sexta-feira, dezembro 15, 2006

Com o cosmo em seus dedos

Ontem à noite foi o jogo do Inter. Eu estava lá. Acho que muitos devem esperar que eu escreva hoje sobre como foi o jogo, ou sobre como foi estar assistindo ao vivo, mas pra decepção da torcida colorada, não é sobre isso que vou escrever. O que eu tenho pra contar é sobre algo que assisti ontem à tarde, em uma das séries de seminários que estou matriculado. Foi algo inesperado e bastante interessante. E espero que os colorados, depois de lerem, concordem comigo que valeu a pena deixar o jogo para depois.

Uma das coisas legais do departamento onde faço doutorado é que ele é multidisciplinar. O departamento, chamado “Advanced Interdisciplinary Studies”, apesar de ser ligado à escola de engenharia, também possui estudantes das áreas de biologia, sociologia, direito etc. Este semestre, além de uma série de seminários sobre dispositivos físicos do estado-da-arte, resolvi me matricular também nos seminários sobre “sistemas sociais”. Fiquei meio em dúvida sobre isso, pois eles fogem (bastante) da minha área de pesquisa (computação - tolerância a falhas), mas, apesar de serem todos em japonês e eu entender cerca de 5% do que está sendo apresentado, são sempre muito interessantes, coisas realmente novas para mim. Só lamento que meu nível de japonês não me permite levar comigo muito mais do que ali é passado.

Chegando na aula ontem, um professor estava preparando o projetor para sua apresentação, e sentado junto a audiência estava um outro japonês, engravatado, acompanhado de duas moças. Os três estavam de costas para os alunos, e o homem falava com o professor, usando uma voz estranha, alta para os padrões japoneses e com uma flutuação forte na entonação. Achei estranho, mas já me acostumei a achar tantas coisas aqui estranhas que não dei muita bola.

Quando o professor termina a preparação do equipamento, o japonês da voz estranha e uma das moças se levantam, se viram para os alunos e ele começa a falar. Então reparo que ele é cego, e as moças são suas assistentes. Ele pergunta para ela quantas pessoas estão presentes. Ela da uma olhada geral e diz para ele um número aproximado. Não entendo muito bem o que está acontecendo, como sempre, tudo acontece em japonês. Mas reparo que ela segura ambas as mãos dele, e enquanto fala, bate com os seus dedos nos dedos do homem.

Por que ela faz aquilo? Parece que, além de ser auxiliar dele, a moça tem algum tique nervoso. Ou ainda, que ele tem mais alguma deficiência, que exige que ela o toque para lhe passar algum feedback. Continuo assistindo, sem entender plenamente o que está acontecendo, enquanto os alunos distribuem um texto do palestrante. Pego a minha cópia, começo a examinar, verifico estar quase tudo em japonês, exceto o final, que apresenta um poema em inglês. O poema se chama “Cosmos on my Fingertips” (O Cosmo em meus Dedos) e diz:

When light and sound vanished from my life,
There ceased to be words,
And the world was no more.

Alone in the dark and silence,
I sat motionless, wordless.

But when your fingers touched my fingertips,
Words emerged into being,
Throwing light and invoking melodies lost.

When I communicated with you through my fingertips,
There arose a new cosmos,
And I discovered the world again.

Communication is my life.
My life is and will always be with words --
Words spun out from the cosmos on my fingertips.

Ao terminar de ler esse poema, senti um arrepio, uma sensação estranha, enquanto finalmente entendia aquela pessoa que estava ali. Ele era um surdo-cego, e a moça “digitava” em seus dedos o que estava escutando.

Depois recebi outra cópia do texto, esta em inglês. Aí tive mais detalhes. O nome do homem era Satoshi Fukushima (福島智), e ele é professor da Universidade de Tokyo. O texto distribuído era uma cópia de seu discurso de abertura da 2a Conferência Internacional para o Design Universal, que aconteceu este ano em Kyoto. O Prof. Fukushima nasceu com audição e visão normais, tendo portanto aprendido a se comunicar, mas aos 9 anos de idade perdeu a visão. Aos 18, para seu desespero, perdeu sua audição, tornando-se um surdo-cego. Segundo sua apresentação, o número de pessoas na mesma situação é de 1 para 5 mil a 1 para 10 mil, sendo portanto muito mais comum do que se pode imaginar (supondo o número menor, no Brasil devem existir cerca de 20 mil pessoas nessa situação!). A grande virada em sua vida foi o invenção, junto com sua mãe, da técnica chamada finger Braille que é esta digitação das palavras em seus dedos e o reconhecimento através do tato. Com ela, ele pode continuar seus estudos, sendo o primeiro surdo-cego a entrar em uma universidade, se formar, e finalmente se tornar professor da universidade mais conceituada do Japão.

Passada a apresentação inicial, a palavra voltou ao Professor que inicialmente preparava o projetor, que apresentou sobre técnicas de auxílio aos deficientes. A palestra foi uma das mais interessantes dessa série de seminários e, apesar da língua, em uma das quais mais entendi sobre o que se estava falando. Foram mostradas técnicas de reconhecimento de sons por surdos, o funcionamento de uma laringe artificial, a percepção do ambiente por cegos, robôs de auxílios aos deficientes, além de diversas outros “milagres” tecnológicos.

E, paradoxalmente, enquanto eu estava ali com meus 5 sentidos intactos, entendendo cerca de 10% do que estava sendo apresentado, o Prof. Fukushima, com suas duas assistentes que se revezavam a cada 20 minutos em seus dedos, provavelmente estava absorvendo mais de 95% do conteúdo da apresentação. Com esse pensamento na cabeça, saí da aula para o jogo do Inter, que fica para um outro post...

6 comentários:

Alberto Egon disse...

Nao, nao concordo porra!!! Da-lhe COLORADOOOOOOOOO!!!!!!!!!!

"Colorado, Colorado,
Nada vai nos separar,
Somos todos teus seguidores,
Para sempre vou te amar!"

Roberto Jung Drebes disse...

Ah Egon, tu não conta que tu é o garoto problema... :)

sonia disse...

Fiquei sem palavras :(.
Bjs Sônia

Mario disse...

eh, tens razao...
Deixa o colorado pra outro post, pq esse mereceu.

Roberto Issler disse...

roberto aqui é o roberto issler, vizinho de consultório e cliente da tua irmã e gremista que viu o gol do baltazar ao vivo no morumbi em 1981 (tu tinhas só tres anos e não pode se lembrar) entendo a tua emocão algo contida ao descrever o jogo do inter, não como um torcedor doentio mas como um quase repórter com certo distanciamento da situacão. (...)

Roberto Issler disse...

(...)gostei dos teus textos, gostei da história do prof. furukawa e gostei da tua sensibilidade em saber separar os dois assuntos. bons estudos, parabéns pelo inter (tenho que admitir que mereceram) e boa sorte por aí. se a informática não der certo, tenta o jornalismo.
um abraco
roberto issler (robertoissler@terra.com.br)