quarta-feira, janeiro 24, 2007

Golpe mútuo

Não sei ao certo quando foi a primeira vez que tive contato com o sumô (相撲), mas sei que foi vendo algo na TV, e lembro da estranheza e graça que senti pela idéia de ver dois homens grandes, gordos e seminus tentando se empurrar pra fora de um círculo como duas crianças. Depois disso, não tive mais contato algum com o esporte, a não ser por uma tentativa falha de assistir alguma partida da outra vez que estive no Japão em 2003.

No início de janeiro tive a oportunidade de assistir, finalmente, a uma luta de sumô aqui em Tokyo. E o que posso dizer é que minha opinião não poderia estar mais errada: sumô é um esporte bonito, civilizado e emocionante.

Existem seis torneiros de sumô profissional, ou honbashos (本場所), por ano no Japão, três aqui em Tokyo (em Janeiro, Maio e Setembro) além de um em Osaka (em Março), um em Nagoya (em Julho) e um em Fukuoka (em Novembro). Neste dia em que fomos era o primeiro dia do campeonato de Janeiro, portanto além das tradicionais lutas, foram feitas algumas cerimônias de premiação do campeonato anterior. O local do torneio é o Ryogoku Kokugikan (両国国技館), um ginásio fechado construído exclusivamente para a prática do sumô, com capacidade para 13 mil pessoas. O próprio ginásio já é uma atração em si: dividido em dois pisos, no térreo ficam os “assentos” de primeira categoria. “Assentos” porque ao se comprar um ingresso para estes lugares, se está na verdade comprando uma pequena área quadrada onde se senta no chão, em almofadas. Cada área é um “camarote” para quatro pessoas. Os assentos do segundo piso, onde sentamos, são poltronas confortáveis que se assemelham mais a cadeiras de cinema do que de prédios esportivos. Algumas delas ainda possuem mesa retrátil para se comer ou fazer anotações.

Ryogoku (両国) é a vizinhança de Tokyo onde fica o Kokugikan, conhecida como o local mais tradicional do sumô na cidade, e no país. Ainda dentro da estação de trem do bairro se podem ver grandes fotos de tradicionais lutadores de sumo, os rikishis (力士), e nos arredores diversas estátuas de outros lutadores, com placas onde se podem ver moldes das suas mãos e, mais divertido, se comparar com as nossas. Na vizinhança também se encontram diversas “escolas de treino” de sumô e conseqüentemente os lutadores são facilmente encontrados pelas ruas, mesmo quando não há campeonato.

Num dia de torneio as lutas começam pela manhã e se estendem até o final da tarde. A qualidade técnica dos lutadores vai aumentando, deixando os melhores momentos para o grande final. As duas últimas categorias são, portanto, as duas superiores, e mesmo dentro de cada categoria são respeitadas ordens de classificação, logo a última luta do dia é a do atual campeão. Para enfrentar o dia inteiro assistindo lutas, é necessário se alimentar. Perto do meio dia é possível almoçar no estádio um prato chamado chankonabe (ちゃんこ鍋), um fervido/sopa de vegetais, tradicionalmente comido pelos lutadores para lhes dar força e peso, por um preço bastante acessível. Além disso, o público leva seus bentos (弁当), espécie de “merendeiras” onde uma variedade de alimentos é distribuída em compartimentos específicos. Os espectadores sentados nos lugares mais caros, do primeiro piso, tem direito a receber gratuitamente diversos bentos durante o dia. O público dos lugares ordinários pode levar seu próprio lanche, ou comprar os bentos no próprio ginásio. O interessante destes bentos vendidos no local é que eles são “assinados” pelos lutadores mais famosos, tendo comidas que eles gostam, ou típicas de seus países.

Alias, essa é uma surpresa pra muitos. Não existem rikishis somente japoneses. O campeão atual, inclusive, é da Mongólia, onde o esporte é muito popular. Existem também coreanos, búlgaros, russos, até brasileiros, gente de vários países nas diversas categorias.

Mas vamos falar das lutas. O sumô, como talvez esporte mais tipicamente japonês, não podia ser diferente de outras atividades culturais do país e é, portanto, cheio de rituais. A cada início das partidas de uma categoria, uma cerimônia é feita para a entrada dos lutadores na arena. Os juízes, também, apresentam os lutadores de forma bastante característica em uma voz forçadamente aguda, além de se vestirem com roupas estranhas que lembram a de antigos monges xintoístas, de onde grande parte das tradições do sumô se originam.

Uma destas tradições é o arremesso ao ar de um punhado de sal pelos lutadores na entrada no dohyo (土俵), o “ringue” do sumô. Este gesto tem o intuito de purificar o local e também tem origem xintoísta. O dohyo, como costumam brincar, deve ser bastante resistente e é feito de argila e areia, sendo reconstruído a cada campeonato. O arremesso de sal é marca tradicional de alguns lutadores, que o fazem de forma exagerada para o delírio das crianças (e muitos adultos) presentes.

Estando os dois lutadores apresentados e prontos para a luta, começa uma espécie de “guerra fria” onde eles ficam se encarando e realizando diversos “falsos começos”, como dois animais esperando para dar o bote. Essa fase, antigamente, podia tomar muito tempo por não haver limite, mas atualmente deve se estender por no máximo 4 minutos. Nesse tempo, diz-se que os lutadores estão tentando alcançar o clímax da concentração para a luta, que, sendo alcançado, finalmente começa.

Vou ser sincero e dizer que exceto pelas lutas das mais altas categorias, o sumô é meio chato, pois são muito rápidas e logo terminam. Um lutador facilmente empurra seu oponente pra fora, ou o desequilibra e o faz encostar qualquer parte do corpo diferente das solas dos pés no chão, o que implica em uma derrota. Mas é bem diferente nas categorias de topo! Os lutadores ficam num confronto de força e técnica por alguns minutos e é bonito de ver. Como de geral são as coisas no Japão, no sumô também, apesar de um esporte de luta, é tudo muito civilizado! E mesmo não conhecendo nenhum dos dois que está ali no dohyo, dá vontade de torcer. Dá vontade de ver a técnica do menor lutador vencendo o peso do mais forte, ou que eles fiquem num empurra-empurra eterno até que um canse ou faça um movimento errado e seja derrotado. E o público japonês, também, torce, se manifesta, xinga (clique para o vídeo), completamente o oposto do visto nos jogos de futebol! Sim, existe emoção no coração japonês, e ela se manifesta através do sumô.

4 comentários:

Romulo disse...

Excelente post, Drebes-sama. Espero ter a mesma boa companhia no basho de maio! Hakkyoooi! Abração!

Claus disse...

Olas!

Como todo bom ritual, mesmo o "lancamento de sal" nao existe apenas pela tradicao. Ouvi dizer que essa tradicao se espalhou (mesmo que os responsaveis por ela nao soubessem) por causa do efeito desinfetante do sal.

Falows!

Gustavo Andriotti disse...

Tah é um comentário besta: mas po até aí tem a famosa "coreia" nos estádios :-)

Po de aplica aí e vai praticar tb. Tá certo que tu precisa dar uma "engordadinha" antes :-)

Grande abraco.

Atsunori Ando disse...

Aeee

Gostei da explicacao de como funciona o campeonato de sumo, minha vo tentou me explicar no ano novo, mas nao tinha entendido muito bem, agora que li o teu post, ficou tudo claro!

[]'s