quarta-feira, março 04, 2009

Dessa vez, não era uma pedra.

Hoje, quando ia para o laboratório, logo após sair da estação próxima de casa, o trem parou. Não foi uma parada brusca, foi parando suave, até que parou completamente, no meio do caminho até a estação seguinte. Não fazia nem um minuto que tinhamos partido, e nem um minuto depois de pararmos, o aviso foi feito no sistema de som: “este trem parou por um acidente com atropelamento”. Tive a mais triste das “experiências típicas” do Japão: fui testemunha de um suicídio nos trilhos do trem.

Por incrível que pareça, isso é comum. Seguido, nos trens que circulam dentro de Tóquio, podem ser vistos avisos de que os trens estão atrasados por motivos de “acidentes nos trilhos”, mas nunca havia acontecido de ser justamente no trem em que eu estava. Após o anúncio, alguns passageiros até demonstraram alguma reação, mais de surpresa, quebra de rotina, mas muitos não tiveram reação alguma, continuaram como se fosse o tradicional anúncio de qual é a próxima estação de parada. Entre os que reagiram, a maioria se limitou a pegar o celular para enviar mensagens. E o trem ficou ali parado, por 15 minutos, com as pessoas sentadas esperando. Aos poucos, os passageiros foram telefonando e avisando que chegariam atrasados em seus compromissos devido ao acidente, mas nenhuma pessoa demonstrou curiosidade sobre o ocorrido, tentando ver o que estava acontecendo ou contando mais sobre o acidente no celular. Após os 15 minutos, o funcionário do trem - além do maquinista, os trens costumam ter um outro funcionário no fim do último vagão que é responsável pelos avisos e pela abertura e fechamento das portas - voltou a anunciar sobre o ocorrido, com uma voz bastante nervosa e cometendo erros.

Paramos na próxima estação, pegamos mais alguns passageiros, mas assim que partirmos fomos avisados de que aquele trem sairia de operação na próxima estação, e todos deveriam descer. Lá, todos desembarcamos, a plataforma ficou lotada, e o trem foi movido para um dos trilhos paralelos, onde funcionários observaram a frente do trem (não havia marcas, apenas um pouco de sangue na lateral do pára-choque) e a parte inferior do primeiro vagão.

As pessoas embaracaram no próximo trem continuando para suas estações de destino, onde chegando muitos pegaram o “comprovante de atraso”, um pequeno formulário que as empresas de trem já tem preparados para distribuir sempre que uma linha de trem atrasa mais que alguns minutos. Estes documentos são usados para justificar porque as pessoas não chegaram a tempo em seus compromissos. A pontualidade do japonês depende em grande parte da pontualidade dos trens: existem sites onde, informando-se qualquer estação de origem e de destino dentro do Japão, o sistema calcula toda a rota e horários que devem ser tomados para se chegar ao destino em qualquer horário definido. Na grande maioria dos casos (isto é, quando não há imprevistos) esses sistemas funcionam muito bem e nos fazem poupar muito tempo. Mas quando algo de diferente acontece, a realidade fica inconsistente com os horários pré-determinados por horas, até que os trens consigam recuperar o atraso.

Eu não sei o que leva tantas pessoas no Japão a se suicidarem, mas eu tenho uma teoria. A socieade japonesa não dá muita liberdade ao indivíduo de dar rumo a sua própria vida. O japonês típico tem uma vida confortável, mas, na minha visão, sem graça. Parece que todo japonês leva a mesma vida: nasce, entra na escola, aprende a conviver com os coleguinhas e ser um “bom japonês”, se mata estudando no colégio para entrar na faculdade, vadia durante os 4 anos de faculdade (e às vezes mais dois no mestrado), encontra um emprego de escritório em uma grande empresa japonesa, se casa, tem filhos, se mata trabalhando na mesma empresa até envelhecer, perdendo contato com a própria família, que passa a considerá-lo um estranho quando ele retorna ao convívio doméstico após se aposentar. É como se a sociedade o colocasse numa esteira lá no início da vida, e sem que a pessoa tenha que tomar nenhuma grande decisão, ela vai passando por ele, sem muito controle sobre ela.

Só que essa mesma esteira que provê uma vida fácil e confortável, torna um transtorno a vida de qualquer um que queira ter experiências diferentes. Japoneses não gostam de viver por um tempo no exterior pois tem medo de não conseguir reentrar na sociedade após a volta, não gostam de empreender pois tem medo de não conseguirem retornar aos seus empregos caso o empreendimento não de certo. Não saem da esteira porque é ela a forma “certa” de viver, e qualquer um que o faça é visto com estranheza, como um dissidente que tenta quebrar a harmonia do grupo. Ou, ainda que a pessoa não tenha grandes ambições de fazer e ser diferente, ela simplesmente não sabe como agir quando a vida coloca diante dela uma situação em que, pela primeira vez, ela tenha que decidir por si só como agir. É como os horários dos trens: funcionam perfeitamente até alguma coisa saia dos planos. E essa pressão é o que acredito ser a causa de tanta depressão, um sentimento de que a vida é tão miserável e que não vale a pena ser vivida, que termina levando tantas pessoas a achar como única saída se jogar na frente de um trem, não precisar mais dar satisfação a ninguém.

Coincidentemente, após o “transtorno” causado pelo pobre cidadão, chego no laboratório e encontro esse ensaio do New York Times de um japonês comentando sobre a “crise psicológica” que assola o país, e que em alguns pontos vai ao encontro do que escrevi aqui.

6 comentários:

Artur Thompsen Carpes disse...

Por isso tanta dificuldade em pegar o londrino nu que nadou parcimoniosamente nas águas do palácio imperial (!).

mariane disse...

Muito legal o texto.

Mas um detalhe, como assim vadia 4 anos na faculdade ? As faculdades japonesas são facilzinhas ?

Reginaldo disse...

Sinal de que cada pais tem suas caracteristicas. No Brasil, por outro lado, coisas imprevisiveis como acidentes de transito e assaltos fazem parte do cotidiano.

Roberto Jung Drebes disse...

@mariane Acho que não é questão de ser fácil ou difícil, mas de não ensinar a pensar. Todo japonês quando entra em uma empresa, fica um ou dois anos só aprendendo a fazer o que vai fazer na empresa nos próximos anos, então o que é ensinado na faculdade não é muito útil/prático.

@Reginaldo

Concordo, não acho que aqui seja pior (nem melhor) que lá, apenas diferente.

vegvisir disse...

Grande Drebes!!!

Descobri hoje o seu blog, com um mail da Fernanda... muito legal!

Tenho uma mania grave: gosto de ler tudo, desde o começo. Então, antes de comentar seriamente por aqui, vou ler todos os posts antigos...

Eu também tenho um blog onde conto minhas vaigens por esse mundão... vou colocar o link para seus relatos lá, pode ser? Depois faça uma visitinha: http://vegvisir.wordpress.com/

Abraços, meu caro!

Hernani

João Otero disse...

Cara, muito bom.
O livre arbítrio é muito mais importante para a qualidade de vida do que o conforto físico. Veja-se algumas prisões (do mundo civilizado), como exemplo extremado.
Nos EUA, percebi algo na mesma linha, embora não tão drástico quanto no Japão: a sociedade diz-se "livre", mas são controlados demais pelo sistema.
Nada como o Brasil, o México... Temos outros problemas; mas temos mais qualidade de vida, na minha opinião.
Abraço,
JC