domingo, maio 31, 2009

Em busca da sustentabilidade

Já faz um tempo que eu queria escrever um post sobre como é o sistema de lixo aqui no Japão. A Fernanda escreveu um email sobre o assunto para seus amigos, e eu gostei tanto que convidei ela para colocar o texto aqui e compartilhar com vocês. Espero que gostem!

-- Roberto Jung Drebes

O tema de hoje é algo com que me preocupo já há alguns anos: a consciência ambiental.

Toda vez que acabava a carga das pilhas da calculadora, do dicionário eletrônico, do controle remoto etc. eu lembrava que eu deveria comprar pilhas recarregáveis para substituí-las. Mas pela comodidade de comprar uma cartela de pilhas na loja da esquina por 2 reais, eu acabava me acomodando. Este mês, pus fim a essa inércia: dediquei parte do meu orçamento mensal a um carregador de pilhas e a um conjunto de pilhas AA e AAA recarregáveis. Não foi barato: paguei cerca de 140 reais no conjunto (embora a conta pudesse ser menor, talvez menos de 100 reais, se eu comprasse pilhas com menor capacidade e um carregador mais lento). Esse custo provavelmente demorará para ser compensado pela não-necessidade de comprar pilhas, ou talvez, nunca será compensado. Porém, o motivo de eu ter feito essa opção não foi financeiro, e sim ambiental.

As pilhas jogadas no lixo comum contaminam o solo e os lençóis freáticos, pois muitas delas contém metais pesados e outras subtâncias tóxicas. Mesmo separando para reciclagem, o gasto de material e energia é inevitável. Na embalagem do carregador que eu comprei diz que eu posso carregar as pilhas cerca de 1200 vezes. Imaginem o número de pilhas que eu vou evitar comprar, usar e jogar.

Desde adolescente me interessa o assunto de reciclagem do lixo. Em 1992 teve uma campanha de conscientização sobre a reciclagem do lixo em Curitiba ("Lixo que não é lixo não vai pro lixo. Se-pa-re!"), e desde então minha família passou a ter o hábito de separar lixos recicláveis. Quando mudei a Campinas, vi que esse costume não era tão comum. Era estranho jogar casca de banana junto com o potinho de iogurte. Mas ao morar com umas amigas da universidade, decidimos separar o lixo, e minha consciência ficou mais tranquila. Se realmente todo esse material é reciclado, é outra história. Mas fazemos nossa parte.

Aqui no Japão há diferentes regras de separação do lixo, variando com a região onde se mora. Até mesmo dentro de Tóquio, cada distrito tem sua regra. Há lugares onde a separação é bem rígida, mas no distrito onde moro é razoavelmente simples: lixos incineráveis, não-incineráveis, latas, garrafas pet, garrafas de vidro, bandeja de isopor e papel. Além disso, tem os postos de coleta de pilhas e baterias, óleo usado, tecidos e outros lixos específicos. O material reciclável separado é pouco, mas imagino que esse pouco realmente seja reciclado. Com a falta de espaço para despejar o lixo que 120 milhões de pessoas produzem numa área 23 menor que do Brasil, o Japão apela para a combustão do lixo, que eu não acho muito ecológico, pelo gasto de energia e geração de dióxido de carbono, mas que não é muito pior que acumular nos imensos lixões como no Brasil. Aliás, mesmo as grandes cidades do Brasil também já estão tendo problemas com o despejo do lixo.

Se reciclar é bom, diminuir o lixo é ainda melhor. Quando eu morava no dormitório da universidade, no meu primeiro ano no Japão, acumulei tanta sacola de plástico de supermercado que, na hora de me mudar, joguei fora uma sacola cheia de sacolas dentro, e ainda levei uma parte delas para a minha nova casa, para diminuir um pouco o peso na consciência. O acúmulo de sacos plásticos se deu principalmente pelo fato de eu receber sacos de lixo no dormitório, o que fazia com que eu não usasse as minhas sacolas para jogar o lixo, além da minha falta de costume de usar sacolas não-descartáveis. Eu ganhei uma sacola de pano nos primeiros meses de Japão, mas mesmo assim às vezes esquecia de levá-la ao supermercado e outras, esquecia de dizer ao caixa para que não colocasse as mercadorias nas sacolas de plástico. Com o tempo, fui me educando a usar a sacola de pano e desde então tenho diminuído consideravelmente o volume de sacolas na minha casa. Se eu sozinha juntei um volume tão grande de sacolas, penso na quantidade de sacolas poderiam deixar de ser produzidas - e descartadas - se todos usassem sacolas reutilizáveis.

Embora o Japão se preocupe com a reciclagem, é também um país que gera muito lixo, e um dos principais motivos é o excessivo uso de embalagens (sem entrar no assunto de descarte de eletrônicos). Às vezes compro um pacote de biscoitos querendo "encher a mão" e colocar vários na boca de uma vez, e meu prazer é barrado ao ver que os biscoitos estão embalados um a um. A apresentação é impecável, mas o gasto de material poderia ser reduzido... Além disso, os japoneses tem hábito de comer "obento", ou seja, marmita. Originalmente esses obento eram preparados em casa pela dedicada esposa e mãe, que cozinhava e enfeitava as marmitas para seus maridos e filhos levarem no trabalho e nos passeios da escola. Porém, com o passar dos tempos, a praticidade tomou conta das suas vidas, e os obento passaram a ser vendidos em lojas de conveniência e até em lojas especializadas em obento. E com isso, mais embalagens de plástico, mini-garrafinhas de shoyu, sachês de molho, hashi descartável etc. passaram a ser gerados.

Na onda do ecologicamente correto, juntanto produtos ganhados e comprados, montei meu kit-obento: a marmita propriamente dita (chamo de "obentozeira"); kit-talheres desmontáveis, com garfo, colher e hashi; porta-oniguiri (bolinho de arroz) lindo com cara de porquinho; garrafinha térmica; sacolinha térmica para levar o obento. Para falar a verdade, não diminuo tanto lixo com esse "kit", pois eu nunca tive o costume de comprar obento pronto, já que não é muito saboroso. Eu só diminuí a frequência com que vou ao refeitório da faculdade, o que me fez economizar um pouco de dinheiro e ainda me permitiu fazer comidas do meu gosto. Porém, o uso do porta-oniguiri evitou o uso de filmes plásticos, que inicialmente eu usava para embalá-los, e a garrafa térmica diminuiu a compra de bebidas em garrafas pet.

Minha mensagem é, como diz na minha sacolinha reutilizável: Reduza, Reuse, Recicle. Dizer que só um não faz diferença é desculpa para não começar. Um vezes 6 bilhões deve fazer diferença. E o que eu falei é uma parte muito pequena do problema todo. O que mais podemos fazer pelo futuro do nosso planeta?

9 comentários:

Claus disse...

Pra mim o mais dificil dessa historia toda de reciclagem nao eh nem separar o lixo, mas sim ter que acordar as 7 da manha pra jogar o lixo fora 3 vezes pos semana. (O caminhao de lixo so passa ate as 8, e cada lixo soh eh recolhido uma vez por semana no meu bairro :-P)

Roberto Jung Drebes disse...

Eu costumo deixar o lixo na noite anterior.

Rafa disse...

eu gostava dessa coisa de separar o lixo no jp.
aqui eu separo o lixo, mas nao ha coleta seletiva em brasilia. :(
.
[]s
miura

Bianca disse...

Gostei muito do que a Fernanda escreveu! Até deu vontade de espalhar a ideia pros outros!
Vc viu a qtd de pilhas na minha casa né? Vou ver se dou um jeito nisso.
Gostei do porta onigiri da Fe! Bem bonitinho!!!!

Eu tb deixo o lixo na noite anterior. Mas lembro que lá em Asakusa, eles falam que é para deixar o moerugomi lá fora na manhã mesmo por causa dos corvos.

beijos

Bia

Fernanda disse...

Bia, hoje em dia o caminhão do lixo de Asakusa passa depois das 11h, então dá para deixar o lixo de manhã sem precisar acordar cedo!
E o porta oniguiri eu ganhei do Drebes! :) Que lindo, né?

Anna Paula Watanabe disse...

Eu adorei o texto e até vou mandar para todos meus amigos, pois tenho as mesmas preocupações em separar para reciclar e evitar gerar lixo. E olha que em São Paulo eu tenho que enfiar meu lixo no carro e levar num local de coleta. Tbém procuro levar meus potes pra pegar marmita, o pessoal até olha achando graça de você! O que falta na maioria das pessoas é consciência. A iniciativa de vcs é muito legal. Parabéns aos dois!

Carolina disse...

Fe, bela mensagem! Vou indicar para meus amigos e conhecidos.
Agora, com os brinquedos do Lucinho, percebi que o gasto de pilhas é gigantesco...! Hoje praticamente qualquer brinquedo tem uma luz que pisca, um som, um barulhinho, demandando o uso de pilhas. Devido a essa realidade, para os pais, é muito melhor do lado ambiental e também do financeiro utilizar pilhas recarregáveis. Tenho passado essa idéia para os pais dos amiguinhos dele na escola.
Você lembra daquela Feira de Ciências do Paranaense, em 96? Nosso trabalho sobre tratamento de resíduos foi uma das razões pelas quais optei por Eng. Química... quando li a mensagem lembrei até do "amassador" de latinhas que a Ana Renata conseguiu pra gente com a Coca Cola!
Aqui no meu prédio implantamos um sistema de coleta de óleo de cozinha, participando de uma cooperativa que produz sabão a partir desse óleo residual.
Como você disse, precisamos rever atitudes simples como o uso das "eco bags" ao ir ao mercado, a segregação de lixo, priorizar produtos que possuem apenas a embalagem principal e não aquele monte de embalagens secundárias, produtos de empresas que atestam respeitar e fomentar iniciativas de cuidado com o planeta e assim por diante.
É bom ver que há tantas pessoas preocupadas com o futuro do nosso planeta!

Artur disse...

Estava com saudades de novas postagens por aqui...A cultura, ambiental ou não, sempre em alta por aqui. Parabéns pelo texto, Fernanda! Ah, mesmo que não tenha qualquer coisa a ver, aproveito para dizer ao Roberto que ontem estava no Zaffari e comprei dois sacos de Pastelina. Abraços!

Inocima disse...

descobri o blog através de um post do Roberto na lista dos Sempais, mas já adorei este post.

Sobre a questão das pilhas, eu vou só acrescentar que é possível adquirir um kit de 4 pilhas mais recarregador por cerca de R$20 (1000 ienes) até se você procurar bem (adquiri as minhas faz uns 6 meses para utilizar no teclado e mouse sem fio), então a opção por utilizá-las pode ser também simplesmente uma escolha econômica e de quebra, ecológica.