domingo, setembro 09, 2007

No topo do Japão

Uma atividade bastante comum no verão do Japão é escalar o monte Fuji (富士山). Aos 3776 metros, o vulcão extinto é o ponto mais alto do país e um símbolo nacional, pela estética do seu cone praticamente simétrico.

Existe uma temporada oficial de escalada ao monte Fuji, que vai do início de Julho a 27 de Agosto. Nessa época, a temperatura no topo é mais amena, a neve derrete e diversas cabanas estão abertas nas trilhas de subida provendo serviços para os andarilhos, que vão desde hospedagem para descanso até refeições e bebidas quentes. Estas trilhas existem em todos os lados da montanha e variam em termos de inclinação, do terreno - o que determina a dificuldade de subida - e das cabanas de suporte. Em todas as trilhas, as cabanas são distribuídas em estações numeradas, e geralmente qualquer escalada ao monte Fuji parte da 5ª estação, até onde existem estradas e alcançam os ônibus.

E foi da 5ª estação que partimos. Ano passado muitos dos meus amigos escalaram o Fuji, mas como ainda estava preocupado com a admissão do doutorado e não me sentia 100% preparado, resolvi adiar a “aventura”. Esse ano, sim, já mais apto, encarei a subida com meus amigos Mário (campeão do mundo) e Eunice. Pegamos o ônibus em Shinjuku (新宿) e cerca de duas horas depois chegamos na 5ª estação de Kawaguchiko (河口湖五合目) a 2305 metros de altitude. Descemos do ônibus, visitamos algumas das lojinhas turísticas, e nos preparamos para começar a subida: nos vestimos apropriadamente, comemos uns sanduíches e frutas, fomos no banheiro, preparação completa.

O Sol também é um símbolo para o Japão, tão ou mais importante que o monte Fuji. Ele é representado pelo círculo redondo na bandeira japonesa, e o próprio nome do país, 日本 (nihon ou nippon) identifica essa relação, significando a origem (本) do Sol (日). É daí que vem a expressão “país do sol nascente”. Dá pra imaginar, então, o que representa pro japonês o ritual de assistir o nascer do Sol sob o topo do monte Fuji. Esse é um dos planos mais comuns de subida ao monte Fuji: escalar durante a noite para alcançar o topo nas primeiras horas da manhã e descansar sentado sobre as pedras vendo o amanhecer. Nosso plano também era esse.

Às 8 horas da noite começamos a nossa “subida”. Digo “subida” porque ao iniciarmos a trilha reparamos que estávamos na verdade descendo. Achamos estranho, ninguém havia comentado conosco sobre isso, e pensamos estar no caminho errado, indo na verdade para o lado contrário. Mas não. Logo encontramos uma placa indicando o início da trilha e a partir daí começamos a subir.

“Escalada” faz pensar em equipamentos de alpinismo, cordas, pessoas penduradas. Mas a subida do Fuji não é assim. É apenas uma longa caminhada de algumas horas montanhas acima. É cansativo, mas não difícil. Talvez a maior dificuldade seja lidar com a multidão de pessoas que resolve subir junta todo ano. Cerca de 200 a 300 mil pessoas sobem o Fuji anualmente, o que dá uma média de aproximadamente 3 mil pessoas por dia da temporada. Suponho que a grande maioria faça a subida durante a noite. Em alguns momentos, realmente a rota parava, devido às excursões subindo lentamente pelo caminho. Eu, Mário e Eunice íamos passando esse povo, pelas laterais da trilha. Parávamos em algumas das estações, mas começávamos a ficar ansiosos quando todo o povo que havíamos passado começava a nos passar novamente, e continuávamos nossa subida. Apesar de termos ouvido que um dos maiores problemas que podem ocorrer na subída é acelerar demais e acabar passando mal, nosso grupo era de gente bem preparada que anda rápido. :) Fazíamos pausas para não forçar demais, mas quando era para andar, andávamos pra valer.

Muitas das pessoas que sobem o Fuji compram bastões de madeira para ir se apoiando durante a subida. Eles não são caros, custam cerca de 1000 ienes (~20 reais), mas em cada estação de subida é possível pagar para ter um carimbo estampado com ferro quente no bastão, mostrando o progresso e a realização do objetivo. Acredito que o bastão faz um souvenir legal com os carimbos, mas pensamos que seria apenas mais um peso morto para levar montanha acima, então decidimos não comprá-los, e posso dizer que pelo menos no meu caso não fez falta alguma. Foi bom ter as mãos livres chegando ao fim da subida, onde a trilha era mais íngrime e usar as mãos ajudava a subir - ou pelo menos manter o equilíbrio - sobre as pedras, o que nos ajudou a passar muita gente. A partir da 8ª estação (cerca de 3400 metros) já havíamos passado a maioria das pessoas e a trilha estava bastante vazia. Quando parávamos para recuperar o fôlego (e vai ficando mais difícil mantê-lo a medida que a altitude aumenta) podíamos ouvir um silêncio absoluto e aproveitar o visual da montanha iluminado sobre a lua cheia, o que dava um sentimento de paz e uma motivação a mais para alcançar o topo.

Durante a subida passamos por alguns toriis (鳥居), aqueles pórticos orientais que indicam o caminho para santuários xintoístas, já que no topo do Fuji também existe um pequeno santuário. À uma da manhã alcançamos um desses toriis, e passando por ele chegamos a mais uma cabana, mas essa estava fechada, sem iluminação. Passamos por ela e vimos que a trilha não continuava. Havíamos chegado ao topo, após cerca de 5 horas! Encontramos poucas pessoas que se preparavam com sacos de dormir e cobertas para algumas horas de descanso até que o sol nascesse. Nós também teríamos algumas horas de espera, então resolvi tirar mais alguns agasalhos da mochila e vestí-los - apesar de não estar sentindo frio no momento, por estar com o corpo ainda quente. Tirei meu casaco e fiquei alguns segundos apenas de camiseta no topo do Fuji, o que depois me fez sentir a musculatura contraída. Mas não tive problemas maiores. Escrevi alguns postais - existe uma agência do correio que fica aberta durante o verão no topo do Fuji! - e começamos a procurar um lugar para esperar a noite passar.

Lugar não faltava, apesar de muita gente começando a chegar e se instalar sobre uns estrados de madeira localizados estrategicamente onde o sol viria a nascer horas mais tarde. Mas preferimos ficar sentados na entrada da cabana que havíamos passado e estava fechada, pois era um lugar mais protegido do vento. O chão era de pedra e nada confortável, então tentamos usar nossas mochilas como encosto e proteção. Passada a excitação de termos chegado ao topo, o sono começava a bater, e cochilamos um pouco. Nessa hora o frio apareceu. A temperatura era de 7 graus, plenamente suportável para qualquer gaúcho que se preze ;), mas dormindo o corpo perde mais calor e a coisa complica. Senti bastante frio, e então resolvi me levantar e dar uma caminhada, o que remediou o problema. Mais pessoas foram chegando, o local foi ficando cada vez mais lotado, e pelas 2:30 da manhã uma das cabanas do topo abriu - felizmente não a nossa, pois pudemos continuar onde estávamos - e acabei comprando um café quente. Achei o preço justo: 400 ienes (~8 reais) por uma lata de café, mas no topo do monte Fuji e durante a madrugada! O café me deu energia, o frio passou e, talvez pela cafeína, o sono também. Fiquei atento e empolgado com o crepúsculo que, pelas 4 horas, começava a aparecer. Tiramos algumas fotos, e vimos que o povo todo que havia chegado depois da gente tinha tomado o lugar na nossa frente, então fomos procurar um outro lugar para esperar o exato instante em que o sol aparecesse.

Não foi difícil. Havia uma multidão, mas o topo do Fuji é amplo. Achamos uma região mais alta onde víamos muito bem o horizonte e as pessoas assistindo a nossa frente, mais abaixo. Ao nascer o Sol, pelas cinco da manhã, um Sr. japonês fez um breve discurso, e pedio para que todos gritassem banzai (万歳), grito de celebração japonesa, como o nosso “viva”. Foi então uma seqüência de banzais enquanto as pessoas levantávam os braços. Uma experiência única e emocionante que nunca vou esquecer.

Com o nascer do sol, a temperatura subiu e o dia estava bonito. O Mário estava um pouco tonto, talvez pela altitude, e preferiu voltar para a base. Apesar de estarmos em grupo, comentei com ele e a Eunice que eu me sentia muito bem e que provavelmente não voltaria a subir o Fuji, então pedi a compreensão deles de que gostaria de ficar mais um pouco, dar a volta na caldeira, ir ao correio e ao ponto mais alto do Fuji. Nos despedimos e comecei o passeio.

Voltei a uma das cabanas onde, mais cedo, havia visto um mapa do entorno da caldeira. O mapa estava todo em japonês mas consegui identificar onde estávam as principais “atrações” mas não identificava muito bem como contornar a caldeira. Segui por um caminho mas logo me dei conta de que aquela parecia a trilha de descida. Voltei, tentei pelo outro lado e, aí sim, encontrei o caminho. Ao chegar ao lado oposto de onde havíamos visto o nascer do sol vi, sob a montanha, a sombra perfeita do Fuji sob o vale. Momento de foto, claro. Segui em direção à estação meteorológica1 do Fuji onde sabia ser o ponto mais alto do Japão. Uma fila se espremia na pequena escada que dava acesso a estação e ao marco, e nela fiquei por uns 20 minutos. Felizmente já estava meio que institucionalizado que sempre a pessoa de traz na fila tirava a foto da pessoa da frente junto ao marco. Tirei minha foto, e continuei ao redor da caldeira para visitar o templo e o correio.

O templo estava bastante cheio, mas não conseguia encontrar o correio. Perguntei para um rapaz que parecia trabalhar lá em cima (ele havia recém solicitado a algumas pessoas que saíssem de uma área “off-limits”) e ele me informou que o correio estava fechado! Ficava aberto todo ano somente até o dia 20 de Agosto, semana anterior.

Paciência. Era então hora de descer. Encontrei a trilha de descida, e seu longo zique-zague em direção a 5ª estação. Na trilha paralela de subida dava pra ver muitos retardatários chegando ao cume. A descida é mais rápida, mas tão cansativa quanto a subida pelo impacto, escorregões no chão arenoso e falta de cabanas de serviço. Descia fazendo ainda um segundo zigue-zague dentro do zigue-zague original, descia em alguns momentos de lado e até de costas, para não cansar tanto os mesmos músculos da perna. Fazia paradas para tirar as pedras do sapato, para tomar água. A música nos fones de ouvido ajudava o tempo a passar, assim como tinha feito horas antes durante a subida quando me distanciava um pouco do Mário e Eunice. Até que enfim, com os pés ardendo, cheguei de volta ao ponto de partida.

Precisava então encontrar uma forma de voltar para Tokyo. Havíamos comprado apenas a passagem de ida - já que os ônibus diretos de volta estavam cheios - o que no fim foi bom pois não tive pressa para pegar o ônibus em um horário marcado. Mas isso implicava que deveria então ir até uma estação de trem e fazer ainda algumas baldeações até chegar em casa. Enquanto esperava na fila para comprar a passagem, o Mário e a Eunice me reencontraram. Eles haviam almoçado e ele já estava 100% recuperado. E lá viemos nós, juntos outra vez, de volta pra casa.

A experiência foi muito interessante e válida. Em qualquer conversa sobre escaladas do monte Fuji, sempre alguém comenta uma frase famosa que diz “É um sábio aquele que escala o Fuji uma vez, e um idiota aquele que o faz duas vezes”. Se sou um “sábio” hoje, ainda não descarto a possibilidade de um dia virar um “idiota”: posso um dia vir a subir por outra rota, com outra vista, outra experiência. Mas deixo aqui três dicas muito importantes para qualquer um pensando em subir, independente de rota:

  1. Como o desafio é tanto psicológico quanto físico, somente suba se sentir-se preparado.
  2. Saiba exatamente o que levar, e o que não levar; e
  3. Consulte a previsão do tempo e certifique-se de subir em um dia onde não seja esperada chuva (como fizemos).

O resto é secundário. :)

1 A estação do Fuji é uma estação meteorológica instalada no topo da montanha em 1964. A posição privilegiada permitia que o seu radar tivesse um alcance de 800 km, o que foi essencial na previsão e acompanhamento de tufões no Pacífico desde então. Com a introdução dos satélites meteorológicos, a sua importância foi diminuida e a estação foi desativada em 1994. Mesmo assim, pela sua importância o radar do Fuji é considerado um dos grandes marcos históricos da engenharia elétrica pelo IEEE.

12 comentários:

Daniel-san disse...

Wow, belas fotos! Lembrei de quando subi em 2005, foi divertido, e o céu estrelado era fantástico. A sombra do Fuji tb estava bem legal.

Mas essa do correio estar aberto somente até o dia 20 de julho é estranha: subi no começo de agosto e mandei meus postais de lá, quando estava dando a volta à caldeira.

Até mais!

Roberto Jung Drebes disse...

Opa, erro meu. Era pra ser 20 de Agosto! :) Post corrigido.

Cláudio disse...

Muito legal! Vou botar na minha agenda quando visitar o Japão. Infelizmente não tem nenhuma grande montanha para escalar aqui na Finlândia, mas vou fazer uns hikings tundra pra me preparar... Abraco!

Gabriela (irmã do Jonas da AIESEC!) disse...

Banzai, Drebes!!!!! \o/

Descobri teu blog por essas coincidências inacreditáveis do mundo virtual! É muito legal ler (e ver) o que tu escreve aí do outro lado do mundo... Teus posts são ótimos e com muito conteúdo!
Bem, resolvi sair do anonimato porque fiquei emocionadíssima com essa escalada ao monte Fuji!
Abraço!

Paulo Bonzanini disse...

Belo relato da escalada, Drebes! Parabéns e siga firme nos relatando tuas experiências pelo oriente. Abraço, Paulo Bonzanini

Claus disse...

Cara! Que bom que tu subiste e desceste sem grandes problemas - alias, sem o grande problema de descer pela trilha errada quando vens por kawaguchi-ko - voces nem chegaram a ficar na duvida na hora em que a descida se divide em dois?

Roberto Jung Drebes disse...

Oi Claus,

Tinha uma placa indicando pra onde ia cada lado. Acho até que estava em romaji também. Além disso, na subida, no primeiro ponto de socorro, eles distribuíam folhetos com dicas, e nela tinham indicadas todas as trilhas.

Abraço,

émerson disse...

Muito boa, meu guri!
Abraço.

Atsu disse...

Eu ainda nao subi o fuji, so vi de longe varias vezes a caminho de tokyo pela janela do trem bala.

Deixo uma dica pra quem pretende subir o fuji, comece tomando comprimidos de ferro umas 2 semanas antes da data, isso evita dore de cabeca e efeitos da altitude, quando fui a macchu-picchu isso me ajudou bastante.

Laura disse...

oi Drebes!

passei o link do teu blog para minha mae, que esta indo para Japao e China com um grupo de amigos. Acho que vai ser uma boa fonte de informacoes. ;)

Abraços!
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Laura

Anônimo disse...

Nego, c viu a sombra do Fuji !!!

Reginaldo disse...

Apesar de estar sossegado ja por uns 3 seculos, acho que nao da pra dizer que o vulcao esta extinto. Ele eh considerado ativo por muita gente e em 2000 teve uns terremotos sob ele que deixou o pessoal alerta.