yokohama International Stadium” o antigo, ainda usado em eventos da FIFA onde não é permitido usar a marca dos patrocinadores para nomear os estádios.

No caminho até o estádio, muitos estrangeiros vendendo camisetas, mantas, faixas do Barcelona. Alguns vendiam camisetas de outros times, da seleção brasileira, mas não havia quase nada do colorado. Um ou outro vendia a camisa oficial, muito cara, e obviamente ninguém comprava. Estes estrangeiros mal e mal falavam japonês, eram na maioria europeus, turcos, etc.

Não só pela quase exclusividade de venda de artigos do Barcelona, era claro que os japoneses estavam lá pra ver o Barcelona do Ronaldinho. Muitas pessoas usando ítens do Barcelona, e apenas um ou outro japonês com alguma coisa do Inter.

Pra entender é preciso falar da popularidade do Ronaldinho aqui. Tirando os jogadores de Beisebol japoneses, o Ronaldinho é sem dúvida a maior celebridade dos esportes aqui. Ele estrela diversas campanhas, a mais famosa é de um cartão de crédito onde aparece de terno falando de seu passado e como chegou aonde chegou, tudo em português com legenda em japonês. Tem cartazes dessa propaganda em todo lugar, até no meu supermercado, e a propaganda em si, até há algumas semanas atrás, era mostrada nos telões gigantes de Shibuya (渋谷), zona mais badalada de Tokyo onde fica aquele cruzamento que aparece no filme “Encontros e Desencontros”, um dos mais movimentado do Japão, senão do mundo.

Esse excesso de mídia faz as pessoas começarem a ver as celebridades como vindo de um outro planeta, de outro nível, diferente dos “reles mortais”. Assim, os japoneses foram ver o espetáculo do Ronaldinho, era claro pra eles que o Barcelona ganharia, e que Ronaldinho iria brincar no campo, dando um show pessoal.

Eu admito que até a gente acaba acreditando nessas bobagens. Vendo aquele estádio cheio de japoneses com bandeiras, camisas do Barcelona, dava até pra pensar que isso seria o que aconteceria, principalmente se os jogadores do Inter também, pelo menos de leve, acreditassem em tamanha bobagem.

Mas aí é preciso levar duas coisas em consideração. Primeiro, esse “Ronaldinho”, fenômeno, no fundo ainda era o piá que jogava nos campinhos de Porto Alegre, os mesmo que muitos jogadores do Inter já haviam jogado. E, mais importante, a torcida do Inter, se menos numerosa, era a torcida real, com paixão, e seus coros e gritos tomavam conta do estádio. Não havia comparação com o silêncio dos japoneses. Além disso, diferente do primeiro estádio onde o Inter havia jogado, em Tokyo, esse sim tinha cara de palco pro grande espetáculo que a torcida e os times fariam acontecer.

Pra ser sincero, havia uma torcida de espanhóis do Barcelona, mas pra minha surpresa, ela era menor que a do Inter. Tendo ouvido sobre como a torcida do Barcelona era fanática, e considerando que eles ganham em Euro, achava que o estádio estaria cheio de espanhóis, os únicos que poderiam rivalizar com a torcida do Inter, já que os japoneses uniformizados estavam ali apenas como figurantes. Mas, não, a torcida do Barça era de apenas uns 2/3 da torcida do Inter, que por estar espalhada pelo estádio - exigência da organização, dizem, que temia confusões - parecia ainda maior. Todos aqueles gritos ouvidos no Beira Rio tomavam conta do estádio de Yokohama: “Ronaldinho, amarelão, melhor do mundo é o Fernandão”, “Fernando... Carvalho...” e outros não tão inocentes que é melhor não escrever aqui. :)

E aí teve showzinho, apresentação. O Marco disse: "O Inter tinha que calar a boca de todo mundo hoje...", e o jogo começou. Ia ficando cada vez mais claro que o Barcelona era um time humano como o Inter, que aliás, era um belo time. Nunca entendi nada de futebol, e não foi no jogo que comecei a entender, mas dava pra ver que, se o ataque do Inter não se acertava muito bem, a defesa estava marcando bem o Ronaldinho, e conseqüentemente o “time das estrelas” que dependia dele ficava cada vez mais anulado. Claro, a marcação forte em cima dele deixava o outro lado um pouco mais aberto, por onde vários ataques eram feitos, o que nos deixava numa tensão danada, mas as defesas do Clemer foram decisivas nesses momentos.

O jogo foi indo, sempre no mesmo esquema. Terminou o primeiro tempo, e a gente ficou imaginando como seria o clima em cada vestiário. No do Barcelona, eles deveriam estar sem entender o que acontecia, no do Inter, a confiança e fé deveriam estar só crescendo. E o segundo tempo começou.

Poucas mudanças, mas ficávamos mais tranqüilos. Os ataques do Barcelona não eram mais tão fortes, até que, no final do jogo, o “inacreditável” aconteceu. O Inter marcou, e o silêncio dos japoneses que não entendiam o que acontecia contrastava com a festa da torcida colorada que tomava conta do estádio. No Japão, as coisas acontecem como o esperado. Japonês não gosta de inesperado. E eles estavam lá pra ver o Barcelona ganhar, como deveria acontecer - na cabeça deles. O gol do Inter não deveria fazer sentido.

O jogo finalmente acabou, mas antes passando os descontos mais longos da história, pelo menos na nossa percepção. E o “impossível” aconteceu. O Inter havia derrotado os “inderrotáveis”, os “melhores do mundo” e se tornava campeão do mundo. E eu, que nem gosto muito de futebol, estava lá, pra comemorar com toda aquela torcida fanática que atravessou o mundo, gastou uma nota, pra ver um sonho se realizar. Admito: claro que queria que aquilo acontecesse, não era meu sonho, mas estava feliz por ver o sonho de tanta gente se realizando. Era o inesperado, o triunfo dos desvalorizados, e, acima de tudo, o momento de glória, do desporto nacional. :)

No dia anterior, em Kamakura (鎌倉), a pequena estátua de Buda indicava o que estava por vir no dia seguinte. ;)

segunda-feira, dezembro 18, 2006

...registrar!

...e os vídeos!

Para a história...

Em seguida escrevo como foi! Por enquanto vão ficando com as fotos...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Com o cosmo em seus dedos

Ontem à noite foi o jogo do Inter. Eu estava lá. Acho que muitos devem esperar que eu escreva hoje sobre como foi o jogo, ou sobre como foi estar assistindo ao vivo, mas pra decepção da torcida colorada, não é sobre isso que vou escrever. O que eu tenho pra contar é sobre algo que assisti ontem à tarde, em uma das séries de seminários que estou matriculado. Foi algo inesperado e bastante interessante. E espero que os colorados, depois de lerem, concordem comigo que valeu a pena deixar o jogo para depois.

Uma das coisas legais do departamento onde faço doutorado é que ele é multidisciplinar. O departamento, chamado “Advanced Interdisciplinary Studies”, apesar de ser ligado à escola de engenharia, também possui estudantes das áreas de biologia, sociologia, direito etc. Este semestre, além de uma série de seminários sobre dispositivos físicos do estado-da-arte, resolvi me matricular também nos seminários sobre “sistemas sociais”. Fiquei meio em dúvida sobre isso, pois eles fogem (bastante) da minha área de pesquisa (computação - tolerância a falhas), mas, apesar de serem todos em japonês e eu entender cerca de 5% do que está sendo apresentado, são sempre muito interessantes, coisas realmente novas para mim. Só lamento que meu nível de japonês não me permite levar comigo muito mais do que ali é passado.

Chegando na aula ontem, um professor estava preparando o projetor para sua apresentação, e sentado junto a audiência estava um outro japonês, engravatado, acompanhado de duas moças. Os três estavam de costas para os alunos, e o homem falava com o professor, usando uma voz estranha, alta para os padrões japoneses e com uma flutuação forte na entonação. Achei estranho, mas já me acostumei a achar tantas coisas aqui estranhas que não dei muita bola.

Quando o professor termina a preparação do equipamento, o japonês da voz estranha e uma das moças se levantam, se viram para os alunos e ele começa a falar. Então reparo que ele é cego, e as moças são suas assistentes. Ele pergunta para ela quantas pessoas estão presentes. Ela da uma olhada geral e diz para ele um número aproximado. Não entendo muito bem o que está acontecendo, como sempre, tudo acontece em japonês. Mas reparo que ela segura ambas as mãos dele, e enquanto fala, bate com os seus dedos nos dedos do homem.

Por que ela faz aquilo? Parece que, além de ser auxiliar dele, a moça tem algum tique nervoso. Ou ainda, que ele tem mais alguma deficiência, que exige que ela o toque para lhe passar algum feedback. Continuo assistindo, sem entender plenamente o que está acontecendo, enquanto os alunos distribuem um texto do palestrante. Pego a minha cópia, começo a examinar, verifico estar quase tudo em japonês, exceto o final, que apresenta um poema em inglês. O poema se chama “Cosmos on my Fingertips” (O Cosmo em meus Dedos) e diz:

When light and sound vanished from my life,
There ceased to be words,
And the world was no more.

Alone in the dark and silence,
I sat motionless, wordless.

But when your fingers touched my fingertips,
Words emerged into being,
Throwing light and invoking melodies lost.

When I communicated with you through my fingertips,
There arose a new cosmos,
And I discovered the world again.

Communication is my life.
My life is and will always be with words --
Words spun out from the cosmos on my fingertips.

Ao terminar de ler esse poema, senti um arrepio, uma sensação estranha, enquanto finalmente entendia aquela pessoa que estava ali. Ele era um surdo-cego, e a moça “digitava” em seus dedos o que estava escutando.

Depois recebi outra cópia do texto, esta em inglês. Aí tive mais detalhes. O nome do homem era Satoshi Fukushima (福島智), e ele é professor da Universidade de Tokyo. O texto distribuído era uma cópia de seu discurso de abertura da 2a Conferência Internacional para o Design Universal, que aconteceu este ano em Kyoto. O Prof. Fukushima nasceu com audição e visão normais, tendo portanto aprendido a se comunicar, mas aos 9 anos de idade perdeu a visão. Aos 18, para seu desespero, perdeu sua audição, tornando-se um surdo-cego. Segundo sua apresentação, o número de pessoas na mesma situação é de 1 para 5 mil a 1 para 10 mil, sendo portanto muito mais comum do que se pode imaginar (supondo o número menor, no Brasil devem existir cerca de 20 mil pessoas nessa situação!). A grande virada em sua vida foi o invenção, junto com sua mãe, da técnica chamada finger Braille que é esta digitação das palavras em seus dedos e o reconhecimento através do tato. Com ela, ele pode continuar seus estudos, sendo o primeiro surdo-cego a entrar em uma universidade, se formar, e finalmente se tornar professor da universidade mais conceituada do Japão.

Passada a apresentação inicial, a palavra voltou ao Professor que inicialmente preparava o projetor, que apresentou sobre técnicas de auxílio aos deficientes. A palestra foi uma das mais interessantes dessa série de seminários e, apesar da língua, em uma das quais mais entendi sobre o que se estava falando. Foram mostradas técnicas de reconhecimento de sons por surdos, o funcionamento de uma laringe artificial, a percepção do ambiente por cegos, robôs de auxílios aos deficientes, além de diversas outros “milagres” tecnológicos.

E, paradoxalmente, enquanto eu estava ali com meus 5 sentidos intactos, entendendo cerca de 10% do que estava sendo apresentado, o Prof. Fukushima, com suas duas assistentes que se revezavam a cada 20 minutos em seus dedos, provavelmente estava absorvendo mais de 95% do conteúdo da apresentação. Com esse pensamento na cabeça, saí da aula para o jogo do Inter, que fica para um outro post...

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Bonito, tudo colorido

Sabe aquelas atividades que a gente tem vontade de fazer, que a princípio não tem empecilho ou dificuldade maior, mas pelas circunstâncias a gente acaba adiando? E um dia, na situação mais inusitada, as coisas se arranjam, os “astros se alinham”, e a oportunidade cai de novo na frente da gente? Pois é, pra mim assistir um festival de balonismo foi mais ou menos assim.

Em Torres, a cerca de 200 km de Porto Alegre, todo ano tem um festival internacional de balonismo, bastante famoso e reconhecido, mas apesar da vontade, sempre acabava não assistindo. Estando aqui no Japão, claro, tento nunca deixar escapar as oportunidades, portanto, assim que fiquei sabendo que o campeonato mundial de balonismo seria aqui perto de Tokyo, em Tochigi (栃木), dei um jeito de me mandar pra lá.

O acaso foi a forma curiosa com que fiquei sabendo do evento. Uma vizinha estava de aniversário, e convidou um grupo de amigos para almoçar. Quando estávamos comentando sobre quem iria no almoço, ela comentou que uma outra brasileira, a Eliza, não iria, pois estaria trabalhando neste festival de balonismo. A Eliza é minha colega de japonês. Já havia conversado bastante com ela, mas nunca imaginara ela como observadora oficial de um campeonato de balonismo, ainda mais o campeonato mundial! São as pessoas e as surpresas que elas nos guardam... Conversamos, então, com a Eliza, pedimos mais detalhes sobre o festival, onde estava sendo, como chegar lá, qual o melhor dia para ir, esse tipo de coisa, e no fim de semana seguinte (o último do festival) nos mandamos para Tochigi, para ver uma das últimas provas e uma apresentação noturna dos balões.

Saímos de Tokyo e fomos para Tochigi, estação de Utsunomiya. Fomos com o Rafael, namorado da Eliza, que ficava conversando com ela pelo celular para nos dizer onde deveríamos ir. Para minha primeira surpresa, mas que pensando bem é algo óbvio, um festival de balonismo não acontece em um lugar específico: ele acontece em uma região. Isso significa que não existe um lugar para onde se ir para assistir o vôo dos balões. As provas consistem em um briefing onde os pilotos são informados onde é o alvo, e dentro de algum intervalo de tempo devem voar para ou sobrevoar este local, dependendo do tipo de prova. Como os pilotos não podem saber a priori onde o alvo fica, é complicado para nós, também, nos dirigirmos a ele e esperar os balões.

Felizmente tinhamos o Rafael e a Eliza. Assim que o briefing informou o local do alvo, a Eliza avisou o Rafael e para lá tentamos ir. Primeiro problema: tinhamos apenas uma coordenada. Isso não chega a ser um problema grande aqui, pois muitos taxis tem GPS. Mas estávamos longe de Tokyo, e não havia um único taxi com GPS na redondeza. Mais conversas com a Eliza. O Rafael consegue referências sobre o local do alvo: ao norte do local tal, sul da cidade tal, perto do rio tal, próximo das linhas de alta tensão, e assim entramos em um taxi para procurar o bendito lugar. Sorte que o Rafael fala bem japonês, e ía conversando com o motorista. Andamos, andamos, e nada do lugar aparecer. Nada de vermos um único balão. Ruas longas, praticamente estradas, no meio de campos de arroz. Após certo tempo de viagem, com a conta do taxi já chegando a 50 dólares, pedimos para o motorista parar, acertamos a conta, e dissemos que procuraríamos por ali. Ele, talvez com um pouco de pena, talvez também curioso em ver os balões, continuou andando com a gente por mais alguns quilômetros “pro bono”, dando voltas, até que finalmente avistamos o primeiro balão, e em seguida, diversos carros estacionados ao redor de um campo de arroz onde claramente deveria ser o alvo.

E aí foi bonito. Foi um balão, depois outro, logo o céu estava repleto de balões, que a distância não davam noção do seu real tamanho. Alguns, talvez por imperícia, estavam completamente distantes do alvo, passando a mais de um quilômetro do mesmo. Mas outros foram precisos, passando a alguns metros de onde estávamos. A visão valeu o custo da taxi, a espera, tudo. Tiramos muitas fotos e comentamos que pela primeira vez tirávamos fotos como aquelas de propagandas de camera ou filme fotográfico. Mas os balões foram passando, e, após o último, os carros ali estacionados começaram a ir embora.

Deveríamos então ir para o próximo evento, o chamado “Night Glow”, exibição noturna onde balões acendem seus maçaricos sincronizadamente, ou seguindo uma música. Esse evento seria no Twin Ring Motegi, autódromo que a Honda construiu para trazer a fórmula Indy ao Japão, e que ficava a uns bons 40 minutos de carro dali. Mas não tinhamos carona, e nem taxi passava por aquele local remoto. Já não havia quase mais ninguém para nos oferecer carona, já escurecia (aqui está escurecendo pelas 17:00), e estava bastante frio, cerca de 5 graus. E nós lá, “plantados”, no campo de arroz. Pedimos carona para o pessoal da organização do evento, que nos disseram que iriam para o Twin Ring, mas ainda deveriam terminar umas medições no local, e portanto levariam ainda mais uma hora, pelo menos, e que se não conseguíssemos outra carona, eles nos ofereceriam. O tempo foi passando. Estávamos preocupados. Achamos que eles haviam se esquecido de nós. Fomos nos aproximando deles de novo, até que finalmente duas moças vieram falar com a gente. Elas estavam indo para Motegi numa das vans da organização e podiam nos levar. Felizes e tranqüilos, finalmente!

Entramos na van, e o aquecimento nos realimentou de energia. Não conversamos muito no caminho, dormimos um pouco, e chegando lá, para nossa sorte, passamos por todos os pontos de controle sem muita espera, pois estávamos com o pessoal da organização, e nos largaram do lado do local da apresentação. A carona não poderia ter sido melhor.

Encontramos a Eliza, e a apresentação em seguida começou. Antes, claro, ainda vimos os balões serem enchidos, incluindo o balão decorativo da Honda, com forma de ASIMO. Além dos maçaricos acesos e da música, um bonito show de fogos de artifício acompanhou a apresentação, que só não foi mais legal por causa do frio que lá fazia. Mesmo assim, as fotos e vídeos ajudarão a guardar a lembrança.

Conclui que gosto mesmo de balões, e assumi um novo compromisso de vida: assistir ao Albuquerque International Balloon Fiesta, no Novo México, Estados Unidos.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Churrasco japonês

Fim de semana passado teve aniversário de um amigo. O plano era reunir o pessoal em um restaurante de shabu-shabu (しゃぶしゃぶ). Nesses restaurantes, em frente às mesas, se colocam umas panelas com água quente, ou um caldo, onde são fervidas fatias finas de carne ou vegetais. Se coloca a comida ali pra ferver por uns minutos (como em um fondue de carne) e depois se mergulha a comida em um potinho cheio de molho, para dar sabor, antes de comer. Não é ruim, mas não é uma das minhas comidas preferidas por aqui.

Chegamos no restaurante onde havíamos feito reserva, mas por algum motivo os funcionários reservaram prum número menor de pessoas do que havíamos pedido, o que nos fez mudar os planos. Saímos de lá para um restaurante de yakiniku (焼き肉, lit. carne tostada) ali perto, o que me deixou mais feliz, por ser uma opção que me agradava mais.

Yakiniku é o que na minha outra estada no Japão conheci como “churrasco coreâno”. Alguns ainda chamam assim, mas hoje o yakiniku japonês é bem diferente do que veio originalmente da Coréia. Até porque não se come carne de cachorro. :)

O yakiniku é parecido com o shabu-shabu: também são fatias finas de carne ou outros vegetais trazidos à mesa, mas esses são tostados em uma pequena grelha ao invés de fervidos em uma panela quente. Em alguns casos se assam também cogumelos, salsichas etc. Depois, se mergulha os pedaços assados em um molhinho com gosto entre shoyu e molho inglês, bastante saboroso, o que dá mais graça à carne.

O restaurante que fomos me surprendeu positivamente. Nesses restaurantes, costuma se paga por um tempo fixo (em geral duas horas), no qual se vai pedindo as carnes e os outros ingredientes. Mas dependendo do lugar, depois de um certo tempo eles começam a demorar a ir trazendo a comida. Nesse, não houve resistência alguma e comemos muita carne, até não agüentar mais. Além disso, pela primeira vez vi um corte que lembrava picanha, mas o que mais gostei foram uns pedaços de carne mais encorpados, que ficavam mais suculentos que as usuais fatias finas. Talvez esses “filezinhos” não sejam do gosto do japonês, mas para nós, brasileiros, foram um sucesso. Já tivemos alguns churrascos aqui, bastante bons, mas esse yakiniku, além de mais fácil, não deixou nada a desejar.

terça-feira, novembro 21, 2006

Virou pastelada

Há três anos, na minha primeira visita ao Japão, fiz algo que nunca imaginava fazer: montar uma barraquinha de pastéis num festival. Se já foi bastante estranho da primeira vez, mais estranho ainda foi repetir isso nessa segunda estada, o que fizemos no outro fim de semana, aqui em Tokyo.

Todo ano o dormitório onde moro realiza o “Soshigaya Art Festival”, um evento que oportuna a maior integração dos estudantes estrangeiros que aqui vivem com a comunidade local. O festival tem diversas atividades: apresentações de danças típicas, oficinas, estandes de promoção dos países, e um “restaurante internacional”, onde os estudantes podem montar barracas e vender comidas dos seus países.

Há cerca de dois meses nos perguntaram o que gostaríamos de preparar pelo Brasil, e resolvemos montar um estande de promoção do Brasil e uma barraca de venda de comidas. Além disso, o Leandro, brasileiro que também mora aqui, conhecia um grupo de capoeira, e os convidou para se apresentarem no festival. Eles toparam. Apesar de não ter nenhum brasileiro nesse grupo, seria mais uma oportunidade legal de mostrar algo do Brasil.

Como já havia feito isso, sugeri de vendermos pastéis, e o pessoal gostou da idéia. Só que ninguém tinha noção de como nos prepararmos pra isso. Da outra vez, minha amiga Mayuko ficou responsável pela maior parte da preparação, comprando ingredientes, arranjando equipamento para cozinhar etc. Dessa vez estávamos por nossa conta, então precisávamos de um plano.

Primeira etapa do plano: determinar quantos pastéis gostaríamos de vender, e quais ingredientes e em que quantidades precisaríamos. Determinamos que venderíamos cerca de 200 pastéis, recheados com atum, batata, chocolate, banana, lingüiça e queijo. Os recheios podem parecer estranhos, mas são baratos aqui e agradam o público, como já tinha visto da outra vez.

Ok, mas alguém que nunca tenha feito pastéis tem idéia de quanto de ingrediente se precisa pra fazer 200 pastéis desse tipo? Nós não tinhamos! Primeiro, teríamos que determinar quanto de massa deveríamos comprar. Existem sites aqui no Japão que vendem coisas brasileiras, incluindo massa de pastel em rolo, mas não sabíamos quantos pastéis um rolo faria. Google to the rescue. Encontrei uma única página com receita de pastel dizendo que um rolo de 500 g servia pra fazer 10 pastéis. Certo, precisariamos de 20 rolos, pelo menos.

E os recheios? Quantas gramas de recheio vai em um pastel? A gente tem uma idéia do volume, mas não do peso. Aí lembrei que o volume de um recheio de pastel é mais ou menos o de um queijo Polenguinho. Bastava ver (mais uma vez, no Google), qual o peso de um Polenguinho, que rapidamente descobrimos pesar 20 g. Beleza, precisaríamos de cerca de 4 kg de recheio.

Fizemos (ou melhor, o Leandro fez) a encomenda das massas pela Internet. Por segurança, e por acharmos que conseguiríamos vender 200 pastéis facilmente, pedimos 25 rolos. Alguns dias depois chegou a encomenda, uma caixa grande com 12,5 kg de massa de pastel, que praticamente lotou as (pequenas) geladeiras do Leandro e do Bogdan. Em seguida, fomos ao supermercado comprar os ingredientes. Meio no olho, já que batatas e bananas aqui não são vendidas por peso mas por unidade, compramos os demais ingredientes, cerca de 1 kg de cada. Achamos, por sorte, barras de Suflair Alpino brasileiro no super, e resolvemos comprar, já que o preço era praticamente o mesmo do chocolate japonês, e ele derreteria mais facilmente, além de ser mais gostoso. :)

Sábado, dia 11, um dia antes do festival, resolvemos experimentar a primeira fritada, para ver como ficaria. Abrimos um rolo de massa e vimos ser possível fazer cerca de 14 pastéis por rolo, já que os nossos tinham um tamanho mais modesto. Poderíamos fazer cerca de 350 pastéis, ao invés dos 200 programados. Fizemos o primeiro teste, e ficou legal. Resolvemos então já fechar todos os pastéis para o dia seguinte. Terminamos todos os recheios, e resolvemos comprar mais duas latas de milho para terminar o queijo que ainda tínhamos. No fim, não teve desperdício algum. Ficamos na cozinha das 12:30 às 21:00! Também determinamos os preços dos pastéis. Gostaríamos de vendê-los por 250 ienes (cerca de R$4,50), mas lembramos que moedas de 50 ienes não são tão comuns e teríamos problema em dar troco, portanto resolvemos mudar os preços para “1 por 300, 2 por 500”.

No dia seguinte, domingo, tínhamos das 11:30 às 15:30~16:00 para vender nossos pastéis. Arranjamos um fogareiro portátil para fritar na própria barraca, além de uma panela grande, mas o vento no dia (estamos no outono), não permitia que o azeite esquentasse. Felizmente tinhamos um plano “B”, fritar os pastéis na cozinha do dormitório. Deixamos o fogareiro na barraca, com uma panela pequena, onde pastéis solitários eram fritos, mais de demonstração do que real ajuda. Fritamos os pastéis na cozinha, e os levávamos numas bandejas para a barraca. Fiquei a tarde inteira na cozinha fritando pastéis, mas o que me diziam é que quando chegava a bandeja com os pastéis quentinhos, a fila aumentava significativamente!

No final, sucesso total, vendemos cerca de 320 pastéis, descontando alguns que comemos, outros que se perderam por estourar etc. A estratégia de vender 2 com desconto funcionou, já que muita gente levava de dois em dois. Alguns comentaram que os pastéis estavam caros, mas o fato de termos vendido todos os pastéis prova que o preço estava apropriado (apesar de termos baixado um pouco no final do dia).

Tenho que agradecer em especial ao Francisco, mexicano, que passou a maior parte da tarde comigo fritando pastéis na cozinha. Sem a ajuda dele não teríamos conseguido suprir a demanda no horário de pico. Em especial, também, à ajuda dos outros brasileiros que não moram no nosso dormitório e vieram nos ajudar: Fernanda, Rômulo, Miura e Geraldo. Finalmente, aos “soshigayenses”, Bianca, Bogdan, Gustavo, Marcelo e Leandro. Nosso super time foi eficiente, vendeu tudo que tinha pra vender, e ainda juntou uma graninha.

Não falei do estande do Brasil, que fizemos as pressas, mas ficou muito bacana. Juntamos postais, cartazes, e alguns outros souvenirs, e ficou algo representante do país. O show de capoeira também foi um sucesso, atraiu muito a atenção de todos. Além disso, o Bogdan, um dos que moram aqui, tocou no violão músicas brasileiras, e apesar de eu não ter visto, dizem que foi bem bacana.

A todos nós, お疲れさまでした! (otsukaresamadeshita, bom trabalho)

terça-feira, outubro 10, 2006

Um dia de sorte

Quinta-feira passada completou 6 meses que cheguei no Japão. Fui almoçar em Shinjuku (新宿), o bairro comercial mais movimentado de Tokyo, porque a tarde havia combinado com a Elka, uma amiga, de comprar ingressos e passagens para um passeio que fizemos com um grupo nesse sábado. Chegamos no escritório onde vendem as passagens e, devido ao feriado que tivemos na segunda, estava difícil conseguir os pacotes para o dia e horário que queríamos. Mandamos mensagens para o resto do grupo para ver qual a opinião deles, e enquanto esperávamos resolvemos tomar um café ali perto.

Durante o café, perguntei à Elka, que fala japonês muito bem, se ela podia me ajudar numa loja perto dali onde tinha visto uma bicicleta que me interessou, mas precisava saber se eles faziam entrega em casa. Estou aqui a 6 meses, e por todo esse tempo fiquei sem bicicleta. O pessoal do meu dormitório já estava até brincando comigo, já que eu era o único que não tinha. O que acontece é que quando vou comprar algo, fico muito tempo decidindo, escolhendo, vendo se é realmente o que quero, e só então compro.

Bicicletas no Japão são essenciais, parte da vida, e existem modelos variando de 50 a 1500 dólares. Não queria a bicicleta mais barata, elas não são ruins, mas são bem simplesinhas. Não queria a bicicleta mais cara, difícil justificar um gasto tão grande em uma bicicleta a menos que isso fosse um hobby, coisa que pra mim (ainda) não é. Queria algo intermediário, com preço legal e que fosse bonita. E fiquei cerca de 6 meses procurando essa bicicleta.

Semana passada tinha visto a bicicleta, em uma loja de departamentos que seguido visito, a Bic Camera. Era uma mountain bike que custava cerca de 235 dólares, preço razoável, design bacana. Estava quase decidido, depois de tanto tempo. Fomos à loja perguntar da entrega, mas não planejava comprar no momento. O vendedor disse à Elka que eles entregavam, sim, mas que tinha um custo, cerca de 8 dólares. Nessa hora, vi também que havia uma nova cor do mesmo modelo, um preto fosco que achei ainda mais bonito que o prateado que havia visto antes. Fiquei bem tentado a comprar, mas já havia esperado tanto tempo e realmente não queria comprar por impulso. Também, havia visto uma outra bicicleta em outra loja, não tão bonita e um pouco mais cara, mas de alumínio. Quanta indecisão...

O Issamu, outro amigo, escreveu para a Elka e disse que vinha nos encontrar. Ele é um cara de quem gosto de ouvir opiniões, então resolvi esperar ele chegar para perguntar o que ele pensava. Uns 20 minutos depois ele chega e trocamos umas idéias sobre a bicicleta. Ele também acha ela bonita, um preço bom, e eu me decido, finalmente, a comprar. Vamos ao caixa, preencho o registro anti-furto1 e o vendedor me diz o total. Entrego o dinheiro, o vendedor registra no caixa, olha a tela, e diz “ee, sugooi!” (algo como “uau!”) e começa a tocar um sino! Ele olha para a Elka com uma cara de “me ajuda, por favor!”.

A Bic Camera está com uma promoção que a cada 100 clientes, um não paga. E eu fui um centésimo cliente! O vendedor devolveu meu dinheiro, e eu ganhei a bicicleta de graça. Fiquei ainda na ansiedade porque ela só seria entregue no domingo, mas como planejado ela chegou esse fim de semana.

Pode não ser a melhor ou mais bonita bicicleta, mas de graça, foi um ótimo negócio. Agora não preciso mais caminhar os 3,2 km diários para ir e voltar da estação de trem. Meus vizinhos não brincam mais comigo por eu ter demorado tanto pra comprar a bicicleta, e se eu já gostava muito de passear pela Bic Camera, agora, então, tenho ainda mais motivos pra gostar dessa loja.

1 O registro anti-furto é um serviço onde colocam um número na bicicleta, e a polícia pode dar batidas eventuais e verificar se esse número está registrado em nome da pessoa que está conduzindo.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Pra quem eu (não) votei pra presidente

Eleição no Brasil é sempre aquela coisa curiosa. Pela obrigatoriedade, fica a dúvida se é um direito ou um dever do cidadão. A resposta é sempre que é os dois, tanto direito como dever de todo brasileiro.

Então é de se supor que uma pessoa com todas as condições legais de votar, que entre com o pedido de transferência de domicílio eleitoral dentro dos prazos estabelecidos, possa exercer o direito e votar, correto?

Errado, ou como se diz aqui chotto chigau... (“não é bem assim”) Eu, estando no Japão, teria o direito de transferir meu título para cá, o que me permitiria votar para presidente domingo passado, desde que entrasse com o pedido no consulado até 3 de maio, limite estabelecido para se fazer essa solicitação. Cheguei em abril e portanto tive ainda certa folga. Fiz a solicitação antes da data limite, no dia 28 de abril de 2006.

Mas por que votar? Convenhamos, essas eleições não estavam nada empolgantes. Nenhum candidato me despertava confiança plena, dando vontade de receber meu voto. Mesmo assim, pelo que vem acontecendo no país (o que a gente sempre acompanha, mesmo à distância), com certeza havia alguns nomes a quem eu não gostaria de entregar meu voto. E não votar em certas pessoas (podendo votar em outras) também é uma forma de comunicação. Deveria passar uma mensagem.

Só que a mensagem não pode ser passada. Meu direito foi negado, pois meu título não foi transferido a tempo para as eleições e conseqüentemente não pude votar. Recebi do consulado a seguinte mensagem, alguns dias antes do pleito:

O Consulado-Geral do Brasil informa que o seu pedido de cadastramento eleitoral esta entre os que nao foram processados a tempo para votacao nas proximas eleicoes. Transcrevo abaixo trechos de oficio do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal a respeito:

"Em virtude de problemas enfrentados no fechamento do cadastro de eleitores residentes no exterior, que solicitaram alistamento ou transferencia, (...) alguns cidadaos brasileiros estarao impossibilitados de votar nos termos por eles requeridos.

Portanto, aqueles cidadaos que solicitaram alistamento eleitoral e nao constam do cadastro de eleitores nao poderao votar nas eleicoes presidenciais que se avizinham. Ja os eleitores que requereram transferencia de domicilio eleitoral deverao justificar a ausencia de voto junto a reparticao consular do local em que se encontrem, em vista de ainda constarem em seus cadastros o domicilio anterior.

Importante frisar que os cidadaos que nao poderao votar terao sua situacao eleitoral imediatamente regularizada quando da reabertura do cadastro de eleitores, que ocorrera apos a finalizacao das Eleicoes 2006."

Ou seja, não só não pude votar, como ainda tive que ir ao consulado justificar minha ausência, como se não fosse óbvio que quem tem um pedido aberto de transferência que não foi efetivado não votou por causa disso. E chovia! Se eu pudesse ter votado, ia com gosto mesmo assim. Pior, ainda tive que fazer uma solicitação de cancelamento do processo de transferência, pois a efetivação seria feita automaticamente para a próxima eleição (que só terei que votar daqui a 4 anos, pra presidente, quando já devo estar de volta ao Brasil). E não sou um caso isolado. O mesmo parece ter acontecido com todos bolsistas daqui que tentaram transferir o domicílio eleitoral pra essas eleições.

Aí começamos a divagar... Primeiro, a gente só ve o valor real das coisas quando elas nos são tiradas. O voto no Brasil não é um direito, é apenas um dever. Se o estado resolve que você não pode votar, é isso, não tem discussão. Segundo, a gente começa a se questionar sobre a validade do processo todo.

Existem cerca de 100 mil brasileiros vivendo legalmente no Japão. Nós, bolsistas, somos uma minoria, sendo a maior parte dessa população de descendentes (nikkeis), que vem em busca de trabalho para uma vida melhor. Não entrando no mérito se essas pessoas são ou não “politizadas” (até porque esse termo não quer dizer muito), é de qualquer forma surpreendente que o número de eleitores brasileiros registrados no Japão seja de apenas 558 pessoas (dado oficial do TSE de junho de 2006).

Curiosamente, Geraldo Alckmin venceu Lula fora do país. Na verdade não é de se surpreender, já que muitos que vivem no exterior são “expatriados”, que tentam uma vida melhor “além mar” por estarem insatisfeitos com a situação local.

terça-feira, setembro 19, 2006

Doutorando

Pra evitar a formação de teias de aranha nesse blog, vou dar uma atualização geral sobre as atividades do verão. Fica cada vez mais difícil escrever, não por falta de tempo, mas pelo fato do meu dia-a-dia aqui estar cada vez com menos cara de “viagem” e mais parte da minha vida normal. E escrever sobre isso não parece tão interessante.

A primeira (grande?) notícia é que dia 30 de agosto teve minha prova de admissão pro doutorado. Desde que cheguei aqui estava como “estudante de pesquisa” (kenkyusei, 研究生) que é como chamam quem faz pesquisa mas não está buscando um título. Todos os bolsistas de pós do Monbukagakusho (文部科学省) chegam aqui com esse status e só se tornam mestrandos e doutorandos depois de aceitos nos exames de suas Universidades. Os exames variam muito: alguns tem provas de conhecimento, em japonês, outros em inglês, e a dificuldade varia muito. Eu tive sorte: no meu departamento não há prova escrita e a seleção consiste apenas de uma entrevista/apresentação de 12 minutos, onde se mostra as realizações do mestrado e a proposta de pesquisa pro doutorado. Isso, claro, depois de entregar uma lista de realizações de pesquisa, de publicações, e um plano de estudos.

Fiquei muito nervoso com a apresentação. Preparei meu slides com certa antecedência e mostrei pro meu orientador. Ele gostou mas sugeriu mais alguns slides. Meu nervosismo era por dois motivos. Primeiro, apesar de confiante na defesa da qualidade do meu trabalho de mestrado, nem mesmo eu estava convencido da maturidade da minha proposta pro doutorado. Como quem é “acadêmico” sabe, isso amadurece com o tempo, e no princípio nunca se sabe ao certo pra onde a pesquisa vai se encaminhar. Segundo, não tão importante, também tinha o desconhecimento de como seria uma banca de professores japoneses. Eles entenderiam minha apresentação ou, pelo menos, as justificativas de porque gostaria de fazer o doutorado naquele departamento? Que tipo de perguntas fariam?

Foi a terceira vez que fiz uma apresentação importante (sendo as outras duas a defesa da graduação e do mestrado), e também a terceira vez que me estresso sem necessidade por causa disso. A apresentação correu bem, consegui acertar o tempo perfeitamente, e as perguntas que vieram depois, apesar de várias, foram pertinentes e mostravam que eles realmente queriam entender melhor o que eu havia feito e queria fazer, e não me colocar em uma situação difícil. Ao terminar a apresentação, ao sair da sala, apesar de não ouvir o que a banca dizia (e mesmo que ouvisse não entenderia nada), ouvi umas risadas, o que me deixou mais tranqüilo. Sabia que não havia motivos para estarem rindo de mim ou da minha apresentação, então o clima era cordial e as coisas deveriam ter saido bem.

Dois dias depois meu orientador me informou o resultado: eu havia passado. O resultado oficial veio mesmo só na semana passada, mas desde o dia 1º já estou arrumando a papelada para mudar o status da minha bolsa, me desligar do departamento antigo e ligar ao novo etc.

O melhor desse acontecimento é me permitir ver minha estada aqui com outros olhos: quando a gente chega como kenkyusei está com o futuro aqui incerto. Não se sabe até quando vai ficar no Japão nem o que se vai fazer. Agora eu sei. Fico aqui pelos próximos 3 anos, pesquisarei, escreverei minha tese e, sabendo disso, posso me programar pra aproveitar da melhor forma possível meu tempo livre nesse canto do mundo.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Minha “casa”

Hoje estava fazendo uma limpeza aqui no meu quarto, e me dei conta que nunca mostrei fotos de onde eu moro. Aproveitando que está tudo arrumado e limpo, seguem então algumas fotos (o quarto é pequeno, quatro fotos são suficientes pra mostrar tudo):

A casa é sua, vá entrando...

Minha escrivaninha, com o computador que também faz papel de TV e a estante com livros e outros badulaques.

Pelo outro lado, a cama (meu futon está dobrado lá em cima, coloco ele sobre a cama para dormir), e a janela.

Em direção à porta: à esquerda a mesa onde eu faço lanches, minha “dispensa” e o refrigerador (embaixo à direita). Tem meu ventilador também, mas o quarto tem ar condicionado.

Finalmente, meu banheiro. O chuveiro é lá fora, compartilhado mas individual, felizmente limpo também.

Claro, tem dormitórios melhores, mas esse meu não é ruim. A visita foi rápida, voltem sempre... ;)

sábado, agosto 19, 2006

Ingresso comprado

Posso não gostar tanto assim de futebol, mas essa oportunidade eu não ia perder. Compramos hoje (eu, o Mário e o Marco - dois outros gaúchos e colorados) nossos ingressos para os jogos do Inter, dias 13 e 17. Vamos de categoria 1, pra que nossa faixa pro Galvão Bueno apareça na TV, hehehe. Aos que vem, nos vemos lá, aos que não, procurem tres pontinhos vermelhos na TV. ;)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Glória do desporto nacional

Logo que saiu a confirmação da minha vinda aqui pro Japão, aproveitando a boa campanha do Inter até então, mas também com certo deboche, coloquei no meu MSN a expressão “Colorado rumo a Tóquio”. Claro, já tantas vezes o Inter havia “morrido na praia” que qualquer resultado positivo era motivo pra alimentar a esperança colorada, o que acabava virando motivo de piada até entre seus próprios torcedores.

Sempre digo que não gosto de futebol mas, como é obrigação de todo brasileiro, tenho que “torcer” por um time, e por motivos familiares esse time é o Inter. Daí a brincadeira: eu, colorado, estava vindo rumo a Tóquio. Só isso. Não imaginava de verdade o Inter disputando a final do interclubes aqui no Japão.

Dizia, quando o Inter ia mal, que esse meu desinteresse por futebol não era devido a fase. Que era o mesmo estando o Inter bem ou mal. Agora, com o time campeão da Libertadores, continuo pensando da mesma forma. Ainda não gosto de futebol, mas fico feliz por todos os colorados, e mais feliz porque acredito que muitos vão se esforçar ao máximo para vir assistir aos jogos em Yokohama em dezembro.

Por isso, nas próximas semanas, vou começar a colocar aqui dicas de onde ficar, comer, como se locomover, e o que visitar em Tóquio.

Saudações coloradas!

quarta-feira, agosto 02, 2006

Flores de fogo

Se na sexta-feira entramos de férias da aula de japonês, já no sábado tivemos nossa primeira “atividade de lazer”: o festival de fogos do Sumidagawa (隅田川花火大会) em Asakusa (浅草), bairro mais tradicional de Tokyo.

Festivais de fogos são uma tradição nas noites de verão do Japão. Com as temperaturas mais amenas, milhares de pessoas se reunem nas margens dos rios para assistirem espetáculos preparados durante todo o resto do ano. O Sumidagawa é um desses rios e seu festival está entre os mais famosos. Por ter origem num festival antigo, é considerado um evento com mais de 270 anos de tradição. A queima de cerca de 20 mil fogos reune mais de meio milhão de pessoas, todo ano.

O início do show estava marcado para às 19:10, mas resolvemos ir mais cedo, na metade da tarde, para encontrar um lugar bom e dar uma passeada pelo local. O dia estava agradável e não havia motivo pra ficar em casa enrolando. Ao sairmos do dormitório encontramos uns amigos, de quem nos perdemos no caminho até Asakusa e pensamos não mais encontrar (nesse dia, é claro). Também, haviamos combinado de nos encontrar com um outro grupo, mas sabendo a quantidade de gente que deveria estar por lá achamos que ía ser muito difícil encontrá-los. Chegando em Asakusa, paramos pra comprar umas coisas para comer - eu comi um yakisoba (焼きそば) e uma amiga um takoyaki (たこ焼き) - e, pra nossa grata surpresa, logo numa esquina já encontramos o pessoal que haviamos perdido. Ligamos para o outro grupo que, através de uma referência aqui, outra ali, também encontramos, em um grande campo de esportes onde várias pessoas se preparavam para assistir aos fogos.

Nosso lugar não era dos melhores. As pessoas aqui costumam ir cedo pro local do evento e estender umas lonas, marcando o lugar para suas famílias e amigos. Os nossos tinham recém chegado e posto apenas umas esteiras em um lugar mais lateral do campo, não tinha comparação com os lugares que os japonêses madrugadores conseguiram. No nosso lugar havia algumas árvores, tapando parte da vista onde, esperávamos, estariam os fogos. Mesmo assim, tinha espaço pra todo mundo, dava até pra se deitar pra curtir o espetáculo, e, por estarmos juntos com o pessoal “nativo” compartilhávamos o espírito do evento. Era um lugar bacana.

Já disse outra vez, mas não custa dizer mais uma: apenas em uma situação os olhinhos dos japoneses se abrem, que é pra ver fogos de artifício. Eles ficam fascinados. Mas é fácil de se entender. No Brasil, somente nos últimos anos que começamos a ter fogos mais elaborados. Por muito tempo, fogos eram sinônimo de “rojão” e barulho. Aqui, os fogos tem que ser, antes de tudo, bonitos: como tudo aqui, visuais. Até o nome expressa isso. Para eles fogos de artifício são flores de fogo (花火, hanabi).

Esses festivais são encantadores, não só pela complexidade dos fogos (às vezes são até bastante simples) nem pelo exagero. O mais legal, pra mim, é o ambiente, a atmosfera. As pessoas na rua, vestidas com seus trajes típicos de verão - yukatas (浴衣) e jinbeis (甚平) - num clima familiar. Crianças, jovens, idosos, todos aproveitando o momento juntos. As barraquinhas de comidas típicas. Nada de tumulto (exceto pelo tumulto natural causado por qualquer reunião de 900 mil pessoas), é tudo muito tranqüilo. Mesmo que não seja para ver os fogos, só estar ali, naquele lugar e no meio daquela gente, já é muito agradável.

E os fogos, que tal? É o tipo da imagem que não dá pra descrever. O que dá, sim, é pra falar da sensação de estar ali assistindo. O deslocamento de ar de cada explosão, quando chega na gente, é como se nos transmitisse toda aquela energia que acabamos de ver, nos afetando, nos dando alegria. É impossível não ficar feliz. Se esquece qualquer problema, chateação ou preocupação. Mas eu não consigo descrever direito. Quem descreve bem esse fascínio que os fogos causam na gente é a Martha Medeiros, escritora gaúcha (e filha do meu dentista, hehehe), numa crônica que minha mãe gosta muito: “O motoboy e os fogos de artifício”, da qual transcrevo uma parte:

Nossas cabeças estão sempre olhando pra baixo, para os próprios passos, para o caminho a percorrer. Fogos de artifício nos retêm. Erguem nossas cabeças, iluminam o que é escuro, capturam a gente de uma realidade burocrática, repetitiva, sem festa. Fogos de artifício são sinalizadores, há alguém feliz bem próximo, e está repartindo esse estado de espírito com você, que não viveu nada de extraordinário hoje, que estava louco pra chegar em casa, tirar a roupa suada, tomar um banho e ver um pouco de televisão.

De forma melhor que ela fez, não dá pra escrever. O máximo que posso fazer é deixar vocês com 20 segundos do meu estado de espírito, antes que voltem pras suas televisões.

segunda-feira, julho 31, 2006

Finalmente, de férias

Nessa sexta-feira terminou nosso curso de japonês. Foram 3 meses de muitos conversation challenges, review quizes e shukudais (宿題, lição de casa), mas também de momentos alegres e divertidos, novas amizades e muito aprendizado.

Nossas aulas aconteciam todos os dias de manhã, das 9:10 às 12:40, dividas em dois períodos. O primeiro terminava às 10:50 e nele sempre tinhamos aula de gramática, onde víamos padrões de expressões em japonês - do tipo “se... então”, “... por causa de ...”, “acho que...”, “preciso fazer...”, “gosto de...” etc. O difícil dessa aula era o fato de alguns desses padrões não terem uma tradução direta para as nossas línguas ocidentais, ou então pela forma estranha em que se expressam em japonês (por exemplo, para se dizer que se precisa fazer alguma coisa, literalmente se diz que ‘se a coisa não acontecer, não “vai”’).

A segunda aula sempre tinha atividades variadas, como os conversation challenges (onde encenávamos situações “reais” e as gravávamos em vídeo, que depois resultavam em várias risadas durante a exibição), ou as aulas de kanji (漢字, ideogramas), de audição e de leitura. A qualidade dessas aulas variava muito. Algumas eram realmente boas, interessantes e divertidas, mas outras bastante chatas e cansativas.

Duas vezes por semana tinhamos também aula à tarde, das 13:30 às 15:10. Nas tardes de terça-feira tinhamos mais práticas de diálogos (sem gravação, dessa vez) e nas da sexta-feira sempre um testezinho sobre os conteúdos visto na semana.

E não sei se é algo específico das aulas de japonês ou se acontece com todas as aulas por aqui, mas o pessoal nunca sai durante a aula para ir ao banheiro, beber alguma coisa ou dar uma volta. Para isso, os professores fazem um intervalo curto de uns 5 minutos na metade de cada período, a cada cerca de uma hora. Isso é muito bom! Ajuda a tornar a aula menos cansativa, que acaba rendendo mais por não ter interrupções, e quando se começa a ficar cansado, sabe-se que em alguns minutos já vai ser possível esticar as pernas, dar uma volta, ou apenas colocar o papo em dia com os colegas.

Na foto, de pé: eu (Brasil), Purev (Mongólia), Simon (Inglaterra), Chris (Suiça), Sérgio (Moçambique), Akkhara (Tailândia) e Hugo (Brasil). Sentados: Haus e Som (Tailândia) e Ohmmar (Mianmá).

Falando em colegas, engraçado é que no início esses eram apenas pessoas de países exóticos, de lugares de onde pouco se sabia, mas aos poucos foram se tornando cada vez um pessoal mais familiar e amigo, quando começamos a conhecer as personalidades, gostos e opiniões de cada um. Não só pela nacionalidade, mas também pela personalidade individual de cada um de nós, nossa turma era bastante diversa, o que a tornava mais interessante.

Mas assim não foi só com os alunos. Logo vimos que os professores, também, vinham nos mais diferentes tipos. No total tivemos cerca de 12 professores diferentes durante o curso. Havia a professora que se empenhava ao máximo para que nós aprendessemos, a outra que era divertida, uma que, de início, pensamos ser “malévola” mas na verdade apenas não tinha muita didática. Também, um professor engraçado (e fanático de futebol, deu pena a cara de derrotado dele quando o Japão foi eliminado da copa), o professor com “tiques”, a professora desajeitada, e ainda o professor que sabia muito, mas era meio desorganizado. Mesmo assim, todos grandes pessoas, boa companhia que vai fazer falta no dia-a-dia.

Na última semana, portanto, demos um jeito de reunir todo o pessoal. Saímos para jantar na quarta-feira. Conseguimos fazer todos os alunos irem, mas devido ao fim do semestre, apenas 4 das professoras se juntaram a nós. Pelo menos duas das professoras mais legais, a Maehara Sensei (前原先生) e a Fujishiro Sensei (藤城先生) vieram com a gente.

Maehara Sensei era a responsável pela nossa turma. No início tínhamos aula com ela durante dois períodos por semana, mas depois da primeira prova, quando houve uma mudança de professores, ela ficou apenas com a aula do teste e da revisão semanal. Ela era a que mais se preocupava com nosso aprendizado, acompanhando o progresso de todos, tentando identificar dificuldades, e coordenando as atividades dos demais professores.

Já a Fujishiro Sensei era a professora das aulas de diálogo, a professora mais divertida e bem humorada. Ela me causou um ataque de riso durante uma aula quando, ao dar exemplos de estruturas de frases, usou a expressão honya honya no lugar de blah blah blah. Mas o jeito que ela falava era tão engraçado, não deu pra segurar. Ela ficava repetindo, e como sempre estava bem humorada, não se importou, entendeu que a risada era do honya honya. Mais tarde, no fim do semestre, ela nos contou que seu apelido de infância era justamente funya funya, uma contração de Fujishiro com o honya honya, pois ela falava muito e os outros só entendiam o honya honya. Tudo fez sentido!

Todas as turmas devem dizer a mesma coisa: que eles são a turma mais divertida. O fato é que o convívio diário com gente tão diferente, mas com o mesmo objetivo, em um ambiente informal e descontraído, só pode ser positivo. Mesmo assim, consideramos que a nossa turma em especial foi uma que se integrou bastante bem.

terça-feira, julho 25, 2006

Pequenos detalhes

São nos pequenos detalhes que a gente se dá conta de que está no Japão. Por exemplo, se eu encontro um cabelo na minha comida, é sempre muito fácil dizer se ele é meu ou da cozinheira1. :)

1 - felizmente, até agora ele sempre foi meu...

segunda-feira, julho 24, 2006

Baixinho japonês

Já que o pessoal gostou do último vídeo, vai mais um, talvez não tão impressionante como o anterior mas também divertido. Esse é do outro domingo, dia em que fomos ao Museu Nacional de Ciências Emergentes e Inovação, em Odaiba (お台場), onde vimos uma apresentação do ASIMO.

ASIMO é um robô humanóide da Honda. Ele mede cerca de 1,3m e pesa uns 55kg, foi criado nos anos 80 e, apesar da idade, ainda é capaz de fazer coisas impressionantes, como caminhar, subir e descer (algumas) escadas, fazer movimentos com os braços e mãos e, de forma simples, “dançar”. Mas sua habilidade não se compara a de modelos mais recentes, como o QRIO da Sony.

quarta-feira, julho 12, 2006

Nós, as sardinhas

Quando eu comento com as pessoas que o mais difícil da vida em Tokyo é se habituar com os trens, elas tem certa dificuldade de entender o que eu realmente quero dizer. O problema não é achar a linha ou a estação certa: isso até que é fácil pois tudo é muito bem sinalizado, às vezes até em inglês. O problema mesmo é suportar o aperto extremo de algumas linhas nos horários de pico.

Como a minha aula de japonês é de manhã (às 9:10), sou obrigado a pegar uma dessas linhas. A linha da empresa Odakyu (小田急), em especial, é bastante cheia, pois termina em Shinjuku (新宿), que não por coincidência é a estação de trem mais movimentada do mundo, com uma média de 3,22 milhões de pessoas passando por ela diariamente. Felizmente não vou para Shinjuku, e troco de trem duas estações após embarcar (o que dá apenas uns 10 minutos de viagem nessa linha), mas já é o suficiente pra desanimar.

Os trens são tão lotados que os funcionários da estação (os ekiin, 駅員) todos os dias precisam fazer o famoso gyugyu osu (ぎゅうぎゅう押す) pra ajudar no embarque dos passageiros. Osu significa empurrão, e gyugyu, segundo meu conceituado dicionário de japonês, é: 1. squeeze (things) into (a small space); 2. pack (people) like sardines.

Mas se uma imagem vale mais do que mil palavras, um vídeo vale mais do que várias imagens, e por isso disponibilizo o vídeo abaixo pra que vocês também possam ver como nós, sardinhas, passeamos por Tokyo todos os dias1. É tragicômico, e o melhor é levar na esportiva e bom humor, encarando como a forma japonesa de “integrar” os mais diversos tipos de pessoas, independente de raça, credo, sexo ou idade, apenas pela sua veneração (e dependência) do sagrado densha (電車). :)

1 - Na verdade eu quase sempre tento não pegar o trem que vai pra Shinjuku, mas sim uns menos freqüentes que seguem por outra rota. Ainda assim, pego um trem cheio, mas não absurdamente como estes aí.

sexta-feira, julho 07, 2006

Direita ou Esquerda?

Os Estados Unidos têm a California e Nova Iorque, no Brasil, a rivalidade tradicional é entre São Paulo e Rio de Janeiro. O Japão não podia ser diferente e também mantém a disputa entre duas de suas principais regiões metropolitanas, Kanto (関東) e Kansai (関西).

Kanto é a região de Tokyo. É fácil lembrar do nome, pois se a gente visualiza o mapa do Japão como um “L” invertido, a região de Kanto fica bem no “canto”. :) Kansai é a região que circunda a cidade de Osaka, segunda maior e mais importante Japão, considerada por muitos uma “mini Tokyo”.

Num país pequeno que tem área total semelhante a dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina juntos (mas com uma população igual a quase 70% da do Brasil inteiro), é engraçado pensar que possa ter diferenças entre pessoas que tem origem tão parecida e vivem tão próximas, mas cada um desses “povos” tem uma identidade cultural própria.

Kanto é o coração econômico do Japão. A vida lembra a de qualquer mega metrópole do mundo, se bem que parece menos competitiva por aqui. O que sinto é que as pessoas parecem mais resignadas, talvez conformadas com o dia-a-dia nesse mar de gente. São menos interessadas e mais mecânicas: um formigueiro é uma comparação mais apropriada do que parece.

Kansai, apesar de centrada em Osaka que é uma cidade moderna, é a região mais “tradicional” do Japão, já que lá fica, além de Kyoto, Nara, outra antiga capital. A região tem seu dialéto próprio do japonês, com expressões únicas e um falado mais suave, que alguns dizem lembrar o francês. Isso já é forçar demais, mas mesmo pra quem não entende uma palavra de japonês dá pra sentir um soar diferente. Pode ser impressão minha, também, mas sinto serem as pessoas lá mais curiosas, interessadas, e conseqüentemente parecem menos distantes e frias.

Tem uma pequena diferença entre Kanto e Kansai que é bem mais simples mas não menos curiosa. Em tudo que é lugar no Japão tem muita gente, e por isso eles criam regrinhas pra que as coisas funcionem de forma mais eficiente. Uma dessas regras é a determinação de em qual lado de uma escada rolante se fica parado, e qual se deixa livre para as pessoas com pressa ultrapassarem. E essa regra se inverte quando se viaja de uma região pra outra.

Aqui em Tokyo se pára na esquerda, e se ultrapassa pela direita. Parece estranho mas faz sentido, considerando-se que o trânsito de automóveis no Japão obedece a mão inglesa que estabelece a mesma coisa. Em Osaka, por outro lado (literalmente), se pára à direita e se ultrapassa pela esquerda. Isso é suficiente pra irritar muita gente quando uma pessoa que vêm da outra região resolve andar de escadas rolantes e parar do lado “errado” da escada.

Ouvi uma explicação pra essa história toda, que não sei se é a verdadeira mas faz sentido. Segundo ela, tudo isso começou quando Osaka sediou a exposição mundial de 1970 (EXPO'70). No parque de Osaka foram instaladas centenas de escadas e esteiras rolantes para ajudar no enorme fluxo de pessoas e, como era a primeira vez que se fazia uso extenso disso com muita gente, anúncios informavam às pessoas para que dessem a passagem pela esquerda, como se fazia no ocidente, de onde vinha a idéia.

As pessoas gostaram da idéia, e esse hábito foi levado pro resto do Japão e para Kanto, onde também havia muita gente circulando pelas escadas rolantes. Mas, seguindo o dito de que o forte de japonês não é criar mas sim aprimorar, resolveram em Tokyo utilizar a técnica de acordo com a mão inglesa, já usada no trânsito de veículos, e assim nasceu a insconsistência.

Não sei se é assim mesmo que aconteceu, mas só o fato de ter a diferença já é curioso. Eu, como na política, não sou nem “de esquerda” nem “de direita” por aqui. Como seria grosseria ficar parado no “centro” da escada, o que eu costumo fazer é sempre parar atrás da pessoa que já está parada. E se não tiver ninguém na escada? Isso é o Japão: é raro nunca ter ninguém na tua frente na escada (tem muita gente aqui em qualquer lugar!), mas quando isso acontece, bom, aí sim, segue-se essa “regra da escada”.

segunda-feira, julho 03, 2006

Regresso a Kyoto - parte 3

Já faz duas semanas que eu voltei de Kyoto, e ainda não terminei de escrever sobre minha visita. Vou fazer, então, um resumo rápido de como foi o último dia.

No domingo reencontrei amigos. Almocei com a Mariko (真理子), que trabalhava do meu lado, e a irmã dela, Asuka (明日香) que a Mariko me apresentou quando fiz a apresentação sobre o Brasil, e encontrei mais algumas vezes depois disso. Fomos num restaurante italiano bom e barato perto da estação de Kyoto. Conversamos bastante, rimos muito. As duas são bem queridas e divertidas, e continuam as mesmas da outra vez.

Pela tarde reencontrei a Hanako (花子), que foi minha manager (jargão da AIESEC para a pessoa responsável por um trainee) e se tornou uma das minhas melhores amigas aqui no Japão. Ela está morando em Osaka, onde começou a trabalhar em abril numa empresa importante de farmacêuticos. Por isso, não tem mais muito contato com a AIESEC Doshisha e não foi na janta no dia anterior. Mas no domingo, quando estava mais livre, fez questão de ir até Kyoto para me reencontrar.

Como estávamos cansados, fomos no Campus Plaza, um prédio do consórcio das universidades de Kyoto com várias salas de reuniões e de estudos, acesso a internet, etc. Fomos conversar no mesmo lugar onde, 3 anos antes, fizemos a reunião final antes do festival onde vendemos pastéis. Conversamos sobre a vida dela em Osaka e a minha em Tokyo, sobre planos, esse tipo de coisa. Uma conversa franca que prova que ela realmente é minha amiga (japoneses não se abrem muito quando estão só sendo simpáticos).

Terminando nossa conversa, peguei o metrô e fui para o Museu de Kyoto, pois a Sra. Magata havia me pedido um “favor”. Ela se registrou como voluntária do Museu para fazer visitas guiadas, em inglês, para turistas, mas até então nunca havia feito isso. Por esse motivo, se sentia insegura e gostaria de me “usar de cobaia”, fazendo uma primeira visita comigo para ver como se saía.

Eu já conhecia o museu, havia estado lá da outra vez e feito uma visita guiada justamente com uma dessas voluntárias, que me explicou muito do museu, focado principalmente na história de Kyoto e portanto também numa parte importante da história do Japão. O museu é interessante e recomendável. Ao chegar no museu, um dilema: a Sra. Magata me perguntou se eu já havia estado lá, e fiquei na dúvida se dizia que sim ou não. Acredito que, além do motivo de testar sua explicação sobre o museu, ela havia me convidado como uma atividade de entretenimento, da mesma forma que na primeira estada em Kyoto me levou para assistir apresentações de dança e teatro típico japonês. Se eu dissesse que já havia estado lá, esse sentido deixava de existir. Por outro lado, se eu dissesse que era a primeira vez que visitava o museu, colocava mais responsabilidade sobre a apresentação que ela faria. Na dúvida, optei pela gentileza, e disse que nunca tinha estado ali antes.

A visita não foi ruim, mas a explicação da outra voluntária na primeira vez foi muito mais clara e completa. Claro, experiência é fundamental. Mesmo assim, foi divertido andar pelo museu mais uma vez, pois algumas coisas lembrava e outras havia esquecido, e essa segunda visita ajudou a relembrar um pouco dessa parte esquecida. Tentei dar um apoio a ela, dizendo que a visita foi interessante e com a prática ficaria muito boa. Ela não pareceu muito convencida, mas acho que mesmo assim seguirá tentando. Me dispus a visitar o museu com ela mais uma vez em uma próxima visita a Kyoto.

Saindo do museu, voltamos até a estação de Kyoto, onde ela voltou para casa e eu fiquei esperando meu ônibus, que dali sairia em algumas horas de volta a Tokyo. Antes, claro, recebi uns presentes da Sra. Magata: uma capa de tecido para colocar em livros e um copo pintado a mão. Ambos os produtos são de uma loja1 da cooperativa onde ela trabalha, que auxilia deficientes físicos a encontrar ocupações profissionais. A capa e o copo são feitos por alguns desses deficientes. O envolvimento da Sra. Magata com essa cooperativa aconteceu ano passado, quando ela sofreu um acidente de carro e ficou alguns meses sem poder caminhar (agora ela já está 100% recuperada). Com isso, ela teve que fechar a padaria que tinha, foi trabalhar numa padaria dessa cooperativa, e conhecendo-a, começou a se envolver mais. Algumas das senhoras que participaram da janta no dia da minha chegada também eram dessa cooperativa.

Agradeci os presentes, agradeci a estada, mandei saudações para o resto da família. Ela me disse que quando voltasse a Kyoto, que mais uma vez ficasse na casa deles. Comentei que se visitassem Tokyo, entrassem em contato que podiamos sair para passear. Mas, mais uma vez, naquela sinceridade que os japonêses só mostram quando realmente te consideram como um amigo próximo, ela disse que não gosta de Tokyo. Eu também, se vivesse em Kyoto, não gostaria. Mesmo assim, era pra lá que devia voltar.

Peguei o ônibus domingo à noite, chegando em Tokyo segunda-feira cedo pela manhã. Como minha casa é longe da Universidade, fui direto para a aula de japonês, mas o prédio ainda estava fechado. Fiquei uma meia hora sentado na escadinha na frente do prédio, descansando um pouco da noite mal dormida no ônibus, até que um dos seguranças da Universidade chegou para mim e disse, em um bom inglês, que me surpreendeu:

- This building usually opens at 8:00, but today, specially for you, I will open it at 7:30.

Wow, o prédio abriu só pra mim. :) Entrei, fui para o lounge dos estudantes internacionais, e dei uma cochilada até o horário da aula, perto das 9:00.

O fim de semana tinha sido perfeito e a pergunta tinha sido respondida: sim, o Japão continuava o mesmo. As pessoas continuavam amigáveis, os lugares familiares ainda estavam lá. E decidi que, se me sentisse desanimado com minha vida em Tokyo de vez em quando, voltaria sempre a Kyoto, para recarregar as baterias e renovar o espírito.

1 - A loja fica no 9º andar da loja JR Isetan na Estação de Kyoto, se alguém tiver interesse quando estiver por lá.

quinta-feira, junho 29, 2006

Regresso a Kyoto - parte 2

Apesar de ter almoçado com o Yone sexta-feira na Horiba, a minha visita a ele ainda não estava completa, pois eu tinha que visitar sua casa e família. E por que eu deveria visitar sua família? Bom, porque eu faço parte (pelo menos de uma pequena parte) da história dela...

Yone era um dos meus colegas de trabalho quando fiz o estágio em 2003 em Kyoto. Seguidamente nós, os trainees estrangeiros, e alguns outros colegas saíamos para jantar após o trabalho. Na região onde fica a Horiba não havia muitas opções, então costumávamos ir em um pequeno restaurante, cerca de meia da empresa caminhando. Era um restaurante simples e familiar (se bem que, havia boatos, alguns Yakuza costumavam ir lá de vez em quando depois de sair do Pachinko). A dona era uma senhora, e a filha dela, Maki, atendia no restaurante.

Maki, apesar de falar pouco inglês, era sempre muito atenciosa com a gente. Não fosse pelos nossos colegas que nos levavam até lá, dificilmente outros estrangeiros iriam ao seu restaurante, então ela sempre aproveitava a oportunidade para conversar conosco, além de nos explicar os pratos e dar sugestões. Como ela era praticamente da nossa idade, começamos a convidá-la quando nos reuníamos para fazer alguma coisa, ir em algum lugar, ou até cantar no Karaoke.

Sentimos que Yone gostava da Maki, mas não demonstrava muito. Sentimos que Maki talvez gostasse do Yone, mas com a falta de demonstração do Yone também não demonstrava muito. Demos o empurrãozinho necessário, comentando com o Yone que talvez ele devesse convidar a Maki pra sair.

Bom, meu estágio terminou e o resto da história acompanhei pelos mails enviado de tempos em tempos pelo Yone e pela Maki. Nos 3 anos seguintes, eles namoraram, casaram, compraram uma casa e, alguns dias antes de eu chegar ao Japão, tiveram uma linha filhinha, chamada Mao.

Voltei de Osaka para Kyoto no sábado depois do almoço para visitar a nova casa de Yone, reencontrar a Maki e conhecer a pequenina Mao-chan. A casa é grande, nova, bem decorada. E a pequena Mao é calminha e bem comportada. Tem 3 meses e portanto ainda não repara na minha cara de estrangeiro, mas possivelmente ouviu inglês pela primeira vez na minha visita à sua casa. Conversamos muito, eu, Yone e a Maki, enquanto a Mao só dormia. Falamos dos acontecimentos posteriores a minha volta ao Brasil, sobre o que aconteceu com outros estagiários e funcionários da Horiba. A conversa era predominantemente em inglês mas às vezes mudávamos para o japonês. Fiquei umas 3 horas na casa deles, conversamos muito e o tempo voou, mas tive que ir embora pois a tardinha ainda tinha outro compromisso: reencontrar o pessoal da AIESEC.

Já escrevi antes, mas, pra quem não sabe, a AIESEC é a organização de estudantes que promoveu meu estágio em 2003. Muitos dos estudantes do escritório da AIESEC na Universidade Doshisha, responsáveis pelo meu estágio, se tornaram grandes amigos, então não podia deixar de reencontrar alguns deles. Quando avisei que estava indo para Kyoto, logo organizaram de reunir os (ainda) membros e sair para jantar comigo.

Parte dos membros que conheci se formou, e por isso não fazem parte mais da AIESEC. Alguns se mudaram de cidade por causa de seus novos empregos. Mas outros, que na época haviam recém entrado no escritório, hoje já são “veteranos”, e foram jantar com a gente. Além deles, havia os que entraram depois, incluindo os que recém entraram em abril desse ano. Foi legal conversar com esses membros novos, que ainda não tiveram contato com os trainees estrangeiros (a AIESEC Doshisha só os recebe no verão, isto é, na metade do ano). Esse convívio, de forma geral, é o espírito da AIESEC. Conversamos, perguntei sobre o que estudavam, porque entraram na AIESEC e o que esperavam dela. Foi bem divertido. Me contaram, também, que este ano vão receber um outro trainee brasileiro e, mundinho pequeno, também gaúcho, de Santa Maria. Conversei também com o pessoal que conheci da outra vez. Relembramos situações, pessoas, enfim, aquele bom tempo que passei em Kyoto em 2003.

Fomos comer Yakiniku (焼き肉), um tipo de refeição japonesa (na verdade a origem é coreana) que lembra um fondue de carne. São fatias finas de carne que são colocadas sobre uma grelha, e essa fica em cima de um recipiente com carvão em brasa, no centro da mesa. Além da carne, às vezes são servidos também salsichas, espigas de milho, cogumelos e alguns outros vegetais, mas o bom mesmo é a carne. O pessoal vai colocando a comida na grelha com os hashis, e tirando a medida que fica pronto, mergulhando numa tigelinha com um molho parecido com shoyu. É muito bom.

Saímos tarde de lá, passamos ainda em um puricura (プリクラ), um lugar que além de jogos tem aquelas maquininhas de tirar fotos de grupos, e depois enfeitá-las e imprimí-las em adesivos, e depois de tirar algumas fotos pra registrar o momento, peguei o último trem de volta a casa dos Magata. Mais uma vez, uma grande noite de sono.

No domingo, último dia, ainda reencontrei mais algumas pessoas, mas isso fica para o terceiro e “derradeiro” post...

domingo, junho 25, 2006

Regresso a Kyoto - parte 1

Feito o exame parcial de japonês, quinta-feira da outra semana, o plano era pegar o ônibus noturno rumo a Kyoto (京都), para aproveitar a sexta-feira sem aula.

A história da compra da passagem, que antes havia comentado, nem é tão interessante. Perguntei uns termos chave (“ônibus noturno”, “ida e volta”, etc) pra minha professora de japonês e lá fui eu para a estação de Tokyo (東京駅), pro conversation challenge1 de verdade. Pra ajudar, fui com tudo anotado: se a atendente não entendesse algo do meu japonês eu mostrava escrito pra ela o que queria.

Chegando lá, começou tudo conforme o script. Expliquei para onde queria ir, que tipo de passagem, e data. Só que depois disso, entretanto, ela fugiu do script que eu esperava: em vez de me dizer o preço, começou a falar um monte de coisas em japonês, ficou quase um minuto falando. Entendi uma só palavra do que ela disse: “doriimu” (ドリーム), que eu sabia que era “dream”, um dos tipos de ônibus. Não tive dúvida, ela estava querendo saber que tipo de ônibus eu queria. Disse pra ela “yasui no kudasai” (安いの下さい, um barato por favor) e ela entendeu. Ficou uns 2 minutos digitando no terminal até que me disse “hai, arimasu” (はい、あります, sim, tem). Tudo certo. Comprei a passagem, que por isso acabou saindo mais barato do que eu planejava, graças a essa “fuga do script”.

Saí da prova, que foi mais fácil do que esperava, voltei pra casa, arrumei tudo pra ter tudo limpinho quando voltasse, e me toquei pra estação. Peguei o ônibus as 21:50. A viagem não foi confortável. Esse ônibus mais barato era semi-leito. Tinha 4 assentos por fila, e ninguém viajando ao meu lado (o ônibus estava bem vazio), mas a divisória de apoio do braço entre os assentos era preso e não levantava. Pior, ela ía até embaixo e não dava nem pra passar as pernas por baixo dela. Cheguei em Kyoto ainda antes das 6:00. No ônibus, olhando pela janelinha, já comecei a reconhecer lugares. Uma esquina, uma loja, lugares por onde eu tinha a lembrança de já ter passado.

A minha viagem a Kyoto tinha dois objetivos principais. Não era uma viagem de turismo, claro, pois eu já havia morado ali e conhecia bastante bem aquele lugar. O primeiro objetivo era rever muitos amigos, colegas, e a família onde tinha morado da outra vez. Mas havia também a tentativa de responder uma dúvida que eu tinha desde que cheguei à Tokyo: O Japão havia mudado, ou era apenas a vida em Tokyo que era tão diferente?

Chegamos na estação de Kyoto e ela estava exatamente da mesma forma. Como era cedo, não havia ninguém na rua, e como o tempo estava bom, aproveitei pra tirar umas fotos (algumas dessas fotos estão na minha página do Flickr). A única coisa pra se fazer cedo pela manhã, num dia agradável, é caminhar pelas ruas. Fui aos templos mais centrais de Kyoto. Na verdade havia uma mudança: um dos templos mais importantes, o Higashi Hongan-ji (東本願寺) está em restauração e o prédio está completamente coberto por uma estrutura metálica, que só será removida em 2011. Da outra vez que eu pra lá fui o templo estava aberto, mas o seu “par” Nishi Hongan-ji (西本願寺) estava também em restauração e coberto. Talvez tivessem começado a reforma do templo do leste (Higashi) por terem terminado a reforma do templo do oeste (Nishi), então fui para o outro verificar se agora ele estava exposto. Não, ainda está fechado, o que é bastante frustrante para um visitante que chega em Kyoto pela primeira vez nessa época.

Fiz uma longa caminhada, fui a um templo mais para longe do centro, para Gion (祇園), o bairro mais tradicional, e para as ruas de comércio (que ainda estavam fechadas). Tudo estava da mesma forma, conhecia as ruas por onde andava e me sentia “em casa”. Próximo ao meio dia, porém, terminei minha caminhada para ir a Horiba, a empresa onde havia feito o estágio em 2003, onde havia combinado de almoçar com antigos colegas. Peguei o trem, lembrava a plataforma, a estação de destino, até o valor do bilhete. Nada havia mudado. Desci próximo à Horiba, fiz a pequena caminhada que fazia todos os dias entre a estação e a empresa, e parecia que havia andado naquele caminho no dia anterior. Chegando lá poderia ter entrado e subido normalmente, mas achei melhor ligar para meus colegas e avisar que havia chegado. Eles desceram e juntos fomos almoçar no restaurante da empresa, onde comi o mesmo que costumava comer sempre: udon (饂飩), um tipo de macarrão japonês.

No restaurante, as mesas, as pessoas com os uniformes, os rostos, tudo estava igual. O Japão, em algumas coisas, não é um país de mudanças. Algumas pessoas me olharam com cara de reconhecimento, e para as com quem eu havia conversado da outra vez, disse algo do tipo: “sim, sou eu mesmo” e contei o que estava fazendo ali. Foi o início de um grande fim de semana no qual confirmei que não, o Japão não havia mudado, mais que isso, as coisas continuavam ainda mais intocadas do que eu esperava.

À tarde encontrei o Cristiano, um brasileiro que veio para o Japão comigo no mesmo programa, mas que estuda em Kyoto. Fomos ao rio Kamogawa, lugar onde costumava gostar de ir, e conversamos bastante sobre nossos primeiros meses no Japão. Para ele, primeira vez por aqui, uma fase de ainda mais surpresas e descobertas. Mesmo assim, encontramos vários sentimentos comuns, como o fato de nos sentirmos “crianças” que se sentem realizadas por conseguirem desempenhar as tarefas mais simples do dia a dia. Havia trazido do Brasil um guia de transportes de Kyoto, que ganhei da outra vez que vim, e deixei o guia com ele.

Antes de ir para Kyoto, escrevi para meus conhecidos para informar que estava indo, e tentar marcar alguma oportunidade de reencontro. Como a família onde havia ficado não tinha email, enviei um postal de Tokyo, com minhas informações de contato. Dois dias depois de enviar o postal recebi um recado da família “pedindo” (uma forma japonesa de oferecer) para que eu ficasse na casa deles. Obviamente aceitei, e então na sexta à noite, como combinado peguei o mesmo trem que todo dia pegava para a viagem de cerca de uma hora até a casa deles. Mais uma vez, tudo continuava exatamente da mesma forma, não demonstrando que o tempo havia passado.

Lá chegando, havia uma janta especial para mim. Bastante comida, e coisas que eu gostava. Senti que a Sra. Magata lembrava dos meus gostos: havia fatias de carne, frango, batata. E convidados também, colegas da Sra. Magata, e a Sra. Nakagawa, mãe da segunda família onde havia ficado. Me senti muito bem de estar de volta, e não havia estranheza por não nos vermos a tanto tempo. O que também ajudou foi eu ter escrito de vez em quando para eles durante esses anos, o que fez com que eles também me escrevessem de volta com as novidades.

Atsushi, o filho mais novo, está já grande (passando de 11 para 15 anos) e falando agora bastante mais inglês (provavelmente pelo ótimo hábito da Sra. Magata de receber estrangeiros em sua casa todo ano). O interesse principal dele passou do futebol para o boxe, o que causa alguma preocupação na sua mãe, que o acha muito magro e frágil para o boxe (mãe é mãe, só muda o endereço). Trouxe uma camiseta para ele de futebol, e felizmente antecipei o “espicho” que ele teve. Entreguei também os presentes pro resto da família, que havia trazido do Brasil. Foi bom ter lembrado deles e ter presentes apropriados para a recepção calorosa que tive na sua casa. Após conversarmos sobre as atualidades (e ter chance de arriscar meus primeiros diálogos em japonês), fui dormir, não no mesmo quarto em que dormia da outra vez (a casa sofreu uma reforma, ganhou até um novo banheiro no segundo andar), mas em outro, que mantinha os mesmos móveis do anterior. Estava feliz, e tive a melhor noite no Japão desde que cheguei.

Dia seguinte, muitos planos. Pela manhã, viagem a Osaka (大阪) para visitar o Koji e a Bianca, dois bolsistas que vieram pelo consulado de Porto Alegre e que eu já conhecia do Brasil. Como havia estado em Osaka duas outras vezes, mas em nenhuma das duas eu tinha visitado o castelo de Osaka, resolvemos fazer esse passeio. A Bianca eu já havia encontrado em Tokyo no feriado da Golden Week (ela veio visitar a irmã que mora aqui), mas o Koji eu não via desde o Brasil. Foi legal conversar com ele: trocarmos experiências e ouvir suas histórias. Esses dois são sempre ótima companhia. Almoçamos perto do castelo, mas à tarde tinha compromissos em Kyoto então precisava voltar.

O fim de semana havia começado bem, e ficaria ainda melhor. Mas como já escrevi bastante, deixo o resto da história para o próximo post...

1 - conversation challenge é uma das atividades da nossa aula de japonês, em que temos que encenar alguma pequena situação. É sempre algo simples que fazemos em sala de aula, como pedir informações, explicar alguma coisa ou tentar comprar algo, e nessa atividade temos que conversar com os professores ou com algum outro japonês pelo telefone.