quarta-feira, novembro 26, 2008

Udon, comida para a alma

O meu prato preferido da culinária japonesa é o udon (うどん), um macarrão grosso servido num caldo coberto com algum acompanhamento. Na primeira vez que vim para o Japão, quando tive o choque inicial com a alimentação, já que todo dia tinha que comer no refeitório da empresa onde fiz o estágio, foi o udon que agradou meu gosto e recuperou a minha tranqüilidade. Nessa época, comia udon quase todo dia.

O meu preferido é o ebiten udon (海老天うどん), onde o que vem em cima é um tempura de camarão. Outro que gosto é o niku udon (肉うどん), o mesmo udon coberto com fatias finas de carne cozida, às vezes de gado, às vezes de porco. “Preparar” um udon no Japão é fácil, já que o supermercado vende todos os ingredientes pré-prontos. Além do macarrão, que é só colocar na água fervente por 3 minutos, eles vendem os tempuras já fritos, o caldo etc. Na verdade a única coisa que se tem que fazer é colocar tudo no prato. Aqui está o meu ebiten udon:

A única diferença do meu pro udon verdadeiro é que em vez de cebolinha, eu coloco nori, a mesma alga usada no sushi. Pra quem quiser ver udons de verdade, pode olhar as fotos dessa página. Além de gostoso, o udon é muito barato, tendo cadeias de restaurantes que vendem o udon básico (sem os acompanhamentos) a partir de 100 ienes (cerca de 2 reais!).

No Japão, o lugar famoso para se comer udon é a província de Kagawa (香川県), na ilha de Shikoku (四国). Estivemos lá esse ano e obviamente provamos os udons locais. Honestamente, são bons, mas não tão diferentes dos que encontramos aqui em Tokyo. De repente não temos o gosto tão requintado para notar a diferença. O melhor udon que eu já comi foi no inverno passado, em uma estação da mesma linha que passa aqui perto de casa. De repente volto lá esse ano.

Em 2006 saiu um filme chamado UDON e rodado em Kagawa, onde o prato, considerado “comida para a alma”, é o pano de fundo pra história da relação de um pai, fazedor de udon e seu filho, que não tem planos de continuar o negócio do pai. O filme é bom e tem lances engraçados, mas o mais legal são as diversas cenas do preparo e consumo de muitos tipos de udons.

Mas o ebi udon que um dia eu quero fazer é esse. :)

quinta-feira, outubro 16, 2008

A escrita japonesa

Uma das coisas que mais apavora os ocidentais que vem pra Ásia é a questão da escrita: “Mas e se eu não conseguir entender as placas?!”, “Por que eles não usam letras como todo mundo “civilizado”?!”. Hoje vou escrever um pouco sobre como é a escrita em japonês, como ela se relaciona com o chinês, e ainda alguns comentários, coisas que não são explicitamente ensinadas nas aulas de japonês (pelo menos não nos níveis básicos) mas observei durante meus mais de dois anos aqui. Notem que eu não sei japonês o suficiente pra garantir que o que escrevo aqui está certo, e peço aos amigos que sabem mais que me corrijam nos comentários. Ah, e importante! Para ler esse post é necessário ter instaladas as fontes asiáticas. No Windows elas são uma opção de instalação, no Mac elas vem instaladas por padrão.

A primeira coisa que deve ser levada em consideração é que o japonês é escrito em 3 alfabetos distintos (4 considerando o uso de caracteres ocidentais, que vou ignorar aqui):

  • Kanji (漢字) são os ideogramas de origem chinesa, que podem ter várias formas diferentes de leituras e representam (de forma geral, mas nem sempre) idéias. Os ideogramas japoneses não são exatamente os mesmos usados na China, mas quase todos tem origem chinesa. Alguns ideogramas japoneses são iguais aos ideogramas tradicionais chineses, outros são iguais aos ideogramas simplificados, e alguns (a minoria) são tipicamente japoneses.
  • Hiragana (ひらがな), é um alfabeto fonético (cada símbolo tem apenas uma leitura, que não expressa significado) e é utilizado principalmente para partículas, terminações e flexões verbais. Visualmente é fácil indentificá-los pela sua forma simples (se comparado aos kanji) e linhas curvas.
  • Katakana (カタカナ) é outro alfabeto fonético, usado para palavras estrangeiras e onomatopéias (como o som de animais, etc). Também é composto de caracteres simples, mas tem traços mais grosseiros. Katakana também é usado como recurso tipográfico para dar ênfase, como o uso de negrito em textos ocidentais.

Um exemplo de parágrafo em japonês pode ser visto abaixo. Para quem sabe japonês, é óbvio identificar cada alfabeto, mas aqui uso cores diferentes pra auxiliar na identificação de cada um (kanji em preto, hiragana em azul e katakana em verde):

ホンダ16日、ミニバンオデッセイ全面改良、17日発売すると発表したエンジン改良によって馬力めながら燃費性能向上したオデッセイはこれが4代目。30―40代中心国内月4000台販売目指

O texto é sobre o lançamento de uma nova minivan (ミニバン) chamada Odyssey (オデッセイ). Não consigo ler tudo, pois tem vários kanjis que não sei a leitura. Mas uma coisa legal dos ideogramas é que mesmo sem saber a leitura dá pra saber o significado. Por exemplo, a palavra 馬力 é formada pelos ideogramas de “cavalo” (馬) e “força” (力), logo, “cavalos de força”.

Quem for mais atento vai notar que não tem espaço entre as palavras. A quebra não é explícita, ela acontece quando se muda de alfabeto (por exemplo, com uma partícula), mas nem sempre (quando é apenas uma flexão verbal), ou quando os ideogramas combinados representam mais de uma palavra distinta. Pros japoneses isso não é uma questão tão importante, pois eles não estão acostumados com a idéia de palavras separadas. Mas para computadores tentando indexar textos por palavras, isso é uma questão a ser considerada.

Muita gente se assusta com a quantidade de kanjis: crianças em idade escolar devem saber 1006 ideogramas básicos antes da sexta série, e cerca de 2000 são necessários pra se ler um jornal. Mas o número total para uma pessoa culta pode chegar a 10 mil. O que as pessoas em geral não sabem é que esses milhares de ideogramas não são independentes, sendo a maioria combinações de outros kanjis e radicais. Por exemplo:

O ideograma com o sentido de “mulher” é 女. E o ideograma com sentido de “criança” é 子. Já o ideograma usado para “gostar” é 好. Faz sentido. Ou ainda, o kanji para “estudo” é 学, que também inclui o de “criança” (imagine uma fumacinha saindo da cabeça da criança de tanto estudar).

Outro exemplo: o ideograma para “árvore” é 木. O caractere de “bosque” é 林 e o de “floresta”, 森.

Partindo dos kanjis individuais se formam as palavras. “Universidade” é 大学, os ideogramas de “grande” e “estudo”. Logo, mesmo sem se saber a leitura dá pra adivinhar o significado, considerando que 小学, “pequeno estudo”, é escola básica e 中学, “médio estudo”, é escola secundária. Um dia, logo após sair de uma aula onde aprendi sobre o kanji 量 (quantidade), vi no trem um guri lendo um livro escrito 量子 na capa. Hmm, sabia que 分子, o kanji de “parte” combinado com o de “criança”, significava “molécula”. Supus que o livro fosse sobre Física Quântica. Procurei no dicionário, e era isso mesmo! É assim que a gente vai aprendendo.

Até agora evitei falar nas leituras, porque essa é uma das partes mais chatas de aprender os ideogramas. O fato é que quando os kanjis foram trazidos da China, o Japão já tinha sua língua própria que não tinha praticamente nada a ver com o chinês, e por isso os kanjis não eram por si só apropriados pra se escrever qualquer coisa em japonês. Inicialmente, o que se fazia era escrever tudo em chinês mesmo. Os únicos “letrados” eram pessoas que já sabiam chinês, e faziam a tradução “em tempo real” ao ler e escrever. Era como se eu escutasse, em português, alguém dizer “Olá, qual é seu nome?” e escrevesse no papel “Hello, what’s your name?” e quando me pedissem para ler o que estava escrito eu dissesse “Olá, qual é seu nome?”. Com a diferença que o chinês e o japonês são línguas muito mais diferentes que o inglês do português.

Para adaptar o kanji ao japonês, o que se fez primeiro foi associar os sentidos às palavras já existentes em japonês. Por exemplo, a palavra “pedra” é “ishi” em japonês. Em chinês, havia um ideograma para pedra, que virou o ideograma para pedra também em japonês: 石. À palavra “óleo”, “abura” em japonês, foi atribuído o caractere chinês 油 de mesmo sentido. Ao ver os caracteres isolados, os japoneses irão lê-los como “ishi” e “abura”. Mas quando os ideogramas são combinados, geralmente são usadas leituras mais parecidas com a do chinês original. A palavra 石油 é lida “sekiyu”, e significa “petróleo”, como na palavra de origem latina.

O interessante é que se pensarmos o papel do chinês na língua japonesa, ele é parecido com o do grego na nossa língua. Se vemos uma palavra como “democracia”, sabemos que é o “governo” (kratos) pelo “povo” (demos). Sabemos que muitas das palavras com “demo” se referem ao “povo” (“demográfico” etc), mesmo que “demo” sozinho nunca usemos com esse sentido. “Petróleo”, em japonês vem do chinês assim como “democracia” para nós, vem do grego.

Em alguns casos, idéias diferentes mas relacionadas foram associadas ao mesmo ideograma. Por exemplo, 月 é o ideograma para lua (tsuki) e também para mês (getsu). A palavra segunda-feira é 月曜日 (getsu-youbi), similar ao inglês Mo(o)nday. E domingo é 日曜日 (nichi-youbi), que como no inglês é o dia do Sol (Sunday), mas aqui o primeiro ideograma é lido nichi e o último bi (variação de hi). O mesmo ideograma de “Sol”, lido como ni, é usado na palavra Nihon (日本), o nome do país que literalmente significa a “origem do Sol”.

Mas de volta à leitura. Os intelectuais que sabiam chinês escreviam em ideogramas. As mulheres, que não tinham acesso à mesma educação, começaram a simplificar alguns ideogramas e usar esse alfabeto simplificado foneticamente, o que resultou no hiragana. Dizem que as curvas do hiragana são reflexo dessa origem feminina, uma forma mais suave de escrita (literalmente, hiragana significa “alfabeto suave”).1

Com a reforma da escrita japonesa e a aproximação da escrita à língua falada (ao invés de simplesmente escrever tudo em chinês) o hiragana ganhou importância representando as sutilezas da língua que o kanji simplesmente não conseguia representar, como flexões verbais. Por exemplo, o verbo “entender”, é wakaru no presente, e wakatta no passado. São escritos em japonês como 分かる e 分かった, onde o primeiro caractere é o ideograma de “entender” e o restante é a flexão karu ou katta em hiragana. Agora, porque o ideograma de “entender” é o mesmo de “parte”, eu não entendo. :)

Não satisfeitos com dois alfabetos, os japoneses resolveram simplificar ainda mais o hiragana criando o katakana. Outra forma fonética de escrita, é um alfabeto onde os caracteres são bastante parecidos com os do hiragana, mas tem os traços mais grosseiros. Por exemplo, compare a expressão kana em hiragana e katakana: かな e カナ (ou ainda, em kanji: 仮名). Os caracteres com o som de ka (か em hiragana, カ em katakana) descendem do ideograma 加, enquanto os caracteres com o som de na (な em hiragana, ナ em katakana) descendem do ideograma 奈.

Por fim, quero fazer um comentário rápido sobre a “moda” no ocidente de se escreverem nomes em japonês. Primeiro, nomes ocidentais são sempre escritos em katakana, que é apenas uma forma fonética de se escrever o nome2. Tem gente que aparece com um monte de ideogramas tatuados no corpo e diz que aquilo é seu nome em japonês. Não é. O único caso em que um estrangeiro recebe um nome em kanji é se ele se naturaliza japonês, o que é bastante raro. Nesse caso, ele deve escolher um nome em ideogramas para usar em seus documentos oficiais. Um exemplo é o jogador de futebol brasileiro Alessandro Santos, naturalizado japonês que utiliza o nome 三都主. O nome pode ser lido como santosu, mas não tem significado real (seria algo como o “chefe das 3 capitais”). Outra forma de escolha dos ideogramas é pelo significado, por exemplo, considerando o significado da palavra “santo”, ele poderia ter escolhido o ideograma 聖人, que significa “santo” mas é lido seijin, se bem que nesse caso um nome assim não cairia bem considerando a humildade tão valorizada no Japão.

1 O romance mais tradicional do Japão, “A lenda de Genji”, que celebra 1000 anos este ano e é considerado o mais antigo do mundo, foi escrito por uma mulher exclusivamente em hiragana.
2 Diferente do chinês, que não usa alfabetos fonéticos e portanto também usa ideogramas para palavras estrangeiras. McDonald’s no Japão é マクドナルド, na China, 麦当劳. Uma guria chinesa me contou que muitos chineses acham que a Pepsi Cola é chinesa por causa disso. Se bem que muitos gaúchos já acharam que “a Pepsi é gaúcha”. ;)

terça-feira, setembro 16, 2008

Janta do dia-a-dia

Don (丼) significa tigela de arroz. Com certeza é um dos pratos típicos da culinária japonesa, tem até um kanji próprio só pra ele. Existem vários tipos de don, dependendo do acompanhamento que vem sobre o arroz.

Um dos meus preferidos é o maguro don (まぐろ丼) onde o acompanhamento é sashimi de atum. Gosto porque é praticamente um sushi gigante, mas tem mais “sustância" e é absurdamente fácil de fazer. Num potinho se mistura shoyu com wasabi, e se despeja essa mistura por cima. Essa foi minha janta de hoje:

quarta-feira, setembro 10, 2008

Passeando pela vizinhança...

Esqueci de contar...

Quando estava em Boston, o Google iniciou o serviço StreetView em Tokyo. Pra quem não conheçe, é uma recurso do Google Maps que permite se “passear” pelas ruas, vendo fotos em 360 graus capturadas no local. Aí embaixo está meu prédio. Pela neve na rua, eu acho que as fotos foram tiradas no final de janeiro (pouco depois desse post), logo antes de eu ir ao Brasil. Arrastando o mouse sobre a foto é possível olhar nas outras direções, e clicando nas setas sobre a rua é possível “mover-se” para a direção da seta.


View Larger Map

Ah, e pra quem não respondeu, a pesquisa ainda está aberta.

segunda-feira, setembro 08, 2008

O ovo do Godzilla

Aqui no Japão é muito comum presentear produtos “consumíveis”, principalmente quando se visita alguém. No início achava esse hábito meio estranho: quando a gente dá um presente, espera que a pessoa o guarde, se lembrando da gente, não? Mas aqui, principalmente pela questão de espaço, é muito comum se dar comidas, frutas, até produtos do dia a dia, como presente. Existe até uma época do ano em que os supermercados preparam caixas cheias de produtos comuns, como óleo, sabão em pó, macarrão, etc, para se presentear. É como aquelas cestas de produtos importados que se vende no Brasil, com a diferença que os produtos são os mais ordinários!

Tem uma conseqüência muito boa desse hábito: se a gente ganha um produto bom, consome com prazer, lembrando da pessoa. Se é um produto que não agrada, a gente acha alguém e passa adiante! E na próxima vez que a pessoa vem visitar, tudo bem, o produto já foi consumido (seja pela gente ou por terceiros), não se espera que o produto ainda exista. Não precisa se dar explicação.

Frutas já são naturalmente produtos caros no Japão, mesmo no supermercado, e além disso existem “fruteiras de luxo” que comercializam as frutas mais perfeitas imagináveis, presentes bastante populares. Essas lojas, em geral, ficam em lugares chiques, com aluguéis que só podem ser pagos com os salgados preços das frutas que elas vendem. Esses dias passando em frente a uma dessas lojas, tirei as seguintes fotos de melancias.

A primeira foto mostra a famosa “melancia quadrada” japonesa. Ela é criada dentro de um recibiente de vidro, que dá forma a melancia, quebrado quando a fruta está pronta pra ser comercializada. O preço dessa melancia é 13 000 ienes, cerca de 210 reais. Na foto tem também a novidade, a melancia piramidal, além de outros tipos, como a melancia amarela, e demais frutas.

A segunda mostra outra novidade: Gojira no tamago (ゴジラのたまご). Gojira é “Godzilla” e tamago, “ovo”. Portanto, “ovo do Godzilla”. Sim, é a mesma melancia que no Brasil custa uns 5 reais. Só que aqui, por ser o “ovo do Godzilla” ela sai pelo precinho camarada de 13500 ienes (220 reais).

terça-feira, agosto 26, 2008

STeLA Forum 2008

Ok, continuando o assunto do post anterior... Fui a Boston (na verdade, Cambridge) no início do mês pra participar do segundo fórum de uma organização chamada STeLA (Science & Technology Leadership Association). Provavelmente ninguém aqui ouviu falar dessa organização. Ela está recém no seu terceiro ano e foi fundada nos EUA por um grupo de japoneses que estudava por lá. O primeiro fórum foi no ano passado aqui em Tokyo, mas desse eu não participei. Só fiquei sabendo sobre o segundo fórum esse ano, e lendo sobre a organização logo me interessei em participar.

O objetivo “oficial” da STeLA é desenvolver lideranças nas áreas de ciência e tecnologia (C&T). A minha interpretação mais prática dessa idéia meio abstrata é que a STeLA tenta criar um grupo de estudantes, de vários países, ligados a C&T capazes de auxiliar nas decisões que afetem as políticas públicas. Chamo o objetivo de “oficial” (com áspas) porque, como a organização é ainda bastante jovem, seus fundamentos não são rígidos e a organização vai se modificar e adaptar de acordo com seus membros.

Existem outras organizações de estudantes que tentam preparar jovens para assumirem papéis de liderança e terem um impacto positivo na sociedade, mas achei o diferencial da STeLA, de focar em C&T, bastante interessante, por considerar dois fatores: (i) ciência e tecnologia são imprescindíveis pra se lidar com os problemas atuais da sociedade; e (ii) existe um distanciamento muito grande entre os cientistas e engenheiros e os políticos. As pessoas da área de C&T tem certo receio de se envolver com política, e políticos raramente tem conhecimento suficiente em C&T para que possam tomar as decisões mais apropriadas levando-as em consideração. Há, inclusive, um certo desdém mútuo entre os dois grupos.

Participaram do fórum cerca de 50 pessoas, sendo um terço de universidades americanas (principalmente MIT e Harvard), outro do Japão (Universidade de Tokyo e Instituto Tecnológico de Tokyo) e ainda na China (Universidade de Pequim e de Tsinghua). O fórum era baseado em três componentes: os workshops sobre liderança, as atividades temáticas e o projeto final em grupo.

Nos workshops sobre liderança, realizamos atividades relacionadas ao modelo de liderança distribuído empregado na Sloan School of Management do MIT. Um ponto interessante é que existe um projeto de pesquisa do MIT, parceiro da STeLA, que investiga as interações dentro de um grupo de negociações. Por esse motivo, durante as atividades, usávamos um sensor pendurado no pescoço, que gravava com quem e como estávamos interagindo. Após as sessões, podíamos observar como tinha sido a interação dentro do grupo e trabalhar para que a comunicação e interação fosse melhorada. Infelizmente nossos sensores não funcionaram muito bem, então o feedback não foi muito útil. Ainda na parte de liderança, tivemos também duas keynote speeches de dois prêmios Nobel em medicina: Phil Sharp (1993) e Susumu Tonegawa (1987). Estas apresentações foram completamente diferentes do que se esperaria de um “prêmio Nobel”: foram muito mais um bate papo informal sobre suas carreiras científicas.

Quanto a parte das sessões temáticas do fórum, o assunto desse ano foram os problemas de saúde pública global (daí a escolha dos keynote speakers). Nessa parte também tivemos apresentações e leituras sobre o assunto, participamos de um painel com professores ligados à área, e fizemos uma visita ao laboratório de pesquisa da Merck em Boston, onde se pesquisam medicamentos contra o câncer e o mal de Alzheimer. Obviamente, essa não é a minha área, nem de muitos dos estudantes que participaram do fórum. Mas a idéia da STeLA é que o tema seja apenas um cenário onde se possam aplicar as habilidades desenvolvidas, além de criar consciência sobre o assunto. E essas habilidades seriam desenvolvidas na terceira parte do fórum, o projeto final.

Para desenvolvermos o projeto fomos divididos em grupos de 5. No meu, além de mim, havia um japonês que estuda química em Princeton, um americano que faz pós em mecânica no MIT, uma coreana que estuda fisiologia na Universidade de Tokyo e uma chinesa que estuda biologia na Universidade de Pequim. Nosso grupo era bastante heterogêneo, e era interessante (e desafiador, às vezes) trabalhar em grupo com pessoas de backgrounds culturais e acadêmicos tão diferentes. Foi interessante ver cada membro assumindo naturalmente papéis diferentes dentro do grupo. Isso era parte dos objetivos do fórum.

O projeto final era a criação de um video de 30 segundos que abordasse um dos problemas de saúde pública discutidos no fórum. Escolhemos fazer nosso vídeo sobre doenças tropicais negligenciadas. Essas doenças atingem cerca de 1 bilhão de pessoas, principalmente em países pobres, e não possuem tratamento adequado, pois como não atingem os países ricos, não são de interesse da indústria farmacêutica. Como a maioria de nós não era da área das ciências biológicas, não tinhamos conhecimento prévio do problema. Nosso vídeo, portanto, não tenta encontrar soluções concretas, mas apenas alertar mais pessoas sobre sua existência, como primeiro passo. Apesar de não termos ganho nenhum dos prêmios do fórum, todos no grupo ficamos com muito orgulho do nosso “filho”:

No final do fórum, começamos a discutir sobre o próximo: se vai acontecer, e onde. Os participantes da China mostraram bastante interesse em hospedar o fórum (o primeiro foi no Japão, e essa edição nos EUA foi a segunda). Apesar de terem certo suporte das universidades, a maior dúvida foi quanto ao pessoal para organizar o evento, já que não sabemos ao certo quantos estudantes estão envolvidos com a STeLA na China. Também, a questão da comunicação pode ser complicada, pois precisaríamos de videoconferência confiável entre o Japão/EUA e a China. Por esses motivos, resolvemos dar mais algumas semanas ao time da China para que verifiquem a disponibilidade de pessoal e de outros recursos e mandem uma proposta. Caso a China não consiga organizar para 2009, o Japão deve hospedar o fórum novamente em 2009 e a China só em 2010. Como estarei envolvido com o final do meu doutorado (assim espero) ano que vem, não devo participar do próximo fórum se ele for na China, mas se for por aqui ainda devo me envolver.

Sobre Boston, em si, o que posso dizer é que a cidade é muito menor do que eu imaginava, em um dia se consegue dar uma boa volta a pé pela cidade. O que é marcante, além das atrações ligadas a história dos EUA e a arquitetura própria, é o grande número de universidades (e conseqüentemente, de gente jovem). O Jeff, americano do meu grupo, perguntou o que mais chamava atenção em Boston, vindo do Japão, e começou a dar risada quando respondi que era a quantidade de asiáticos! Mas é verdade... Ouvi uma estatística de que 60% dos estudantes do MIT são da Ásia, e que MIT na verdade quer dizer “Made In Taiwan”. :)

E sobre o MIT, o que dizer? Bom, muita da tecnologia que a gente usa vem diretamente de lá, muita da história da computação (e da cultura ligada a ela) se passa por lá. Então pra quem é da área, o lugar acaba se tornando meio “mítico”, a gente imagina existir em outro plano. Mas chegando lá, a gente vê que eles tem uma ótima infraestrutura, com certeza pesquisa no estado da arte e grandes recursos humanos, mas é apenas mais uma (ótima) universidade. É bom visitar lugares assim pra nos dar perspectiva. Foi muito legal poder visitar o MIT com os “nativos”, andar livremente pelos prédios, ficar hospedados nos dormitórios, pra desmanchar essa falsa imagem.

Tem gente que não entende porque eu me envolvo nesse tipo de atividade, que a princípio não tem nada a ver com a minha área... Claro, eu tenho minha “área” oficial, mas me interesso por várias coisas, de tudo um pouco. E se é uma oportunidade de conhecer e trabalhar com gente diferente, de ver outras perspectivas, sempre resulta em algo positivo. No fórum, trabalhei com algumas das pessoas mais inteligentes que já conheci. Por mais que me vire bem no inglês, nunca tinha visto como é difícil e cansativo pra mim entrar em discussões mais profundas no idioma, por um período mais prolongado. E observar como a gente se comporta trabalhando com pessoas de culturas tão diferentes não é uma oportunidade que aparece todo dia. Foi muito bom ter passado esses dias por lá, cansativos mas produtivos, e espero que eu (e os outros) ainda possa(m) participar de muitas outras atividades como essa.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Uma breve escala no Alaska

Voltei ontem de Boston, em seguida escrevo contando o que fui fazer lá. Mas o curioso foi o acontecido no vôo entre Detroit e Tokyo. Após algumas horas de vôo, o comandante faz um anúncio inesperado: “Pousaremos em cerca de 30 minutos no aeroporto de Anchorage, Alaska, para um reabastecimento. Assim que estivermos no solo volto a entrar em contato com mais detalhes”.

Achei estranho, essa era a sétima vez que cruzo o Pacífico e nunca foi necessário pouso de reabastecimento. Aí lembrei que umas horas antes, durante a “noite”1 vi dois caras acompanhando os comissários em direção a frente do avião. Na hora pensei que alguém (possivelmente um familiar dos dois) tivesse passado mal.

Pousamos, vimos as montanhas cobertas de neve ao redor do aeroporto, que não tinha muito movimento de passageiros mas vários cargueiros vindo da China e Coréia. Assim que a porta do avião abriu, 6 policiais entraram no avião e levaram um sujeito para fora. O comandante, então, fez um novo anúncio. O sujeito, após tomar algumas bebidas, pediu mais, e os comissários, notando o estado já alterado dele, negaram. Ele começou a xingar todo mundo, até o comandante foi falar com ele que, alterado, queria briga a qualquer custo. Os dois que antes tinham ido para a frente do avião eram uns caras grandões, provavelmente foram lá para ajudar a controlar o alterado. Solução do comandante: pousar no Alaska antes de cruzar o Pacífico e mandar prendê-lo.

Agora imagina o quanto se gasta de combustível para se fazer uma decolagem extra de um Boeing 747 lotado. Mais, considera que, como ainda faltava muito da viagem, o avião estava cheio de combustível e não podia pousar, e portanto teve que despejar grande parte do combustível para ficar com o peso compatível. Tudo por causa de um mala que exagerou no trago. Além de ficar preso no Alaska por uns dias, o cara vai ter que pagar uma senhora multa e um ticket de volta. Ah, e a mala dele também veio pra Tokyo. Hehehe.

1 Quando se cruza o Pacífico durante o dia, as empresas aéreas costumam pedir para que todos fechem as janelas do avião a certa altura do vôo e diminuem os serviços de bordo. Isso dá a impressão de que uma noite está passando, e ajuda na regulagem do novo fuso horário.

sexta-feira, maio 23, 2008

Certificado de alienado

Os estrangeiros que moram no Japão precisam se registrar na prefeitura, fornecendo nome, endereço, motivo de permanência no Japão e outros dados burocráticos, e com isso recebem um “documento de identidade” japonês. O documento se chama gaikokujin torokusho (外国人登録書), mas em inglês é comumente chamado de alien registration. Obviamente, pelo trocadilho em inglês, daí saem brincadeiras de como os japoneses vêem os estrangeiros, mas se não somos alienígenas como nosso certificado diz, acabamos sendo ao menos todos um pouco alienados, por questões da língua.

Desde o início desse mês vi diversos cartazes nas estações da linha de trem que uso avisando que no fim de semana passado, dias 17 e 18 de maio, os trens que ligam a estação de Tsutsujigaoka (つつじヶ丘), onde moro, a Chofu (調布) - pro lado contrário de onde costumo ir - não estariam operando. Achei estranho, porque os trens no Japão funcionam sempre e pontualmente, mas achei que se tratava de alguma obra de melhoramento da linha ou do trânsito, até porque os cartazes diziam também que uma das estradas que chegam em Tokyo também estaria parada. E como essa interrupção não me atingiria, pois costumo ir para o outro lado da linha, nem fiz questão de me informar melhor sobre o que estaria acontecendo. Entendi o suficiente: não haveria trem para aqueles lados nesses dias.

O fim de semana chegou e saí de casa, fui para o outro lado da cidade. O fim de semana terminou e não notei nada de diferente. Agora a pouco descobri porque o tráfico foi interrompido:

Pois é, tinha uma bomba da Segunda Guerra enterrada a duas estações aqui de casa, que precisava ser desativada. E eu só fiquei sabendo por “acidente”. Tokyo sofreu o chamado carpet bombing durante a guerra e praticamente tudo foi destruído. Existem poucos bairros que preservam os prédios originais de antes da guerra, e como tudo é novo, raramente se lembra dos acontecimentos. Mas as evidências continuam enterradas por aí.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

De porta à porta...

18 800 km, 40 horas e meia. Uma longa viagem.

Ainda assim, bem melhor que os 52 dias do Kasato Maru (笠戸丸).

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Neve

Hoje nevou em Tokyo. A primeira neve “forte” do inverno, e possivelmente a última. Tokyo fica ao nível do mar, então é difícil nevar bastante. Dessa vez, nevou desde o amanhecer, sem parar, até perto da uma da tarde.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Uma casa no campo!

Chegou a hora do meu maior desafio desde a chegada no Japão: encontrar uma casa nova. Desde que cheguei, morava num dormitório de estudantes internacionais. Morar no dormitório tem suas vantagens, principalmente para quem recém chegou no país e sabe pouco sobre os procedimentos da vida aqui, mas com o tempo cansa, desanima. Por mais que meu dormitório não seja ruim (já ouvi histórias de dormitórios bem piores em outras cidades do Japão), considero ele o pior dos que conheci em Tokyo, sendo as únicas vantagens o preço relativamente baixo (35 mil ienes - 310 dólares - por mês) e a possibilidade de se ficar nele por até dois anos. Mas as desvantagens também eram tantas que não fiz questão nenhuma de morar nele por todo esse tempo, apenas até economizar o suficiente para me mudar para um lugar mais agradável, já que se mudar em Tokyo custa bastante dinheiro.

Primeiro quanto às minhas reclamações do dormitório, já que com isso fica mais fácil entender o que quero dizer com lugar melhor. Meu quarto não é pequeno. Mas nele faltam duas coisas essenciais para mim: cozinha e chuveiro. O chuveiro nem é tão importante: o ruim é sempre ter que preparar minha cestinha, roupas limpas, todo o esquema a cada vez que vou tomar banho no chuveiro compartilhado. E como moro no primeiro andar, onde circulam várias pessoas, não me sinto à vontade pra ir ao banheiro só enrolado na toalha. No inverno ainda tem o agravante do frio. Para evitar a umidade, as janelas do banheiro seguidamente ficam abertas. E um problema que era mais freqüente mas parece ter sido resolvido era quando queria tomar banho e estavam fazendo a limpeza. Acho que mudaram o horário. Pelo menos um ponto positivo: apesar de não ser absurdamente limpo, nosso banheiro era um dos mais limpos do dormitório, pelo que comparei quando tive que tomar banho nos das outras alas em dias de manutenção. Além disso, a água era bastante quente e com pressão.

A cozinha, essa sim, é o que mais me deixava desanimado. Cozinha para mim é importante porque gosto de preparar minhas comidas, o que é mais barato e agrada mais o meu gosto não japonês. E a nossa cozinha não era suja. Era imunda. Uma coisa que não consigo entender é como podia nossa cozinha ser mais suja que as dos albergues onde eu já estive. Muita gente diz que a sujeira é por causa dos chineses, o que é uma injustiça: nossa cozinha era tão suja que nem os chineses se animavam a deixar suas louças e seus ingredientes nela! Os moradores mais críticos eram, na verdade, os do Paquistão e Bangladesh.

Eu sei que tem coisas que são culturais, e essas eu tento respeitar. Me esforço, até. Acho estranho o fato de comerem com a mão, mas tudo bem, isso é um hábito diferente para mim como utilizar talheres o é para eles. Mas existem noções básicas de higiene, que, no século XXI, deveriam ser universais. Por exemplo, após as refeições, em vez de lavar pratos, eles apenas passam uma água e os guardam nos armários coletivos da cozinha (que só eles utilizam). E, o que foi a gota d’água para mim, foi ver a mesma criatura (a quem eu “carinhosamente” chamo de “guri-bicho”) chegar na cozinha um dia de manhã, abrir um dos armários e tirar uma panela destampada do seu tradicional “cozido” de legumes, que estava ali pelo menos desde o dia anterior, sem refrigeração alguma, dentro do armário. Também, um dos ralos estava constantemente entupido (o que não impedia que as pessoas continuassem usando-o “normalmente”) e o chão era um adesivo com mais aderência que um Post-it®. Resolvi dar um basta e encontrar de vez um novo lugar para me mudar.

Podem me chamar de fresco. Sou exigente, isso sim, e como introspectivo que sou preciso de um lugar meu para “recarregar minhas baterias”. Especialmente considerando que moro num país onde tudo é estranho: a língua, as pessoas, comidas, sons, músicas. Preciso de um canto onde eu possa fazer a comida que eu gosto, ouvir a música que me agrada, me sentir à vontade. Na verdade, encontrar um lugar para morar em Tokyo não é difícil, se a pessoa não é tão chata como sou. Mas encontrar um lugar que se possa chamar de “casa”, isto sim, é um dos maiores desafios da vida no Japão.

Alugar um apartamento em Tokyo, além de caro, é mais difícil para estrangeiros. É caro não só pelo aluguel mensal, mas também pelas taxas iniciais que devem ser pagas. Além do aluguel do primeiro mês, deve-se pagar o equivalente a um ou dois meses de aluguel de depósito (chamado de “key money”) que serão usados para manutenção ao se sair do apartamento (sendo o que sobra devolvido), além de uma outra taxa mais inexplicável equivalente a um ou dois aluguéis chamada de “gift money”, que é um “presente” dado ao proprietário pela sua gentileza em alugar o apartamento. Esse dinheiro é “morto” e não volta. Seu sentido é questionado por muita gente, mas é uma tradição japonesa que não dá sinais de desaparecer, pelo menos nas áreas onde habitação é mais crítica como Tokyo. Mais a taxa da imobiliária que corresponde a um mês de aluguel. Além disso, é necessário pagar um seguro sobre o imóvel e, em muitos casos, um seguro fiador. Somando todas as taxas, chega-se facilmente a quantias de 300-500 mil ienes (2700-4600 dólares).

O valor do aluguel, que indexa essas taxas, é bastante alto. Um apartamento de 20 m² custa pelo menos 100 mil ienes (900 dólares) mensais no centro de Tokyo, e o preço vai diminuindo quanto mais longe o imóvel fica do centro. Além disso, existem vários outros fatores que influenciam o preço do apartamento: idade, orientação, andar, distância à estação de trem, tipo de banheiro e cozinha, itens incluídos (como ar condicionado) etc. Finalmente, ainda há o agravante de se ter que lidar com tudo isso numa língua complicada (japonês), e aceitar o fato de que a grande maioria dos proprietários (>70%) simplesmente não aluga para estrangeiros.

Procurar um apartamento no Japão consiste em se passar em frente de uma das inúmeras imobiliárias (em geral próximas às estações de trem), ver afixadas nas vitrines diversas fichas de apartamentos com a planta e as informações gerais (valores do aluguel, taxas, localização etc.), entrar, preencher uma ficha dizendo quais suas necessidades e aguardar o agente procurar fichas que atendam os requisitos. Depois, normalmente, visitar os apartamentos das fichas escolhidas. Mas se tratando de estrangeiros, existe um passo intermediário, onde o agente telefona para os proprietários para consultar se ele está disposto a alugar para estrangeiros. Pontos que contam positivamente é se falar (pelo menos um pouco de) japonês, e estudar em uma universidade conceituada. O que conta negativamente é, infelizmente, ser brasileiro. E de uma pilha inicial de uns 15 apartamentos interessantes, após a consulta em geral apenas uns 3 ou 4 estão realmente disponíveis para estrangeiros.

O preconceito com estrangeiros existe no Japão e não é tanto uma questão do japonês não gostar de estrangeiros, mas sim de não estar preparado para lidar com o diferente. Japonês gosta de previsibilidade. Qualquer japonês tem uma idéia geral de como os outros japoneses irão se comportar, mas isso não acontece em se tratando de estrangeiros. Por exemplo, como lidar com um estrangeiro como o “guri-bicho” que vive no meu dormitório? Será que ele conseguirá lidar com o complicado processo de separação de lixo como todos os japoneses se dispõem a fazer? E como fazer quando for pra reclamar de alguma coisa? E não adianta eu ser um “cara certinho”, pois acabo caindo na mesma classificação geral de “nós, os japoneses, e o resto”. Esse é o lado ruim de qualquer preconceito.

Apesar disso, pelos últimos 3 meses estive procurando o apartamento “ideal” para morar. Como tinha até março para sair do dormitório, queria procurar com calma e achar algo que realmente me agradasse. Quanto ao valor, estava disposto a pagar no máximo 65 mil ienes (600 dólares) por mês, e isso se fosse um apartamento muito bom. Logo, apartamentos centrais estavam excluídos. O apartamento não precisava ser novo, mas precisava ter uma aparência boa/nova. Inicialmente preferia que o apartamento fosse um washitsu (和室), ou seja, um quarto com tatami em estilo oriental, o que acho mais prático e confortável, mas logo vi que quartos de solteiro desse tipo não são mais preferência dos japoneses e apenas apartamentos antigos (que não foram reformados) ainda são desse tipo. Assim, desisti desse requisito. Como meu dormitório era bastante longe da estação (20 minutos a pé), procurava apartamentos mais próximos (no máximo 10 minutos). Lugares assim, na mesma linha de trem que utilizava anteriormente, eram difíceis de encontrar, então comecei a procurar em outra linha que também passa próximo ao meu campus. Essa linha, apesar de tomar um pouco mais de tempo e exigir uma troca de trem, é bem mais vazia e barata. Fui com alguns amigos e com a Fernanda, que são mais fluentes em japonês, em algumas imobiliárias procurando apartamentos assim. Nos ofereceram muita coisa ruim. Com o tempo, fui ganhando mais vocabulário e já entendia bastante do que nos diziam, mas ainda tinha a dificuldade de articular minhas respostas.

No início de dezembro encontramos um apartamento que parecia perfeito. Ele havia sido reformado há 3 anos, tinha orientação sul, ficava a apenas 7 minutos de uma estação onde pára o trem expresso (que não pára em todas as estações), ficava no segundo andar e o aluguel era de apenas 58 mil (530 dólares). Fomos visitar o apartamento, e logo chegando no prédio a impressão foi boa: era o primeiro que não tinha a aparência velha e suja de todos vistos anteriormente. Entrando no apartamento, então, o golpe de misericórdia: o chão iluminado pelo sol que entrava pela ampla janela, com vista para uma horta comunitária. Dava para ver à distância! Isto porque, considerando a distância, o apartamento era um pouco mais afastado do centro de Tokyo que o meu dormitório, no subúrbio, mas considerando os transportes ainda assim mais “perto”, a cerca de 20 minutos de trem do laboratório. Completamente diferente de todos os outros que até então havia visto, perfeito!

Voltando do apartamento, dissemos à imobiliária que eu tinha gostado, mas que as taxas iniciais ainda estavam um pouco altas, tentando algum tipo de barganha. Mesmo não sendo possível, disse que estava interessado e disposto a assinar o contrato, e aí apareceu o segundo problema: o fiador.

O centro de estudantes internacionais da minha universidade tem um programa de fiador, onde pagando-se um seguro, a universidade entra como fiador na assinatura do contrato. Havia explicado à imobiliária desse serviço, mas o proprietário não aceitou este esquema por se tratar de um fiador pessoa jurídica. Foi um balde de água fria: já estava me vendo morando naquele apartamento bacana, já estava até aceitando as incomodações do dormitório por saber que aquilo estava com os dias contados. Na verdade, nem foi tanta surpresa, pois alguns meses antes já tinha me interessado por um outro apartamento que também não aceitou a universidade como fiador. Paciência. De volta a estaca zero, explicamos a situação à imobiliária que ficou de procurar outro apartamento. Uns dias depois fomos ver uma outra opção, mas ele não chegava nem perto do anterior.

Nesse tempo, fiquei pensando na questão do fiador, e se não seria possível que meu orientador aceitasse sê-lo. No Japão, também, ser fiador é uma questão complicada e muitas vezes as pessoas não gostam de assumir o compromisso, sendo os fiadores geralmente os pais ou parentes próximos do inquilino. Mas como estrangeiro que conhece poucos japoneses eu não tinha essa opção. Depois de muito pensar na questão, e confirmar que o apartamento ainda estava vago, resolvi começar a “mexer os pauzinhos” para resolver a questão do fiador, e considero que o fiz de uma maneira bastante japonesa.

A forma ocidental de abordar o problema seria conversar com o orientador e apresentar o problema, e pedir a sua ajuda. Mas lembrei de um texto que li sobre relações de negócios entre ocidentais e japoneses que comentava como os japoneses funcionam de forma diferente. Segundo o texto, enquanto os ocidentais fazem um encontro para discutir todos os aspectos e resolver as questões, os japoneses esperam que ambos os lados já tenham “feito a lição de casa” e estudado o problema de antemão, e o encontro é apenas um momento de formalização de uma decisão já bem pensada. Considerando isso, levei meu problema pela hierarquia do laboratório, começando por meu colega de doutorado. Expliquei a ele o meu problema e perguntei se seria apropriado pedir a ajuda do sensei (orientador). Ele disse que normalmente não seria comum, mas em se tratando de um estudante estrangeiro talvez fosse OK, e fomos perguntar para um outro pesquisador do laboratório (mais sênior), que disse a mesma coisa. Os dois concordaram que eu poderia pedir, sim. Em seguida, contatei a secretária do sensei, pessoa mais próxima dele no laboratório, e quem tinha sido a responsável pela minha alocação no dormitório. Expliquei a situação, dizendo que precisava de um fiador, mas que não sabia se deveria pedir ao sensei e que não queria colocá-lo na situação incômoda de ter que negar meu pedido. Ela respondeu dizendo que fiz muito bem em escrever a ela, e que conversaria diretamente com o sensei sobre o meu problema e me daria uma resposta. Alguns dias depois, me informou que o sensei conversaria diretamente comigo, o que fizemos, e ele foi muito atenciosos e sem eu ter que falar nada, aceitou ser meu fiador. Eu estava bastante nervoso mas ele parecia muito tranqüilo, apenas perguntou alguns dados do imóvel e terminou me dizendo “It’s OK, I trust you”.

Fiquei muito feliz. Contatamos a imobiliária para passar a notícia. Fechar o contrato foi um pouco difícil pois o sensei estava viajando em dezembro e logo chegaria o feriadão do ano novo, mas tudo deu certo e fim de semana passado me mudei para meu novo lar. :) Ainda estou lutando com algumas burocracias da mudança, como registro na empresa de água e luz, mudanças de endereço, mas minha casa já tem cara de casa, e minha vida já está muito mais agradável do que estava no dormitório.

Aos interessados em meu novo endereço, é só pedir que eu mando. Alias, até nisso o apartamento é perfeito: os ideogramas do endereço são bem fáceis de escrever!

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Onde está o Geninho?

Não é daltonismo, é o outono mesmo: época de folhas verdes, amarelas e vermelhas. Japonês tem até uma expressão para o estado das folhas nessa época: koyo (紅葉). E essa árvore vermelha, curiosamente, chama-se momiji, cujo ideograma é “紅葉”.

Notaram alguma semelhança? Sim, uma mesma palavra escrita em kanjis (漢字) pode ter mais de uma leitura. As duas são formadas pelos mesmos caracteres de “vermelho escuro” e “folha”. E como se sabe a pronúncia certa? Pelo contexto. Eta linguazinha complicada.

O desafio de hoje é encontrar o Geninho na foto aí em cima.

terça-feira, novembro 27, 2007

Mais lento que uma bala, mas mais forte que uma locomotiva

Lembro da primeira vez que andei de avião. Achei tudo o máximo: aquela máquina enorme que, em um movimento suave, nos levava rapidamente a lugares que normalemente levaríamos dias pra chegar; a vista “quase infinita” pela janela; o serviço de bordo; o design interno da cabine - queria ter uma casa como o interior de um avião! -, pareciam a perfeição: era a forma ideal de viajar.

Recentemente tive a oportunidade de andar pela primeira vez de “trem-bala” japonês. Por mais que hoje tenha muito mais idade que na época da primeira viagem de avião, o encanto foi praticamente o mesmo, coisa que só a tecnologia aplicada é capaz de proporcionar.

Andar de trem já é legal. O movimento é suave, o espaço interno é mais amplo, a janela mostra a paisagem como um “quadro dinâmico”. Mas o trem comum ainda tem alguns incômodos: “Ah, bem que a gente podia parar em menos estações!” ou “Não dava pra fazer essa coisa andar mais rápido?” são dois sentimentos freqüentes quando a gente já está ansioso para chegar. E é essa a maior graça do trem-bala: ele anda rápido e praticamente não para.

O trem-bala é mais um símbolo do Japão. Só que aqui ninguém conhece ele por esse nome internacional. No Japão ele é o shinkansen (新幹線). Literalmente, quer dizer “linha do novo trilho” e o nome foi dado na época da inauguração para diferenciá-lo dos trens comuns, que usavam as linhas (e trilhos) já existentes. Isso foi em 1964, ano das Olimpíadas de Tokyo, que além do shinkansen trouxe outras novidades como o Aeroporto de Haneda, o Tokyo Monorail e o Ginásio de Yoyogi. Mesmo ano em que, do outro lado do mundo, o Brasil tinha que engolir o golpe militar.

Hoje é possível viajar de shinkansen por duas das quatro principais ilhas do Japão, Honshu (本州) e Kyushu (九州) e uma linha ligando a ilha de Hokkaido (北海道) está em construção. A principal linha é também a original, que liga as duas maiores cidades, Tokyo (東京) e Osaka (大阪), passando por outros centros importantes como Nagoya (名古屋) e Kyoto (京都) no caminho. A viagem original desse trajeto tomava 4 horas em 1964, com os trens andando a 210 km/h, e hoje é feita em apenas 2 horas e 25 minutos, em velocidades de 270 a 300 km/h.

Os shinkansens não são os trens mais rápidos do mundo em operação já há alguns anos, e dificilmente voltarão a ser. O problema não é simplesmente técnico, mas sim do terreno montanhoso do Japão, que impede a construção de linhas com poucas curvas. A geração mais recente dos trens tem a mesma velocidade máxima da geração anterior, e o melhoramento técnico está na forma em que os trens se inclinam para percorrer curvas em maior velocidade. A tecnologia é toda japonesa, desenvolvida pelo centro de pesquisas da empresa JR (Japan Railways), mesmo centro que detém o recorde de velocidade de trens de 581 km/h alcançado na linha protótipo de trem maglev, perto do Monte Fuji. E tecnologia boa a gente (ou pelo menos, os japoneses) exporta(m): trens baseados no shinkansen também são usados em Taiwan, na China e na Inglaterra.

Prum país do tamanho do Japão, essas linhas de trem de alta velocidade fazem todo sentido. O custo da passagem não é dos mais baratos, uma passagem de Tokyo a Osaka custa cerca de 130 dólares, enquanto de avião custa cerca de 200, e de ônibus (que leva a noite inteira) 60, mas as vantagens são muitas. As estações de shinkansen ficam sempre dentro da área urbana, enquanto aeroportos ficam sempre mais afastados. Além disso, a viagem de trem não implica em toda paranóia de segurança. Não há toda a verificação de bagagem, e é possível chegar na estação e entrar no trem em menos de 5 minutos. Claro, não há serviço de bagagens, e estas são levadas dentro dos vagões, mas há espaço apropriado para malas (de tamanho médio) e conseqüentemente não é necessário esperar que elas sejam descarregadas como no caso do avião. Diferentemente do avião, também, não é necessário esperar todo o taxiamento pelo aeroporto após o pouso, nem a autorização de decolagem: o trem parte e chega exatamente no horário definido. De fato, são os trens mais confiáveis do mundo: Em 2003, a JR anunciou que o atraso/adiantamento médio de chegada dos shinkansen foi de 6 segundos em relação ao horário esperado, isso calculado sobre 160 mil viagens de shinkansen feitas e incluindo todos erros e acidentes naturais e humanos!

Mas chega de papo técnico. Como é andar de shinkansen? O sentimento é ótimo. Há espaço para as pernas, é possível ver de cenários urbanos a plantações de arroz e chá pela janela, que passam a uma velocidade impressionante. Isso, tudo, cercado pelos passageiros típicos do shinkansen, os salarymen.

Nos dois trens que peguei, acho que mais de 90% dos passageiros eram salarymen em viagens de negócio de mesmo dia. E como tudo no Japão, parecem seguir um ritual. Eles chegam com suas pastas, as acomodandam no compartimento sobre a poltrona, tiram os casacos de seus ternos, os penduram no gancho retrátil ao lado das janelas, sentam-se, abrem as mesinhas retráteis e começam a apreciar seus bentos (弁当), tradicionais “marmitas” japonesas. Alguns abrem seus notebooks, outros lêem jornais, mas praticamente nenhum se dá ao trabalho de fazer aquilo que, pra mim, é o mais agradável: apreciar a vista, pelas grandes janelas. Já devem estar cansados, claro, daquela vista constante em todas suas viagens.

Mas para mim tudo é novo, uma diversão. Espero poder fazer mais muitas dessas viagens, mas nunca tantas que, para mim também, elas se tornem entediantes.

domingo, novembro 04, 2007

Fim de mais um dia no metrô de Tokyo

Nada de especial, só uma cena típica dos trens no Japão.

Detalhe para, entre os pés dele, o livro que estava lendo. Quando chegamos no fim da linha, onde trocamos de trem, o funcionário do metrô o acordou e ele saiu caminhando normalmente. Vida dura, essa de Salaryman (サラリーマン). Otsukaresama desu (お疲れ様です)...

domingo, setembro 09, 2007

No topo do Japão

Uma atividade bastante comum no verão do Japão é escalar o monte Fuji (富士山). Aos 3776 metros, o vulcão extinto é o ponto mais alto do país e um símbolo nacional, pela estética do seu cone praticamente simétrico.

Existe uma temporada oficial de escalada ao monte Fuji, que vai do início de Julho a 27 de Agosto. Nessa época, a temperatura no topo é mais amena, a neve derrete e diversas cabanas estão abertas nas trilhas de subida provendo serviços para os andarilhos, que vão desde hospedagem para descanso até refeições e bebidas quentes. Estas trilhas existem em todos os lados da montanha e variam em termos de inclinação, do terreno - o que determina a dificuldade de subida - e das cabanas de suporte. Em todas as trilhas, as cabanas são distribuídas em estações numeradas, e geralmente qualquer escalada ao monte Fuji parte da 5ª estação, até onde existem estradas e alcançam os ônibus.

E foi da 5ª estação que partimos. Ano passado muitos dos meus amigos escalaram o Fuji, mas como ainda estava preocupado com a admissão do doutorado e não me sentia 100% preparado, resolvi adiar a “aventura”. Esse ano, sim, já mais apto, encarei a subida com meus amigos Mário (campeão do mundo) e Eunice. Pegamos o ônibus em Shinjuku (新宿) e cerca de duas horas depois chegamos na 5ª estação de Kawaguchiko (河口湖五合目) a 2305 metros de altitude. Descemos do ônibus, visitamos algumas das lojinhas turísticas, e nos preparamos para começar a subida: nos vestimos apropriadamente, comemos uns sanduíches e frutas, fomos no banheiro, preparação completa.

O Sol também é um símbolo para o Japão, tão ou mais importante que o monte Fuji. Ele é representado pelo círculo redondo na bandeira japonesa, e o próprio nome do país, 日本 (nihon ou nippon) identifica essa relação, significando a origem (本) do Sol (日). É daí que vem a expressão “país do sol nascente”. Dá pra imaginar, então, o que representa pro japonês o ritual de assistir o nascer do Sol sob o topo do monte Fuji. Esse é um dos planos mais comuns de subida ao monte Fuji: escalar durante a noite para alcançar o topo nas primeiras horas da manhã e descansar sentado sobre as pedras vendo o amanhecer. Nosso plano também era esse.

Às 8 horas da noite começamos a nossa “subida”. Digo “subida” porque ao iniciarmos a trilha reparamos que estávamos na verdade descendo. Achamos estranho, ninguém havia comentado conosco sobre isso, e pensamos estar no caminho errado, indo na verdade para o lado contrário. Mas não. Logo encontramos uma placa indicando o início da trilha e a partir daí começamos a subir.

“Escalada” faz pensar em equipamentos de alpinismo, cordas, pessoas penduradas. Mas a subida do Fuji não é assim. É apenas uma longa caminhada de algumas horas montanhas acima. É cansativo, mas não difícil. Talvez a maior dificuldade seja lidar com a multidão de pessoas que resolve subir junta todo ano. Cerca de 200 a 300 mil pessoas sobem o Fuji anualmente, o que dá uma média de aproximadamente 3 mil pessoas por dia da temporada. Suponho que a grande maioria faça a subida durante a noite. Em alguns momentos, realmente a rota parava, devido às excursões subindo lentamente pelo caminho. Eu, Mário e Eunice íamos passando esse povo, pelas laterais da trilha. Parávamos em algumas das estações, mas começávamos a ficar ansiosos quando todo o povo que havíamos passado começava a nos passar novamente, e continuávamos nossa subida. Apesar de termos ouvido que um dos maiores problemas que podem ocorrer na subída é acelerar demais e acabar passando mal, nosso grupo era de gente bem preparada que anda rápido. :) Fazíamos pausas para não forçar demais, mas quando era para andar, andávamos pra valer.

Muitas das pessoas que sobem o Fuji compram bastões de madeira para ir se apoiando durante a subida. Eles não são caros, custam cerca de 1000 ienes (~20 reais), mas em cada estação de subida é possível pagar para ter um carimbo estampado com ferro quente no bastão, mostrando o progresso e a realização do objetivo. Acredito que o bastão faz um souvenir legal com os carimbos, mas pensamos que seria apenas mais um peso morto para levar montanha acima, então decidimos não comprá-los, e posso dizer que pelo menos no meu caso não fez falta alguma. Foi bom ter as mãos livres chegando ao fim da subida, onde a trilha era mais íngrime e usar as mãos ajudava a subir - ou pelo menos manter o equilíbrio - sobre as pedras, o que nos ajudou a passar muita gente. A partir da 8ª estação (cerca de 3400 metros) já havíamos passado a maioria das pessoas e a trilha estava bastante vazia. Quando parávamos para recuperar o fôlego (e vai ficando mais difícil mantê-lo a medida que a altitude aumenta) podíamos ouvir um silêncio absoluto e aproveitar o visual da montanha iluminado sobre a lua cheia, o que dava um sentimento de paz e uma motivação a mais para alcançar o topo.

Durante a subida passamos por alguns toriis (鳥居), aqueles pórticos orientais que indicam o caminho para santuários xintoístas, já que no topo do Fuji também existe um pequeno santuário. À uma da manhã alcançamos um desses toriis, e passando por ele chegamos a mais uma cabana, mas essa estava fechada, sem iluminação. Passamos por ela e vimos que a trilha não continuava. Havíamos chegado ao topo, após cerca de 5 horas! Encontramos poucas pessoas que se preparavam com sacos de dormir e cobertas para algumas horas de descanso até que o sol nascesse. Nós também teríamos algumas horas de espera, então resolvi tirar mais alguns agasalhos da mochila e vestí-los - apesar de não estar sentindo frio no momento, por estar com o corpo ainda quente. Tirei meu casaco e fiquei alguns segundos apenas de camiseta no topo do Fuji, o que depois me fez sentir a musculatura contraída. Mas não tive problemas maiores. Escrevi alguns postais - existe uma agência do correio que fica aberta durante o verão no topo do Fuji! - e começamos a procurar um lugar para esperar a noite passar.

Lugar não faltava, apesar de muita gente começando a chegar e se instalar sobre uns estrados de madeira localizados estrategicamente onde o sol viria a nascer horas mais tarde. Mas preferimos ficar sentados na entrada da cabana que havíamos passado e estava fechada, pois era um lugar mais protegido do vento. O chão era de pedra e nada confortável, então tentamos usar nossas mochilas como encosto e proteção. Passada a excitação de termos chegado ao topo, o sono começava a bater, e cochilamos um pouco. Nessa hora o frio apareceu. A temperatura era de 7 graus, plenamente suportável para qualquer gaúcho que se preze ;), mas dormindo o corpo perde mais calor e a coisa complica. Senti bastante frio, e então resolvi me levantar e dar uma caminhada, o que remediou o problema. Mais pessoas foram chegando, o local foi ficando cada vez mais lotado, e pelas 2:30 da manhã uma das cabanas do topo abriu - felizmente não a nossa, pois pudemos continuar onde estávamos - e acabei comprando um café quente. Achei o preço justo: 400 ienes (~8 reais) por uma lata de café, mas no topo do monte Fuji e durante a madrugada! O café me deu energia, o frio passou e, talvez pela cafeína, o sono também. Fiquei atento e empolgado com o crepúsculo que, pelas 4 horas, começava a aparecer. Tiramos algumas fotos, e vimos que o povo todo que havia chegado depois da gente tinha tomado o lugar na nossa frente, então fomos procurar um outro lugar para esperar o exato instante em que o sol aparecesse.

Não foi difícil. Havia uma multidão, mas o topo do Fuji é amplo. Achamos uma região mais alta onde víamos muito bem o horizonte e as pessoas assistindo a nossa frente, mais abaixo. Ao nascer o Sol, pelas cinco da manhã, um Sr. japonês fez um breve discurso, e pedio para que todos gritassem banzai (万歳), grito de celebração japonesa, como o nosso “viva”. Foi então uma seqüência de banzais enquanto as pessoas levantávam os braços. Uma experiência única e emocionante que nunca vou esquecer.

Com o nascer do sol, a temperatura subiu e o dia estava bonito. O Mário estava um pouco tonto, talvez pela altitude, e preferiu voltar para a base. Apesar de estarmos em grupo, comentei com ele e a Eunice que eu me sentia muito bem e que provavelmente não voltaria a subir o Fuji, então pedi a compreensão deles de que gostaria de ficar mais um pouco, dar a volta na caldeira, ir ao correio e ao ponto mais alto do Fuji. Nos despedimos e comecei o passeio.

Voltei a uma das cabanas onde, mais cedo, havia visto um mapa do entorno da caldeira. O mapa estava todo em japonês mas consegui identificar onde estávam as principais “atrações” mas não identificava muito bem como contornar a caldeira. Segui por um caminho mas logo me dei conta de que aquela parecia a trilha de descida. Voltei, tentei pelo outro lado e, aí sim, encontrei o caminho. Ao chegar ao lado oposto de onde havíamos visto o nascer do sol vi, sob a montanha, a sombra perfeita do Fuji sob o vale. Momento de foto, claro. Segui em direção à estação meteorológica1 do Fuji onde sabia ser o ponto mais alto do Japão. Uma fila se espremia na pequena escada que dava acesso a estação e ao marco, e nela fiquei por uns 20 minutos. Felizmente já estava meio que institucionalizado que sempre a pessoa de traz na fila tirava a foto da pessoa da frente junto ao marco. Tirei minha foto, e continuei ao redor da caldeira para visitar o templo e o correio.

O templo estava bastante cheio, mas não conseguia encontrar o correio. Perguntei para um rapaz que parecia trabalhar lá em cima (ele havia recém solicitado a algumas pessoas que saíssem de uma área “off-limits”) e ele me informou que o correio estava fechado! Ficava aberto todo ano somente até o dia 20 de Agosto, semana anterior.

Paciência. Era então hora de descer. Encontrei a trilha de descida, e seu longo zique-zague em direção a 5ª estação. Na trilha paralela de subida dava pra ver muitos retardatários chegando ao cume. A descida é mais rápida, mas tão cansativa quanto a subida pelo impacto, escorregões no chão arenoso e falta de cabanas de serviço. Descia fazendo ainda um segundo zigue-zague dentro do zigue-zague original, descia em alguns momentos de lado e até de costas, para não cansar tanto os mesmos músculos da perna. Fazia paradas para tirar as pedras do sapato, para tomar água. A música nos fones de ouvido ajudava o tempo a passar, assim como tinha feito horas antes durante a subida quando me distanciava um pouco do Mário e Eunice. Até que enfim, com os pés ardendo, cheguei de volta ao ponto de partida.

Precisava então encontrar uma forma de voltar para Tokyo. Havíamos comprado apenas a passagem de ida - já que os ônibus diretos de volta estavam cheios - o que no fim foi bom pois não tive pressa para pegar o ônibus em um horário marcado. Mas isso implicava que deveria então ir até uma estação de trem e fazer ainda algumas baldeações até chegar em casa. Enquanto esperava na fila para comprar a passagem, o Mário e a Eunice me reencontraram. Eles haviam almoçado e ele já estava 100% recuperado. E lá viemos nós, juntos outra vez, de volta pra casa.

A experiência foi muito interessante e válida. Em qualquer conversa sobre escaladas do monte Fuji, sempre alguém comenta uma frase famosa que diz “É um sábio aquele que escala o Fuji uma vez, e um idiota aquele que o faz duas vezes”. Se sou um “sábio” hoje, ainda não descarto a possibilidade de um dia virar um “idiota”: posso um dia vir a subir por outra rota, com outra vista, outra experiência. Mas deixo aqui três dicas muito importantes para qualquer um pensando em subir, independente de rota:

  1. Como o desafio é tanto psicológico quanto físico, somente suba se sentir-se preparado.
  2. Saiba exatamente o que levar, e o que não levar; e
  3. Consulte a previsão do tempo e certifique-se de subir em um dia onde não seja esperada chuva (como fizemos).

O resto é secundário. :)

1 A estação do Fuji é uma estação meteorológica instalada no topo da montanha em 1964. A posição privilegiada permitia que o seu radar tivesse um alcance de 800 km, o que foi essencial na previsão e acompanhamento de tufões no Pacífico desde então. Com a introdução dos satélites meteorológicos, a sua importância foi diminuida e a estação foi desativada em 1994. Mesmo assim, pela sua importância o radar do Fuji é considerado um dos grandes marcos históricos da engenharia elétrica pelo IEEE.

quinta-feira, julho 19, 2007

Mariana

Em 2003, na minha primeira visita ao Japão, participei de um festival de estudantes montando um estande de venda de pastéis, representando o Brasil. O estande teve relativo sucesso e, no ano seguinte, meus amigos japoneses resolveram repetir a dose, montando mais uma vez o estande. O regulamento do festival, entretanto, exigia que cada grupo representando um país contasse com pelo menos um participante nativo, e eu já estava de volta ao Brasil.

Pelo orkut, novidade na época, encontrei duas brasileiras que estavam estudando na região de Kyoto. Uma delas morava em Osaka e a outra em Kyoto. Coloquei as duas em contato com a Mayuko, minha amiga japonesa que havia me convencido a participar do festival no ano anterior, e logo elas se acertaram: haveria mais uma vez pastéis no festival de estudantes.

A Mariana, que estudava em Kyoto, encontrou a Mayuko e o resto do pessoal e juntos fizeram experiências de pastéis, e os demais preparativos para o dia do festival. Infelizmente, no dia houve ameaça de tufão, e o evento foi cancelado. Por outro lado a participação no festival incluia um seguro, e eles foram resarcidos com o que investiram para a compra de ingredientes. Mais que isso, como os ingredientes já tinham sido comprados, fizeram uma “sessão pastelada” pois jogar tudo aquilo fora seria um disperdício. Mottainai (もったいない), como se diz por aqui.

Ela continuou seus estudos em Kyoto, mantivemos contato por email. Terremotos e tufões também circulavam pelo Japão naquele ano, mas a Mariana não desanimava.

From: "Mariana"
To: "Drebes"
Subject: Re: Tufões, etc
Date: Mon, 25 Oct 2004 06:18:52 -0200

Eh Roberto, tufao, terremoto, essa terra anda sofrendo tragedia atras de 
tragedia... mas a gente vai sobrevivendo.

Pois afinal, ela sabia que o estresse era temporário, seu lugar era no Brasil.

From: "Mariana"
To: "Drebes"
Subject: Re: Tufões, etc
Date: Wed, 27 Oct 2004 00:54:16 -0200

Arigatou!Temos que reconhecer que o Brasil eh uma terra abencoada, nao eh?
Bjs,
M.

Ao voltar pro Brasil, ela me contou como estava feliz. Contei para ela que faria a seleção da bolsa para Doutorado no Japão, e trocamos nosso último email quando saiu o resultado, quando soube que estava voltando pra cá. Depois infelizmente perdemos o contato.

Ela era uma guria legal. Não pude considerá-la minha amiga, pois nunca nos encontramos pessoalmente, mas tenho certeza de que nos daríamos muito bem.

Mas não vamos nos encontrar. A Mariana Sell estava no vôo 3054 da TAM. Que sua família e amigos tenham conforto. Que a justiça seja feita e outras pessoas legais como a Mariana não tenham que nos deixar tão novas, sem que eu tenha a chance de conhecê-las. Que não sejam vítimas de outras irresponsabilidades absurdas como essa.

quarta-feira, julho 18, 2007

O que é mais perigoso?

Morar em um país sempre castigado por terrmotos, vulcões e tufões, ou em um país onde tudo relacionado à infraestrutura é feito “nas coxas”?

terça-feira, julho 17, 2007

Um dia é de tufão, o outro de terremoto...

Em primeiro lugar, tá tudo bem aqui. Sobrevivi ao fim de semana ileso. :)

Estava escrevendo um post sobre o tufão que era esperado em Tokyo (e não veio) e sobre os terremotos que não eram esperados mas insistiram em vir mesmo assim. Esqueci de salvar, acabou a bateria, e perdi tudo. :( Vai então só essa versão resumida...

O tufão passou pelas ilhas do sul do Japão e vinha para Tokyo, chegaria no domingo. Tufão é a mesma coisa que furacão, apenas o nome usado na Ásia. Em inglês é typhoon, o que suponho que venha do japonês taifū (台風). O primeiro ideograma é de “pedestal” e o segundo de “vento”. Mas quem imagina um “vento alto” como num tornado, tipo aquele do filme Twister ou do Mágico de Oz, não tem idéia de como ele realmente é. Um tufão é bem maior que um tornado: pode ser visto pelas fotos de satélite e seu “olho” pode chegar a 60km. Na terra a única coisa que se sente são chuvas e ventanias muito fortes (de mais de 200km/h). É como aquele furacão que alcançou o litoral norte do RS em 2004, destruindo casas e deixando cidades em estado de emergência. Um tornado é muito menor, mas deixa um rastro de destruição mais intenso pelo caminho (estreito) por onde passa.

Mas enfim, o tufão era esperado em Tokyo, mudou de direção e foi para o mar. Em Tokyo só teve uma chuva forte de sábado pra domingo. Segunda-feira, o dia amanheceu ensolarado, parecia a calmaria após a tempestade. Até que tudo começou a tremer.

escrevi uma vez sobre como é um terremoto: sobre como geralmente não se vêem coisas caindo e quebrando como aparecem na TV, mas sim como parece que o prédio inteiro está dentro de um avião em turbulência. A diferença do terremoto de hoje é que ele foi longo. A maior tensão durante o terremoto é saber como as coisas vão se desenrolar: se vai tudo terminar logo ou ficar cada vez pior. Quanto antes ele termina, claro, melhor.

E hoje, num feriado ensolarado após um fim de semana chuvoso, às 10:13, as coisas começaram como em qualquer outro terremoto, mas continuaram, continuaram. Estávamos no 4º andar, de um prédio pequeno mas recente - e portanto preparado para terremotos. O prédio dançava como se fosse feito de borracha. No parque em frente, os gritos das crianças que desde cedo jogavam beisebol desapareceram, só se ouviam os corvos. Depois de uns 30, 40 segundos, tudo parou. Ficamos ainda mais alguns segundos vendo se as coisas tinham sossegado mesmo. Abrimos a janela e vimos as pessoas no parque olhando para os postes de iluminação do campo de beisebol. Esperamos mais alguns minutos para que o site de informações do tempo, tufões e terremotos fosse atualizado e vimos que tinha sido grande, na prefeitura de Nigata (新潟), ao noroeste de Tokyo. Fomos aproveitar o dia, o terremoto sendo apenas mais um dos motivos de conversa, e só à noite, na TV, vimos os estragos reais causados por ele.

Antes de dormir, mais uma vez, outro terremoto. Agora não em Nigata mas do outro lado da ilha de Honshu, a principal do Japão. Estava no primeiro andar e não senti ser tão forte nem tão longo. Eram apenas as placas se acertando, tudo indo pro seu devido lugar. Posso agora dormir em “paz”, já que os ovos do Godzilla ainda levarão uns meses para se desenvolver. :)

terça-feira, maio 22, 2007

Negócio da China

A semana da virada de abril para maio é a principal época de feriados do Japão. São originalmente 5 dias de feriado, que, emendando com mais dois dias do meio da semana, tornam-se uma semana inteira que os japoneses aproveitam para descansar. Essa semana é chamada de golden week pois é a oportunidade de ouro para aproveitar.

Como temos nossas responsabilidades por aqui, da mesma forma que os japoneses, não podemos simplesmente sair por uma semana a qualquer momento, e resolvemos aproveitar também a golden week para fazer uma viagem um pouco mais longa que a da Coréia. Escolhemos a China, por ser um país grande com atrações que nos tomariam mais tempo para conhecer.

O ruim de se viajar na golden week é que as passagens são mais caras, e as atrações turísticas no Japão estão todas lotadas. A passagem foi até acessível por comprarmos com certa antecedência. E indo para a China, pensamos, estaríamos fugindo da multidão. Mas nossa desinformação nos traiu: na China a semana do dia do trabalho também acumula feriados, e os chineses, também, aproveitam a época para fazer turismo.

Muito se ouve da China: país do futuro, desenvolvimento desenfreado, mão-de-obra barata, mudanças estruturais, sede das olimpíadas de 2008. Fui para a China para levantar minhas próprias opiniões sobre o país e o povo. E vi muita coisa por lá...

Resumimos nossa visita às duas maiores cidades: Shanghai (上海) e à capital Pequim (北京). Claro, o grande contraste atual da China é entre a vida em cidades como essas e nas províncias do interior, que não visitamos. Não vimos diretamente o abismo que separa a vida na cidade e no campo. Mas mesmo Shanghai e Pequim já apresentam um contraste bastante forte.

Ao chegar em Shanghai, a primeira coisa que vem a cabeça é "Ué, mas a China não era comunista?". Shanghai é uma cidade economicamente desenvolvida e internacionalizada. A quantidade de prédios em construção impressiona, mas é a grande presença de empresas internacionais que chama mais atenção. Aquela música dos anos 80 do RPM dizia que “agora a China bebe Coca Cola”. Hoje em dia, a China “bebe” de tudo: eletrônicos, grifes internacionais, cadeias de fast food. O governo chinês vê Shanghai como a vitrine da nova China. A cidade é legal, mas sem muitas atrações. O mais bacana mesmo é passear pelas ruas. Alias, nos sentimos bem seguros nos nossos passeios, por toda China. Ouvimos tantas histórias de que deveríamos cuidar com a segurança que isso nos chamou atenção. Em nenhum momento sentimos risco físico. O que sentimos, sim, em vários momentos, foi a impressão de que estavam querendo nos passar pra trás.

Pequim, por outro lado, tem muito mais cara de socialista. Grandiosas avenidas, cheias de prédios residenciais, sem tanta ostentação. Pouca presença internacional (pelo menos no centro), exceto pelos luxuosos hotéis construídos para as olimpíadas. Uma grande faxina urbana tem feito desaparecer muito dessa cara socialista. Muitos prédios e vilas são demolidos para darem espaço ao “progresso”. E as vilas que não foram relocadas a tempo, recebem agora um bonito muro que às esconde de quem passa pelas avenidas. Essa demonstração descarada de segregação seria criticada em qualquer parte, mas aqui é natural: se o governo decide, ninguém pode reclamar.

Mas muito do progresso que vemos na China é baseado na construção civíl. Construir é absurdamente barato na China, e se constrói muito mais do que se precisa. É interessante ver os containers nos canteiros de obras onde os obreiros moram. Muitos dos prédios novos estão subutilizados, ou com lojas e empresas que não “correspondem” a prédios daquela escala, outros estão simplesmente vazios mesmo. E esse “desenvolvimento”, por não ser acompanhado da educação das pessoas e sua melhoria de vida, fica parecendo muito falso. A China, curiosamente, segue à risca a idéia de “desenvolvimento” liberal: de que uma economia de mercado ativa trará riqueza que resultará numa melhor vida dos cidadãos. A economia de fato está ótima, mas o povo não vê resultado real dessa riqueza. Nas ruas, além de muita gente miserável, vimos pessoas humildes tirando fotos em frente de grandes hotéis e shopping centers, como que orgulhosas das “conquistas” de seu governo, e esperando o dia em que aquela riqueza também chegará a elas.

A China é um país que não faz sentido. Um país que gasta bilhões para construir um trem de levitação magnética para ligar o aeroporto ao centro de Shanghai, mas não provê educação e saúde gratuitas para seu povo. Um país que se diz socialista e que, após os protestos por liberdade de 1989, resolveu dar sim liberdade ao povo, mas apenas econômica, jogando na lixeira toda ideologia marxista e mantendo apenas a parte do estado totalitário. Um país em plena atividade econômica, mas em crise de valores, com povo pouco crítico e sem senso de comunidade. País de problemas sérios escondidos por uma população gigantesca e um governo com poder total sobre ela. País em transformação, diferente do que era a 5 anos, e diferente do que será nos próximo 5.

Podia escrever sobre o que visitamos na China e as coisas que observamos nas nossas andanças por lá. Sobre como a Muralha é longa, como o Palácio de Verão de Pequim é bonito, como o trânsito é caótico. Mas nos nossos passeios, as questões realmente importantes só ficavam voltando na minha cabeça, e devem ficar em qualquer um que visite a China. Tinha planos de voltar lá durante as olimpíadas, mas pela falta de infraestrutura desisti completamente da idéia. Há muita coisa bonita para se ver na China, mas depois de uma semana, lidar com sua população, trânsito, desatenção a detalhes, cansa. Durante os jogos, ou a China trará grandes dores de cabeças aos turistas que tentarem utilizar a infraestrutura local, ou fará um “mundo de faz de conta” para os turistas com data de expiração. Pois quando o assunto é fachada, a China é especialista.

Como não falei muito sobre a viagem em si, deixo vocês com o álbum completo de fotos (com legendas) e pra quem se interessou pelos assuntos tratados nesse post, recomendo assistirem o documentário online Frontline: The Tank Man.